O Estreito de Ormuz pode voltar a ter o tráfego marítimo retomado após negociações consideradas "positivas" e em estágio avançado entre Irã e Omã, mas Teerã impôs seis condições para permitir a reabertura da estratégica passagem. Entre as exigências estão o fim das ameaças americanas, a retirada de forças militares da região, o levantamento das sanções e o pagamento de indenizações por danos provocados em conflitos recentes.
As negociações entre Irã e Omã avançaram nos últimos dias em torno da criação de uma possível nova rota pelo estreito, cuja administração seria compartilhada pelos dois países. Apesar do diálogo, o governo iraniano afirma que a retomada da circulação dependerá também do cumprimento de exigências apresentadas aos Estados Unidos.
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QUAIS SÃO AS CONDIÇÕES IMPOSTAS PELO IRÃ?
As exigências foram apresentadas pelo ex-secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano e atual assessor do Líder Supremo, Mohammad Bagher Zolghadr, em comunicado divulgado pela emissora estatal IRIB.
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Segundo o governo iraniano, os Estados Unidos precisam “corrigir” sua postura antes que o processo de reabertura do estreito avance. As condições são:
1. Fim das ameaças contra o Irã
Teerã exige que os Estados Unidos deixem de ameaçar o país e de utilizar qualquer linguagem considerada ofensiva aos valores iranianos.
A exigência inclui garantias de que novas ameaças não serão feitas no futuro. Embora a contenção mútua esteja associada à ideia de cessar-fogo, essa condição representa uma exigência política e de segurança mais ampla do que os termos conhecidos do acordo provisório.
2. Encerramento dos ataques contra aliados iranianos
O Irã também quer o fim das ações militares contra o próprio país e contra seus aliados e grupos parceiros no Líbano, na Palestina, no Iêmen e no Iraque.
O Memorando de Entendimento anunciado em junho mencionava a necessidade de contemplar “todas as frentes, incluindo o Líbano”. A nova formulação apresentada por Teerã explicita outros territórios e amplia o alcance da exigência para uma garantia de segurança regional.
3. Retirada das forças americanas
Outra condição envolve o fim do bloqueio naval e a retirada de forças navais e aéreas americanas das proximidades do Irã.
O acordo provisório entre Washington e Teerã previa que os Estados Unidos encerrassem o bloqueio em até 30 dias. A diferença agora é que o governo iraniano relaciona diretamente essa medida à possibilidade de reabrir o Estreito de Ormuz.
4. Indenização por danos de guerras
O governo iraniano exige ainda uma compensação integral pelos danos provocados por duas guerras que Teerã classifica como agressões.
A cobrança inclui o conflito de 12 dias ocorrido em 2025 e a guerra mais recente. A possibilidade de discutir mecanismos de compensação já fazia parte das expectativas relacionadas ao acordo definitivo que deveria suceder o memorando de junho.
A novidade é que o Irã passou a colocar a indenização como uma das condições diretamente associadas à reabertura da hidrovia.
5. Fim das sanções contra o Irã
Outra exigência é o levantamento das sanções consideradas pelo governo iraniano "cruéis e ilegais".
A suspensão das medidas econômicas já era esperada nas negociações para um acordo definitivo. O ponto que ganhou novo peso é a tentativa de Teerã de vincular o alívio das sanções à retomada da navegação pelo Estreito de Ormuz.
6. Liberação de ativos iranianos
A sexta condição prevê a liberação dos bens iranianos congelados no exterior. A reivindicação também não é inédita nas negociações entre os dois países.
A liberação de ativos bloqueados ou congelados já vinha sendo discutida anteriormente, mas agora aparece entre as exigências apresentadas pelo Irã para a reabertura da passagem estratégica.
IRÃ ENDURECEU POSIÇÃO NAS NEGOCIAÇÕES?

Para o analista da BBC para o Oriente Médio Sebastian Usher, a lista representa um endurecimento da posição iraniana.
Segundo ele, as condições já estavam relacionadas ao acordo-quadro do Memorando de Entendimento, mas o momento e a forma como Teerã passou a apresentar as exigências são diferentes.
O analista avalia que o Irã pode considerar estar em uma posição de maior força enquanto o Estreito de Ormuz permanece essencialmente fechado.
EXIGÊNCIAS PODEM SER ESTRATÉGIA DE NEGOCIAÇÃO
A avaliação de Trita Parsi, vice-presidente executivo do Quincy Institute, é diferente. Em entrevista à BBC, o especialista afirmou que as condições apresentadas publicamente podem não representar exatamente aquilo que está sendo discutido na mesa de negociação.
Para Parsi, parte das exigências pode funcionar como uma estratégia para aumentar o poder de barganha iraniano e prolongar as conversas. Ele também aponta que integrantes da linha-dura do regime iraniano consideram que o país se precipitou ao aceitar o Memorando de Entendimento em junho.
ACORDO ANTERIOR DUROU POUCOS DIAS
O entendimento anunciado em junho não conseguiu se sustentar por muito tempo. Poucos dias depois da assinatura, ataques entre os dois lados foram retomados, levando ao colapso do acordo provisório.
Segundo Parsi, uma parte dos setores mais duros do governo iraniano avalia que, caso as negociações tivessem sido prolongadas, o aumento dos preços do petróleo poderia ter provocado impactos ainda maiores sobre a economia mundial.
Essa avaliação parte da possibilidade de que uma pressão econômica global maior pudesse ter influenciado a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de ordenar ataques contra alvos iranianos.
Diante dessa experiência, o especialista considera que Teerã não estaria disposto a repetir o que esses setores consideram um erro estratégico.
QUANDO O ESTREIRO DE ORMUZ PODE SER REABERTO?
Apesar do endurecimento público das condições, a perspectiva de um acordo não está descartada. As negociações entre Irã e Omã continuam avançando em torno de uma possível nova rota pelo Estreito de Ormuz, enquanto Teerã mantém as exigências dirigidas aos Estados Unidos.
Para Trita Parsi, um entendimento sobre o funcionamento da estratégica passagem marítima ainda pode ser alcançado em poucos dias. O resultado, porém, dependerá da capacidade de Irã e Estados Unidos de conciliar as exigências políticas, militares e econômicas que envolvem a retomada da navegação.
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