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Paraenses contam como arriscaram tudo para viver em Santa Catarina

quarta-feira, 01/01/2020, 23:13 - Atualizado em 02/01/2020, 08:05 - Autor: Fernanda Palheta


Imagem ilustrativa da notícia Paraenses contam como arriscaram tudo para viver em Santa Catarina
| Divulgação/Governo de SC

Não existem números exatos. Mas é perceptível que cada vez mais paraenses estão escolhendo o estado de Santa Catarina para morar. Você mesmo, caro internauta, deve conhecer alguém que tenha escolhido o estado do sul do país para arriscar uma nova vida.

Seja atrás de oportunidades profissionais, melhor qualidade de vida ou atrás de um sonho, os paraenses andam procurando pelas cidades catarinenses como destino.

Arisson Rodrigues enxergou em Santa Catarina o potencial para crescer profissionalmente. O convite recebido para trabalhar com um chef que admira, a bolsa de estudos que conseguiu através do Enem e a vida praiana na ilha catarinense se tornaram a combinação do que ele chama de vida perfeita. “Eu não via mais propósito em ficar no Pará. Eu sentia que aprendi o suficiente e que não tinha mais com o que contribuir, mas o que me fez sair daqui foi quando fui assaltado”, relembra Arisson, que perdeu um amigo para a violência.

Adriana Vasconcelos também decidiu investir todas as fichas no sul do país. Sozinha e apenas com uma mochila nas costas, há dez anos ela deixava a família para trás em busca de uma vida profissional melhor do que a que tinha na capital paraense. Em um lugar, até então desconhecido, desbravou a capital em busca de independência e o resultado surgiu em poucos dias. “Distribuí alguns currículos na primeira semana e dias depois eu fui chamada. Meu primeiro trabalho foi em uma empresa de telefonia”. Um ano e meio depois, volta ao Pará após problemas pessoais, mas é com o apoio dos amigos e da família que retorna para a cidade dos sonhos para ficar. “Se Deus quiser!”, acrescenta, com muito entusiasmo.

SAUDADE

Inevitavelmente um pedaço de nós fica para trás quando saímos do nosso ninho. E assim como um bebê chora quando sente falta do colo da mãe, quem larga tudo (ou quase tudo) em busca de uma vida melhor uma hora ou outra precisa lidar com diversos conflitos, entre eles a dor da saudade. “Minha mãe não está aqui, sinto falta dela e tento convencê-la a vir para cá. É difícil porque ela não quer deixar o que ela construiu no Pará”. A tristeza na voz de Adriana ao telefone é perceptível. “E os amigos?”, pergunto. “Com eles eu mantenho contato por aplicativo. Eles sempre me apoiaram muito para que eu voltasse”.

“A saudade é difícil, mas com a rotina acabo não sentindo tanto. Tem hora que bate da família e dos amigos de infância. Eu tenho amigos aqui, só que nem se compara”, desabafa Arisson, que hoje vive acompanhado do irmão, um biólogo e seu sócio que o ajuda na cozinha. Os pais? Ficaram em Belém, mas estão com planos de visitá-los em breve. “Para matar a saudade é difícil, mas eu tento pensar em coisas novas e que logo eu vou poder vê-los”.

DELÍCIAS DE CÁ

Na falta daqueles que se ama, há quem preencha esse vazio com comida. Santa Catarina é um estado quase forjado por migrantes. É onde o choque cultural abre espaço para novas tradições, costumes e sabores. “Existem muitos lugares para os paraenses aqui. Tem sorveteria com toques regionais, açaí, vatapá, maniçoba, pimenta e outras especiarias”, garante Adriana. 

Oferta e demanda foi o que garantiu ao Nayro um patrimônio imenso atualmente. A falta de oportunidade de trabalho em Nova Timboteua o obrigou a percorrer mais de três mil quilômetros em direção à pequena cidade de Brusque, interior de Santa Catarina. Chegou em 2013 apenas com um ensino fundamental completo e nenhuma experiência profissional na bagagem. “Eu fui trabalhar em uma fábrica de tecidos até que um dia eu e minha esposa vimos uma pessoa trazendo charque do Pará e vendendo aos montes aqui. Decidimos experimentar”, lembra o timboteuense. As vendas de umas sacas de farinha aqui e uns quilos de charque acolá fizeram jus ao investimento e deram ao empresário uma nova perspectiva. Dois anos depois o negócio prospera e se transforma no Casa do Norte, um restaurante especializado em comidas típicas paraenses com um time de seis pessoas.

PRECONCEITO

A busca pela vida dos sonhos pode custar caro. Além de conviver com a solidão e com a falta de apoio de pessoas queridas, é preciso lidar com o preconceito. Um levantamento realizado pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que Santa Catarina tem a maior taxa de registros de injúria racial do país e está em quarto lugar no ranking com 1.060 registros, o que representa uma média de 15 casos denunciados a cada 100 mil habitantes. Paralelo a isso, são 69 grupos neonazistas identificados e em atividade no estado - resultado obtido após estudo da doutora em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Adriana Dias.

Será que vale a pena viver no estado com a sexta maior economia do país e com a menor taxa de desemprego? Antes de se fixar em Florianópolis, Arisson ficou em Joinville por quatro meses. Na época, lidou com o preconceito velado e com discursos de ódio explícitos. “Viver em cidade do interior era complicado porque essa galera, chamada de ‘colono’, te olhava torto só por ser de Belém, por ser do norte. Eles dizem que tem muito paraense que vem roubar emprego, que é desocupado, que vive do bolsa família e que é o estado que sustenta o país”. Por outro lado, a independência financeira, o reconhecimento profissional e a vida praiana deram forças para que fixasse suas raízes. “Querendo ou não, aqui eu tenho uma visibilidade diferente e o reconhecimento pelas coisas que eu faço. É claro que eu não tenho ajuda dos amigos, mas estou ganhando um espaço que antes eu não tinha”, confessa o jovem cozinheiro.

O que esperar de Santa Catarina?

Durante a nossa conversa, Adriana e Arisson deram conselhos valiosos aos que estão entusiasmados e decididos a sair de casa. “Encontrei muitos paraenses durante as entrevistas de emprego, então o que eu recomendo é que tenha um dinheiro reservado para sustentá-lo no tempo que está em busca de emprego. O melhor período é entre dezembro e março, considerado alta temporada por causa do verão. Pela minha experiência, a maior oferta de vagas costuma ser para auxiliares administrativos, garçons e atendentes”, recomenda a administradora.

“Eu tive um casal de amigos que me recebeu na casa deles durante o meu primeiro mês por aqui até eu me estabilizar e achar um apartamento pra mim. Geralmente, o pessoal que tem vindo pra cá faz isso”, conta Arisson. “Pode levar em média um mês para conseguir um emprego e mais um para começar a se manter com o salário”, orienta.

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