O governo brasileiro iniciou, nesta quinta-feira (13), o processo para analisar a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica diante das medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros. A iniciativa ocorre após a imposição de tarifas norte-americanas e abre um procedimento que pode, em determinadas circunstâncias, resultar em contramedidas do Brasil.
A legislação é a Lei nº 15.122, de 11 de abril de 2025, criada para estabelecer critérios para a suspensão de concessões comerciais, de investimentos e de obrigações relacionadas à propriedade intelectual quando medidas unilaterais de outro país ou bloco econômico prejudicarem a competitividade internacional brasileira.
CONTEÚDOS RELACIONADOS
- Brasil pode aplicar a Lei da Reciprocidade contra os EUA? Entenda a medida
- Exportações do Pará para os EUA despencam 31,4% no 1º semestre
- Saiba quais produtos brasileiros serão afetados pelo tarifaço de Trump
A abertura do processo, porém, não significa que o Brasil já tenha decidido retaliar os Estados Unidos. A própria lei estabelece uma série de etapas antes da adoção de eventuais contramedidas.
O que é a Lei da Reciprocidade?
A Lei nº 15.122 autoriza o Poder Executivo a reagir a determinadas ações, políticas ou práticas unilaterais adotadas por outros países que causem prejuízos à competitividade brasileira.
O mecanismo pode ser acionado, por exemplo, quando uma medida estrangeira:
- interferir nas escolhas consideradas legítimas e soberanas do Brasil;
- violar ou prejudicar benefícios previstos em acordos comerciais;
- estabelecer determinadas exigências ambientais consideradas mais onerosas que os parâmetros adotados pelo Brasil.
Nessas situações, o governo pode analisar a adoção de medidas para tentar reduzir os efeitos provocados pela política estrangeira.
Que tipo de contramedida pode ser adotada?
O artigo 3º da lei autoriza o governo a adotar restrições às importações de bens e serviços e suspender determinadas concessões comerciais, de investimentos ou obrigações relacionadas à propriedade intelectual.
Entre as possibilidades previstas estão a imposição de direitos de natureza comercial sobre importações provenientes do país envolvido na disputa.
A legislação também permite a suspensão de concessões ou obrigações relacionadas à propriedade intelectual e de outras obrigações previstas em acordos comerciais dos quais o Brasil faça parte.
As medidas podem ser aplicadas isoladamente ou de forma cumulativa.
Brasil pode simplesmente aplicar uma tarifa?
Não de forma automática. A legislação determina que as contramedidas sejam, na medida do possível, proporcionais ao impacto econômico causado pelas ações estrangeiras. Também estabelece que elas devem buscar reduzir os efeitos sobre a atividade econômica e evitar custos administrativos considerados desproporcionais.
Além disso, o processo deve seguir etapas estabelecidas em regulamentação, incluindo consultas públicas, prazos para análise do pedido e sugestão de possíveis contramedidas.
Por isso, a abertura do procedimento contra as medidas norte-americanas representa o início de uma análise, e não uma decisão imediata de impor tarifas aos Estados Unidos.
Quer mais notícias nacionais? Acesse o canal do DOL no WhatsApp.
Consultas diplomáticas estão previstas
A negociação também faz parte da própria estrutura da lei. O artigo 4º determina a realização de consultas diplomáticas com o objetivo de mitigar ou anular os efeitos das medidas e das eventuais contramedidas.
No caso atual, o Ministério das Relações Exteriores informou que iniciou a notificação formal dos Estados Unidos e pretende solicitar consultas diplomáticas.
Na prática, o mecanismo permite que o governo brasileiro mantenha aberta uma via de negociação antes de avançar para medidas comerciais.
O governo pode adotar uma medida provisória?
A lei prevê uma possibilidade excepcional. O artigo 6º autoriza o Poder Executivo a adotar contramedida provisória durante a realização das etapas do processo previsto na legislação.
A medida, contudo, é apresentada pela lei como uma possibilidade para casos excepcionais.
O governo também deve acompanhar os efeitos das contramedidas eventualmente adotadas e a evolução das negociações diplomáticas. Com base nesse monitoramento, poderá alterar ou suspender as medidas.
Como a lei se relaciona com o caso dos EUA?
A aplicação do mecanismo ocorre no contexto da decisão norte-americana de impor novas tarifas sobre determinados produtos brasileiros.
Segundo o governo brasileiro, a medida dos EUA é considerada injustificada e prejudicial aos interesses comerciais do país. A partir da Lei da Reciprocidade, o governo passa a analisar formalmente se as ações norte-americanas se enquadram nos critérios estabelecidos pela legislação brasileira.
A partir dessa análise, poderão ser discutidas eventuais contramedidas, levando em consideração os setores brasileiros afetados e os impactos econômicos.
Assim, a Lei da Reciprocidade funciona como um instrumento de resposta comercial, mas não determina uma retaliação automática. O texto prevê análise técnica, participação das partes interessadas, consultas diplomáticas e avaliação dos impactos antes de uma eventual adoção de medidas contra o país que tomou a ação considerada prejudicial.
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar