Símbolo de transformação urbana e memória coletiva, a Avenida Visconde de Souza Franco, popularmente conhecida como Doca, carrega em seu traçado mais de um século de mudanças que acompanham o crescimento de Belém. Em homenagem a Bernardo de Souza Franco, político do período imperial, a via surgiu onde antes existia um grande alagado, ligado diretamente à história, às crenças populares e aos ciclos econômicos da capital paraense. Hoje, a Doca se consolida como um dos principais cartões-postais da cidade, unindo passado, modernidade e qualidade de vida.
“O que hoje é a Avenida Visconde de Souza Franco vai surgir como um grande alagado, um braço de rio. Durante o período da Cabanagem, muitas pessoas acreditavam que os cabanos mortos vagavam por ali atrás de suas armas. Por isso o nome igarapé das almas. Já o igarapé das armas vem da narrativa de que muitos armamentos eram escondidos nas margens daquele local”, explicou o historiador Márcio Neco.
Com o tempo, a área deixou de ser apenas um igarapé e passou a ter uso rural, abrigando vacarias responsáveis por abastecer Belém com leite, ainda quando a cidade se restringia basicamente aos bairros da Campina e da Cidade Velha.

Docas dos igarapés
A evolução do espaço continuou ao longo das décadas. De área rural, a Doca passou a se estruturar como entreposto comercial, integrando um sistema que incluía a Doca do Ver-o-Peso, a Doca do Imperador e a chamada Doca dos Igarapés, esta última correspondente à atual avenida. Márcio Neco destaca que, embora o aterramento tenha ocorrido em 1972, na gestão do então prefeito Nélio Lobato, a região permaneceu por muito tempo com características periféricas, com palafitas e moradias humildes. “Foi apenas um aterramento. A área continuou com pouco investimento urbano”, ressaltou. A grande virada veio no início da década de 1990, quando, segundo o historiador, a Doca passou por um intenso processo de modernização e valorização, tornando-se um marco urbano e cultural da cidade.

Embarcações e arranha-céus
Nas décadas de 1980 e 1990, a avenida passou por forte verticalização, com a chegada de edifícios residenciais, restaurantes, academias e do Shopping Boulevard, consolidando-se como polo comercial e de lazer. Entre as curiosidades preservadas na memória local está a recente descoberta de uma antiga embarcação, provavelmente do início do século passado, soterrada durante os aterramentos.
“Essa embarcação revela a experiência da Doca como entreposto comercial, quando canoas chegavam carregadas de produtos do interior”, contou Márcio Neco. O local também foi palco de carnavais históricos, manifestações culturais e memórias afetivas, como o antigo cheiro característico da fábrica de sabonetes Phebo e espaços de entretenimento que marcaram gerações.

EVOLUÇÃO E FAMILIARIDADE
Essa relação afetiva é vivida de perto por moradores antigos da região. Francisco Sampaio, administrador, que vive na Avenida Visconde de Souza Franco desde 1994, afirma que acompanhar a evolução da Doca foi uma experiência marcante. “Foi maravilhoso ver essa transformação. Lembro das grandes mudanças feitas ainda na época do governador Hélio Gueiros e agora dessa nova fase. Hoje é um lugar onde a gente pode caminhar, sentar, conversar até tarde, com segurança e tranquilidade”, relatou.
Para ele, morar na Doca representa privilégio, qualidade de vida e orgulho de ver o bairro novamente valorizado, com empresas retornando e o espaço sendo ocupado pelas famílias.

Uma nova cara depois da COP 30
Atualmente, a Doca vive mais um capítulo importante de sua história com as obras de requalificação para a COP30. O projeto transformou a avenida em um parque linear, com foco em sustentabilidade, paisagismo, drenagem, ciclovias e áreas verdes, reforçando a conexão da cidade com a água e o meio ambiente.
O profissional de Relações Públicas, comendador Guto Delgado, aproveita diariamente o novo espaço para se exercitar. “Eu e minha esposa já corríamos aqui antes da reforma. Agora ficou ainda melhor, com pista interna e um trajeto bem definido para a prática esportiva”, contou.

Além de usufruir do espaço, Guto Delgado faz um alerta sobre a importância da preservação. “Esse aparelho público municipal é de todos nós. A prefeitura faz a manutenção, mas a obrigação da população é não jogar lixo no canal. Precisamos ter sentimento de pertencimento para manter esse espaço limpo e funcionando”, destacou. Assim, a Doca reafirma seu papel como símbolo de Belém: um espaço onde história, memória, convivência social e modernidade caminham juntas, refletindo a identidade e o futuro da cidade.

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