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ESTUDO INTERNACIONAL

Mais de 40 mil novos vírus são encontrados em locais públicos

Estudo internacional encontrou milhares de vírus em metrôs, hospitais, bancos, solo, água e esgoto de 31 países, incluindo o Brasil.

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Imagem ilustrativa da notícia Mais de 40 mil novos vírus são encontrados em locais públicos camera Mais de 40 mil novos vírus encontrados em locais públicos ao redor do mundo. Descubra as implicações e a diversidade viral identificada no estudo. | Paulo Pinto/Agência Brasil

Um levantamento internacional identificou 54.945 espécies de vírus de RNA em diferentes ambientes urbanos e periurbanos de 102 cidades espalhadas por 31 países. Desse total, cerca de 77% nunca haviam sido descritas pela ciência, cerca de 42 mil.

O estudo contou com a participação de pesquisadores brasileiros e analisou 2.922 amostras coletadas em locais de grande circulação de pessoas e também em áreas naturais e de infraestrutura urbana. Entre os pontos investigados estavam estações de metrô, hospitais, agências bancárias, superfícies de uso frequente, solo, sedimentos, água doce, esgoto e estufas.

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Os resultados deram origem ao UPVAtlas, um catálogo que reúne milhares de espécies virais identificadas durante a pesquisa. O trabalho foi publicado na revista científica Nature Communications.

Onde os vírus foram encontrados?

Grande parte das amostras analisadas veio de ambientes urbanos. Pesquisadores coletaram material de corrimãos, bancos, máquinas de bilhetes e outras superfícies frequentemente tocadas em locais como estações de transporte público.

Também foram analisadas amostras provenientes de hospitais e agências bancárias, além de materiais obtidos em ambientes externos às cidades.

O levantamento incluiu ainda solo, sedimentos, água doce, esgoto e estufas. Essas amostras permitiram aos pesquisadores observar a diversidade de vírus não apenas em locais de intensa circulação humana, mas também em ambientes naturais e áreas influenciadas pela atividade das cidades. A cidade de São Paulo esteve entre os locais analisados.

Esgoto apresentou grande diversidade

Um dos resultados que chamou a atenção dos pesquisadores foi a diversidade encontrada nas amostras de esgoto. Enquanto superfícies urbanas apresentaram, de modo geral, menor variedade viral do que ambientes naturais, o esgoto esteve entre os locais com maior diversidade.

Segundo os pesquisadores, esse resultado reforça a possibilidade de utilizar o esgoto como uma espécie de fonte de vigilância ambiental, permitindo acompanhar mudanças nas comunidades virais presentes em determinada região.

Nas amostras hospitalares, São Paulo e Islamabad, no Paquistão, apresentaram maior abundância de vírus de famílias conhecidas por causar doenças em vertebrados quando comparadas aos resultados de Baltimore, nos Estados Unidos, e Seul, na Coreia do Sul.

Os pesquisadores, porém, alertam que esses dados não permitem concluir que exista uma diferença biológica entre as cidades. Variações na coleta e no número de amostras podem ter influenciado os resultados.

Como os vírus foram identificados?

A pesquisa concentrou-se nos vírus de RNA, grupo que inclui agentes responsáveis por doenças como dengue, zika, gripe, febre amarela e Covid-19.

Para encontrar esses vírus, os pesquisadores utilizaram uma técnica conhecida como metatranscriptômica. Em vez de procurar um organismo específico, o método permite analisar simultaneamente as moléculas de RNA presentes em uma amostra. É como analisar um grande conjunto de fragmentos genéticos e tentar descobrir a qual organismo cada sequência pertence.

A triagem contou com o auxílio do geNomad, ferramenta de bioinformática desenvolvida pelo pesquisador Antônio Pedro Camargo, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP).

Depois de identificar as sequências virais, os cientistas compararam uma enzima presente nos vírus de RNA, chamada RdRP, responsável pela replicação viral. A análise permitiu estabelecer relações entre os diferentes vírus encontrados.

Algumas sequências apresentaram diferenças tão grandes em relação aos vírus conhecidos que os pesquisadores sugeriram novas categorias para classificá-las. A proposta, entretanto, ainda precisa de estudos adicionais para ser confirmada formalmente.

Maioria não tem relação conhecida com doenças humanas

A descoberta de dezenas de milhares de vírus desconhecidos não significa que esses microrganismos estejam causando novas doenças nas cidades.

Os pesquisadores conseguiram indicar um possível hospedeiro para apenas cerca de um terço das sequências analisadas. Dentro desse grupo, mais da metade correspondia a vírus que infectam bactérias, e não seres humanos.

Ao cruzar os resultados com uma base que reúne informações sobre vírus e seus hospedeiros, os cientistas identificaram 60 vírus com alta probabilidade de infectar seres humanos e outros 47 associados potencialmente a outros mamíferos.

O estudo também encontrou 166 bacteriófagos, vírus que infectam bactérias. Alguns deles apresentam histórico de atuação contra bactérias do grupo ESKAPE, que reúne importantes agentes causadores de infecções, como Staphylococcus aureus.

Esse achado pode abrir novas possibilidades de pesquisa sobre o uso de bacteriófagos no combate a bactérias resistentes a medicamentos.

Pesquisa revela apenas parte da diversidade viral

Os cientistas também observaram que as descobertas não chegaram perto de esgotar a diversidade existente nos ambientes analisados. As chamadas curvas de acumulação, utilizadas para verificar o surgimento de novas espécies à medida que mais amostras são examinadas, não apresentaram estabilização na maioria dos ambientes.

Isso indica que os quase 55 mil vírus catalogados representam apenas uma parcela da diversidade viral existente.

O levantamento cria ainda uma base que poderá ser utilizada em pesquisas futuras. Com o catálogo, será possível comparar a composição viral de diferentes cidades e acompanhar como essas comunidades mudam ao longo dos anos.

Para os pesquisadores, compreender essa diversidade é importante porque os vírus estão em constante evolução e dependem da capacidade de infectar células de hospedeiros para se reproduzir.

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