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DAQUI TE ESCREVO

Vivo como operário em dia de folga, imponente como um rei

Sexta-feira tem crônica nova na coluna Daqui te Escrevo, publicada por Anderson Araújo, escritor e jornalsta da equipe do DOL. Leia e compartilhe nas redes!

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Imagem ilustrativa da notícia Vivo como operário em dia de folga, imponente como um rei camera Arte: Emerson coe e Thiago Sarame

Ele era um velho espírito da floresta. Não, não era nada disso. Ele era um turrão por fora, a distribuir antipatia gratuita e o fedor amargo que alguns idosos soltam, e a docilidade da criança primordial por dentro. Pra ser honesto, também não se aplicava. Estava muito mais para um jovem dos anos 50 a descobrir e, ao mesmo tempo, inventar a rebeldia juvenil. Parecia também um caubói marcado por tragédias com um olhar parado cheio de significados que ninguém jamais ousaria compreender.

Não me lembro de quando nos encontramos pela primeira vez, contudo guardo a certeza de que ele fez pouco caso ao me ver. Deve apenas ter me percebido na casa e ter me olhado com o que parecia desprezo, mas estava longe de ser. No primeiro momento, acreditei que a postura era de quem alimentava um complexo de superioridade e se via como um semideus. Estive enganado por um tempo até entender essa expressão, muito mais ligada à observação cautelosa de tudo ao redor, muito mais a ver com ser senhor de si e do mundo e não ter nenhuma pressa para demandas, próprias ou alheias. Havia atingido uma espécie de iluminação, muito melhor do que as de cunho religioso por ser fruto apenas da sobrevivência e de pensar sobre a vida com uma calma incomum.

Pudera, com superpoderes também ousaria ter muito mais paciência para ver o mundo do meu pedestal invisível. Ele ouvia tudo muito bem e enxergava melhor ainda. A visão periférica era mais que perfeita e tinha sensibilidade táctil para captar as vibrações no chão e prever quem entrava ou saía de qualquer lugar. Com o tempo, passou a saber pelas pisadas quem era quem, se era um morador ou um estranho, apenas pelo contato dos pés da pessoa com o solo. Assim como também começou a identificar as filigranas de mudanças de estado físico ou de espírito dos convivas pelo odor que cada um exalava. Poderia ter ganhado a vida dessa forma - a fingir que possuía o dom premonitório - ou ter sido um grande detetive, como os da Literatura, apenas com o uso de seu extraordinário raciocínio e da perfeita habilidade de deduzir acerca de tudo. No entanto, não estava interessado. Queria apenas sossego. Dormitar, comer, observar, fazer caminhadas noturnas...

Demorou para que ficássemos amigos.

O começo foi difícil. Amizades assim são um tipo raro de relação e, talvez pela raridade, sejam mais duradouras também. Me lembro bem dos primeiros contatos mais próximos. Ambos arredios e silenciosos, sem expressar nada, nem estragar o momento daquela intimidade frágil. Ele me olhava e eu o olhava e sabíamos que estávamos ali por vontade própria, nenhuma obrigação social, nenhum interesse além da presença; se algum fosse embora, jamais seria interpretado como um gesto ofensivo ou de desdém. Em um desses encontros iniciais, houve alguma incompreensão e inconveniência de minha parte, respondida de pronto com agressividade velada por ele. Levantou-se elegante e se foi, como quem diz sem alteração alguma: “quebraste o acordo, não me procure mais”.

Nunca ouvi a voz dele, mas imaginava como era. Branda, profunda, cansada, límpida, grave, como a de um homem que viveu muito e tinha muito a contar, entretanto preferia se refestelar com o silêncio em vez de compartilhar experiências; e seus lindos e enormes olhos diziam muito mais do que qualquer coisa que ele pudesse exprimir pela boca.

Como um traumatizado do front, via inimigos por todos os lados, tinha pesadelos obscuros e reações violentas. Acordava da profundeza do sono de sonhos intranquilos. Havia chegado ferido, essa era a verdade. Por dentro e por fora e, suspeito de que, apesar dos avanços e da aparente placidez, nunca se curou de todo dessas lacerações que mantinha como lembranças na curta memória que cultivava. O que ficou nítido para mim, pois já era um homem feito quando cruzou nossa porta sem bagagem e como hóspede definitivo.

Depois de minha longa viagem, quando retornei e a pandemia já era uma realidade aterradora, passei a observá-lo com mais cuidado. Até baixar a guarda definitivamente. Então, não raro, estávamos juntos, muitas vezes como velhas senhoras que se encontravam para tomar café e degustar amavelmente da companhia uma da outra.

Quando soubemos do câncer dele, já era demasiado tarde e se resignou também e parecia fingir que o tempo não corria contra ele mesmo. No entanto, com o mal instalado de vez no corpo, não havia como escamotear a realidade. Nenhum subterfúgio era suficiente contra a dinâmica veloz da multiplicação das células ruins no organismo. Foram poucos meses até o fim da batalha.

Aos poucos, o andar elegante de jovem senhor deu lugar a passadas claudicantes e reticentes. A respiração ofegava a qualquer curto perímetro percorrido. Passou por ainda intervenções e encarou bravamente os remédios, curativos, paliativos, excessos de cuidados. Até que uma médica, conhecida nossa, informou quanto à gravidade da situação e o pouco tempo que restava para ele. Quando ficou acamado, minha irmã fez as vezes de enfermeira final e lhe dava comida na boca como se fosse um recém-nascido. Ele ficou cada dia mais calado e se movimentando muito pouco.

Morreu em uma madrugada de abril diante de todos nós. Horas antes, tentou se acomodar no sofá para assistir a novela, sem conseguir. Partiu com muita dor, numa indignidade que ele nunca mereceu ser submetido.

Ainda me lembro dele em seus dias de glória, sempre vestido de branco e negro, imponente como um rei medieval, sábio como um profeta antigo, vivo como um operário num dia de folga. Quando morreu, estava com metade do peso do dia em que chegou em nossa casa, havia uns seis, sete anos, e ao apagarem os olhos dele, tal lâmpada queimada de um farol no meio da tempestade avistado do alto mar, eu finalmente pude entender o que significava um gato.

Anderson Araújo é escritor e jornalista da equipe do DOL. Ele escreve às sextas-feiras.

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