A COP31 vai testar, pela primeira vez, se os compromissos climáticos aprovados em Belém saíram do papel. Vale lembrar que a conferência ocorrerá de 9 a 20 de novembro, em Antalya, na Turquia.
O Brasil, como sede da COP30, que ocorreu em Belém, terá papel central nesse balanço. O país precisará demonstrar quanto do que foi prometido foi efetivamente contratado, desembolsado e executado.
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Por isso, a conferência representa uma virada: o foco deixa de ser os anúncios e passa a ser os resultados mensuráveis. No total, a COP30 produziu 56 decisões aprovadas por consenso pelas 194 Partes da Convenção do Clima.
Desse total, 24 integram o chamado Pacote Político de Belém.
Esse pacote reúne temas como adaptação, transição justa, financiamento climático, tecnologia e participação de povos indígenas. No entanto, aprovar decisões é apenas o primeiro passo.
Assim, a COP31 exigirá que cada compromisso seja vinculado a um projeto identificável, com recursos liberados e resultados verificáveis.
A Presidência brasileira da COP30 trabalha em conjunto com a futura Presidência turca da COP31. Juntas, as duas presidências conduzem o processo preparatório e o diálogo com países e observadores.
Essa parceria existe para garantir continuidade entre os ciclos de negociação.
O que o Brasil precisará apresentar?
O Brasil deverá apresentar indicadores concretos de execução. Esses indicadores precisarão cobrir diferentes dimensões do avanço climático:
- Quantidade de projetos iniciados ou ampliados, com obras em andamento ou operação;
- Recursos aprovados, contratados e desembolsados, com data de referência e origem;
- Capital privado atraído pelos investimentos públicos;
- Emissões evitadas ou removidas, infraestrutura resiliente e populações protegidas.
Além disso, será necessário separar projetos em fase de estruturação daqueles que já possuem contratos assinados ou atividades em operação.
Essa distinção é essencial para evitar uma leitura imprecisa do financiamento mobilizado.
Fundo Clima registra crescimento das operações
Os dados mais recentes do Fundo Clima mostram avanço relevante. O relatório de execução divulgado em 2026, com resultados consolidados de 2025, registrou 199 operações aprovadas no valor de R$ 12,55 bilhões.
Desse total, R$ 8,89 bilhões foram contratados e R$ 6,78 bilhões chegaram ao desembolso efetivo.
Os projetos apoiados mobilizaram investimentos totais de R$ 34,6 bilhões, ao considerar recursos do Fundo Clima e outras fontes. Segundo o BNDES, isso representa alavancagem de 2,76 vezes o valor financiado pelo fundo.
Portanto, cada real público atraiu quase três reais em investimentos totais. Fora que a transição energética concentrou R$ 5,29 bilhões em 28 operações.
Além disso, R$ 1,37 bilhão foi aprovado para desenvolvimento urbano resiliente e R$ 897,7 milhões foram destinados à logística e mobilidade verdes.
Na área florestal, as aprovações saltaram de R$ 105 milhões em 2024 para aproximadamente R$ 1,4 bilhão em 2025.
Já os projetos de adaptação climática avançaram de R$ 547 milhões para R$ 2,43 bilhões no mesmo período.
R$ 30 bilhões disponíveis?
Em 31 de março de 2026, o Fundo Clima apresentava saldo de R$ 30 bilhões no BNDES. No entanto, esse saldo não equivale automaticamente a investimento executado.
Para dimensionar o resultado real, será preciso informar quanto foi aprovado, contratado e efetivamente liberado durante o ano.
Outro movimento monitorado em 2026 é a Chamada de Clima da BNDESPAR, que prevê comprometer até R$ 5 bilhões em fundos de transformação ecológica, soluções baseadas na natureza e crédito climático.
O processo analisou 45 propostas na primeira fase e 20 na segunda. Sete avançaram para análise gerencial e jurídica, entre estratégias administradas por Brookfield, EB Climate, Generation, Pátria, Mombak, Vinci e Riza Fama.
Contudo, a participação da BNDESPAR depende ainda da conclusão das análises internas. Por isso, o limite de R$ 5 bilhões deve ser tratado como investimento potencial, não confirmado.
Por que anúncio não é o mesmo que desembolso?
Cada etapa do investimento representa um nível diferente de avanço. O anúncio demonstra intenção. A aprovação indica que o projeto passou pela avaliação da instituição financeira.
A contratação ocorre com a assinatura do acordo. Já o desembolso representa a liberação dos recursos conforme o cronograma físico e financeiro do projeto.
Assim, somar anúncios, aprovações e desembolsos como se fossem equivalentes produz uma leitura distorcida.
A apresentação brasileira na COP31 terá mais consistência se cada valor vier acompanhado de sua etapa, data de referência, origem dos recursos e participação do capital privado.
Meta de US$ 1,3 trilhão é global, não brasileira
A mobilização de US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 é uma meta global de financiamento climático. Ela foi estabelecida com atenção especial às necessidades dos países em desenvolvimento.
O "Roteiro de Baku a Belém" prevê mecanismos de acompanhamento para comparar recursos públicos, privados, nacionais e internacionais. A primeira atualização de implementação deverá ser apresentada justamente na COP31.
O Brasil poderá informar sua contribuição para essa mobilização. Porém, precisará separar o objetivo internacional dos valores efetivamente captados ou aplicados no país.
Bancos e seguradoras como parte da prestação de contas
Bancos públicos e privados deverão mostrar como converteram compromissos climáticos em operações de crédito.
Em junho de 2026, UNEP FI, ANBIMA, CNseg e Febraban reforçaram que a mobilização de capital privado será decisiva para transformar compromissos em projetos financiáveis.
Além dos valores liberados, a prestação de contas deverá incluir prazos, setores beneficiados, distribuição regional e capacidade de atrair outras fontes de recursos.
As seguradoras também entram nesse balanço. Elas participam tanto da proteção dos projetos quanto da mobilização de recursos de longo prazo. A contribuição do setor poderá ser demonstrada por indicadores como:
- Número de projetos climáticos segurados e valores protegidos pelas apólices;
- Garantias oferecidas em contratos e concessões públicas;
- Medidas de prevenção exigidas na subscrição e participação de resseguradores.
Além de oferecer cobertura, as seguradoras são investidoras institucionais. Por isso, podem direcionar ativos para títulos e projetos de longo prazo, desde que existam segurança jurídica, riscos conhecidos e retorno compatível.
NDC brasileira no horizonte da COP31
Os projetos apresentados deverão demonstrar coerência com a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira.
O compromisso do país prevê reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 59% e 67% até 2035, em comparação com os níveis de 2005. A COP31 não representa o prazo final dessa meta.
No entanto, o Brasil deverá mostrar que políticas públicas, financiamento e projetos executados caminham na mesma direção.
Energia renovável, biocombustíveis, restauração florestal, indústria de baixo carbono, mobilidade sustentável e infraestrutura resiliente estarão entre as áreas monitoradas.
Ademais, a agenda de adaptação exigirá avanços mensuráveis em sistemas de alerta, drenagem urbana, segurança hídrica e proteção de municípios vulneráveis.
A COP30 aprovou 59 indicadores para acompanhar a Meta Global de Adaptação e reforçou o compromisso de triplicar o financiamento para essa área até 2035.
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Portanto, a COP31 representará o momento em que o Brasil precisará ligar cada compromisso a um projeto identificado, recursos efetivamente liberados e resultados climáticos verificáveis.
Essa será a medida real da liderança exercida em Belém.
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