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AGROPARÁ

Agroecologia tem foco no meio ambiente e no social

Grupo de pesquisa da UFRA ajuda produtores rurais familiares de paragominas na produção e ganho pela atuação no manejo sustentável, com projeto pioneiro no estado. Conheça mais

segunda-feira, 20/09/2021, 08:00 - Atualizado em 21/09/2021, 09:00 - Autor: Lais Azevedo


Imagem ilustrativa da notícia Agroecologia tem foco no meio ambiente e no social
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No próximo dia 17 de Outubro, comemora-se o Dia Nacional da Agricultura, sendo importante ressaltar como a agricultura familiar tem um papel fundamental na alimentação dos brasileiros, colocando na mesa 70% da mandioca, 42% do feijão preto, 49% da banana e 67% do abacaxi, consumidos pela população do país, segundo dados do IBGE (Censo 2017). Por isso, iniciativas que se voltem a melhorar o manejo nestes modelos de produção são cada vez mais importantes para garantir segurança alimentar no Brasil e o uso sustentável da terra.

No campus Paragominas da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), tem sido desenvolvido um programa de geração e disseminação de tecnologias sociais para fortalecimento da agricultura familiar paraense com bases agroecológicas através do Grupo de Pesquisa em Horticultura da Amazônia (Hortizon), coordenado pela professora Doutora Luciana da Silva Borges. Em entrevista à revista AgroPará, ela explica um pouco melhor esses termos e o trabalho que vem sendo realizado no local, especialmente nesse momento de pandemia.

Como se classifica a agricultura familiar?

A gente classifica de Agricultura Familiar os produtores que trabalham com o manejo vegetal, alguns com hortaliças, outros com fruteiras. Enfim, são propriedades que têm praticamente como mão de obra pessoas da mesma família. Lógico que tem alguns pontos mais além quando a gente se volta para a legislação, que aponta termos mais específicos, como o tamanho de área plantada, mas de uma forma mais geral, a agricultura familiar são áreas onde a mão de obra é basicamente familiar.

E o que seria uma agricultura de bases agroecológicas?

Primeiro, a gente precisa explicar que um sistema agroecológico não é o mesmo que um sistema orgânico. A agroecologia é um sistema de cultivo onde se pensa na questão ambiental, na conservação, na sustentabilidade, então é realizado com foco no meio ambiente e na questão social. Ela traz novas ideias para melhorar a produtividade daquele agricultor, tendo o aproveitamento florestal - utilizando o que ele já tem de recursos naturais naquela área - e garantindo que ele consiga se manter a partir dessa produção.

E o que seriam essas tecnologias sociais repassadas ao produtor?

Para o produtor de agricultura familiar geralmente fica oneroso, por exemplo, obter um substrato para melhorar a qualidade da terra e da produção dele. Um saco de 25Kg chega a custar R$50. E tirar daquele orçamento do produtor de baixa renda esse valor é complicado. O que a gente faz é mostrar a ele tecnologias de manejo de compostagem, reaproveitando materiais que ele já tem no local, para que ele consiga melhorar a produção dele sem ter esse gasto. Então, são todas tecnologias que seguem esta lógica. Outro tipo de tecnologia é mostrar para eles como fazer um substrato usando, por exemplo, a palhada de um açaizal, fazendo um composto que pode ser usado na horta para melhorar a produção.

Há quanto tempo existe o programa na Ufra e existem outras formas de atuação?

O programa existe desde 2014 e a agricultura familiar é o nosso foco. Lógico que a agroecologia é um processo longo, não é algo que a gente consiga falar para o produtor que daqui um ano ele já é totalmente um sistema agroecológico. Ele vai construindo ao longo do tempo, até porque não tenta retirar completamente todo o sistema de cultivo que aquele produtor aprendeu a vida inteira. E a gente trabalha também com a questão da merenda escolar, que é algo muito importante em Paragominas para as famílias de baixa renda.

Como funciona esse trabalho com as escolas?

Os agricultores costumam fornecer para a Prefeitura os produtos deles, que vai para os alunos, então buscamos conscientizar para que não usem tantos insumos químicos na área de produção. E tenta também mostrar para os alunos na escola a possibilidade de cultivo. Fazemos visita nas escolas com o objetivo de ensinar a plantar hortas com os alunos e professores e como isso pode se tornar também uma tecnologia educativa, onde o professor de matemática pode usar para fazer cálculos com as crianças, e é até uma forma de trabalhar valores como a responsabilidade, porque as crianças que vão cuidar daquela horta. Além de consumir aquelas hortaliças, elas também podem levar para casa, sendo também um estímulo à alimentação mais saudável em casa.

Onde o grupo de pesquisa atua no estado ?

Nosso foco é Paragominas. Há várias comunidades na área rural, como a colônia da Areia, a colônia de Mandacaru, são lugares que para a gente chegar são quase duas horas até três, dependendo do período do ano, das condições de estrada. Mas a gente também faz algumas parcerias, como a UFRA de Tomé-Açu que tem núcleo de agroecologia, e outras cidades próximas.

Como ocorre o contato com este programa?

Ocorrem os dois movimentos. Antes, a gente ia bastante atrás, fazia reuniões, apresentava o projeto, mostrava que podia ajudá-los com profissionais de várias áreas. A gente não consegue dar apoio financeiro, mas consegue dar um apoio técnico, fornecido pelos nossos professores, alunos, soma com outras instituições como Embrapa e IFPA. E alguns vem até nós por indicação de alguém: “meu vizinho me falou que vocês podem ajudar com isso…”. Às vezes estão com algum problema na horta, com alguma praga e vem até nós para perguntar como podem resolver a questão.

E como ficou esse trabalho na pandemia?

Em 2015, eles tinham uma grande dificuldade para a produção de alface, já estavam pensando em desistir, então com o auxílio financeiro da Fapespa, a gente desenvolveu alguns testes e observou que o produtor precisa melhorar a escolha da semente e aumentar a irrigação para três ou quatro por dia, pois aqui em Paragominas é muito quente e o clima não sustenta a planta no campo. A gente costuma então levar os resultados das pesquisas até eles, com uma linguagem acessível, explica como fazer. O que com a pandemia ficou mais complicado.

O que fizemos foi uma parceria com a rádio de Paragominas para veicular podcasts respondendo a essas dúvidas dos produtores. Assim, conseguimos dar apoio para melhorar o manejo, conseguimos fazer isso também com o pimentão e o tomate cereja, por exemplo. Então é isso, tem uma troca, os próprios alunos trazem situações que a gente pode ajudar. Falamos também de manejo florestal, como na Colônia Uraim, onde passa o rio de mesmo nome, e está sentindo a degradação. Mostramos porque é preciso conservar a margem do rio para manter ele vivo. No período de inverno, por exemplo, o rio sobe bastante e vai pegar um espaço que é dele. Alguns produtores têm perda de produção nesse período, então é preciso pensar nesse uso da área em vários aspectos; é para isso que nós trabalhamos.

A agroecologia traz novas ideias para melhorar a produtividade u tilizando o que já tem de recursos naturais naquela área”

 

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