Histórias que atravessam o tempo costumam dizer menos sobre respostas definitivas e mais sobre a necessidade humana de sentido, memória e pertencimento. Algumas cidades são marcadas por ciclos econômicos, outras por personagens históricos; Varginha, no Sul de Minas Gerais, acabou marcada por um episódio que escapa às classificações tradicionais e habita a fronteira entre o insólito, a crença popular e o arquivo oficial. Trinta anos depois, o chamado caso do ET de Varginha segue sendo revisitado, reinterpretado e disputado.
Com quase 145 anos de existência e mais de 140 mil habitantes, Varginha entrou no imaginário mundial em 20 de janeiro de 1996. Naquela noite, três jovens - Kátia Andrade Xavier, Liliane de Fátima Silva e Valquíria Aparecida Silva - afirmaram ter visto uma criatura de aparência incomum em um terreno baldio no bairro Jardim Andere. O relato rapidamente se espalhou pela cidade e, em poucos dias, ganhou repercussão nacional, transformando o município em sinônimo de ufologia no Brasil.
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A narrativa ganhou novos contornos quando outras testemunhas surgiram. Uma delas foi Terezinha Gallo Clepf, que declarou ter encontrado um ser de olhos avermelhados no zoológico da cidade, onde alguns animais apareceram mortos mais tarde. O acúmulo de depoimentos, aliado à movimentação incomum de viaturas e militares na região à época, alimentou a ideia de que algo fora do padrão teria ocorrido em Varginha, criando um ambiente de curiosidade, medo e especulação.
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MÉDICO REVELA TER VISTO CRIATURA
Décadas depois, o caso voltou ao centro do debate com o depoimento do médico neurologista Ítalo Denelle Venturelli. Segundo ele, em 1996, ao retornar a um hospital para verificar o estado de uma criança operada anteriormente, teria sido levado por um colega a uma área isolada da unidade, onde viu uma criatura pequena, consciente e de aparência incomum. O médico descreveu o ser como "branquinho, calmo, com cabeça em formato de gota e olhos lilás", relato que viralizou no final de 2025 após ser incluído na continuação do documentário Moment of Contact, do cineasta James Fox, prevista para estrear no Brasil em 2026.
For the first time in history, we have eyewitness testimony from head neurosurgeon Dr. Italo Venturelli at Regional Hospital who claims to have had face-to-face communicate with an alien in captivity in Varginha, Brazil.
— James Fox (@jamescfox) November 6, 2025
See his full interview and much more in Moment of Contact:… pic.twitter.com/ZcL3ps7iSg
INQUÉRITO MILITAR DIVULGADO APÓS TRÊS DÉCADAS
Paralelamente aos relatos, o Estado produziu sua própria versão. Um inquérito conduzido pela Polícia Militar e encaminhado ao Superior Tribunal Militar (STM), com mais de 600 páginas distribuídas em dois volumes, concluiu que o episódio conhecido como "ET de Varginha" foi resultado de um equívoco, sem indícios concretos de ocorrência extraordinária. Segundo o documento, a origem do caso está no relato de três jovens que afirmaram ter visto uma suposta "criatura" em 20 de janeiro de 1996. Naquele dia, conforme o inquérito, Varginha enfrentava chuvas intensas e ventos fortes, situação que mobilizou diversas equipes do Corpo de Bombeiros para atendimentos de rotina na cidade.
Apesar da repercussão, não há, de acordo com os autos, qualquer registro oficial de solicitação para captura de animal ou de uma criatura desconhecida. O nome do médico neurologista Ítalo Denelle Venturelli não aparece no inquérito; sua versão dos fatos só veio a público quase três décadas depois, em 2025.
VERSÃO ENVOLVENDO O "MUDINHO"
O relatório também destaca o depoimento do então comandante do 24º Batalhão da Polícia Militar, que apresentou fotografias de um morador da região conhecido como "Mudinho". Segundo a investigação, ele teria sido confundido com a suposta criatura pelas jovens que fizeram o relato inicial. De acordo com os militares, o homem apresentava uma condição mental e, após as chuvas, estava sujo e agachado próximo a um muro, circunstâncias que podem ter provocado medo e levado à interpretação equivocada por parte das adolescentes.
No entanto, esta versão foi contestada pelas meninas na época dos acontecimentos. Em mais de uma oportunidade, as três disseram que conheciam muito bem o "Mudinho" e reforçaram que não era ele a criatura do avistamento.

ARQUIVAMENTO DO PROCESSO
Na conclusão do relatório, os militares sustentam que a obra responsável por difundir nacional e internacionalmente o caso do ET de Varginha não apresenta fundamentos técnicos ou científicos capazes de comprovar a existência de qualquer fenômeno extraordinário. Segundo o inquérito, o material se apoia em interpretações subjetivas, relatos não verificados e reconstruções narrativas que, do ponto de vista oficial, devem ser tratadas como ficção, e não como documentação factual.
Diante dessas conclusões, o Inquérito Policial Militar recomendou o arquivamento definitivo do caso, decisão formalizada em 11 de abril de 1997, no quartel de Três Corações, em Minas Gerais, encerrando oficialmente, ao menos na esfera militar, um dos episódios mais emblemáticos da ufologia brasileira.

DEBATE NO CONGRESSO
Apesar disso, o encerramento oficial não silenciou o debate. Em 2025, uma audiência pública realizada na Câmara dos Deputados, em Brasília, reacendeu a discussão sobre Ovnis no Brasil. O caso de Varginha foi um dos destaques, com depoimentos de ufólogos que acusaram os militares de desinformação e sustentaram que houve uma operação sigilosa envolvendo forças armadas oriundas da Escola de Sargentos das Armas, localizada em Três Corações, cidade vizinha.
As Forças Armadas, por sua vez, reafirmaram a conclusão do inquérito. Segundo os militares, a movimentação de caminhões nos dias seguintes ao suposto avistamento teve relação com manutenção de rotina, como alinhamento e balanceamento, e não com transporte de criaturas. Para os órgãos oficiais, o caso está encerrado há quase três décadas.
TURISMO UFOLÓGICO E IDENTIDADE LOCAL
Enquanto o impasse entre versões persiste, Varginha incorporou o episódio à sua identidade. Em 2022, foi inaugurado o Santuário do ET, espaço que reúne exposições, planetário, filmes educativos e ações culturais, além de abrigar a Secretaria Municipal de Turismo e Comércio. O local se tornou um dos principais pontos turísticos da cidade e símbolo de como o mistério foi ressignificado como patrimônio cultural.
Nas comemorações pelos 30 anos do episódio, o memorial tem entrada gratuita, reforçando o papel do caso como vetor de desenvolvimento turístico. Segundo a prefeitura, a iniciativa busca valorizar a história local e fortalecer a economia criativa, transformando curiosidade e memória em atividade permanente.
MISTÉRIO SEM RESPOSTA
Trinta anos depois, o ET de Varginha permanece sem resposta definitiva. Para alguns, trata-se de um erro amplificado pelo medo e pela imaginação; para outros, de um episódio mal explicado, deliberadamente desacreditado. Entre o ceticismo institucional e a persistência da crença popular, Varginha segue orbitando seu visitante mais famoso - invisível, controverso e eternamente presente no imaginário coletivo.
Head neurosurgeon Dr. Italo at regional hospital (Varginha Brazil) responds to criticism regarding his claims of direct contact with a live alien in captivity in 1996. pic.twitter.com/PQvBVheKcx
— James Fox (@jamescfox) November 13, 2025
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