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REPORTAGEM ESPECIAL

Lutas e conquistas: mulheres transformam a Mineração no Pará

A empresa onde você trabalha promove a inclusão de mulheres? Quais políticas e ações estão sendo criadas para valorizar a representatividade e o papel das mulheres em diferentes profissões e cargos? O DOL te mostra nessa reportagem especial, a importância da equidade de gênero no mercado de trabalho, como ferramenta para abrir espaços e inspirar novas oportunidades e possibilidades.

quarta-feira, 22/12/2021 - Autor: Andressa Ferreira, Enderson Oliveira e Emerson Coe

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Mulheres estão transformando a mineração no Pará.
Mulheres estão transformando a mineração no Pará. | Emerson Coe/DOL

Inspirar novas possibilidades. Acolher e incluir. Apostar na diversidade de inclusão e representatividade. Ampliar o nível de consciência e “pensar fora da caixa”... É assim que mulheres como Sarah, Pamella, Rizia, Valéria, Viviane e muitas outras estão conquistando espaço e mudando a história da mineração no Pará. Mais do que um sonho em comum, elas eliminaram as barreiras e enfrentaram o preconceito para exercer uma profissão até anos atrás considerada principalmente masculina.

Sarah Lopes, de 27 anos, é integrante da equipe de Gestão de Contratos de Negócios de Metais Básicos da Vale, no Pará. Cadeirante, ela relembra o quão desafiador foi a sua trajetória profissional. Entretanto, viu muita coisa mudar. Transformações que, segundo ela, valorizam as mulheres e tornam o ambiente de trabalho cada vez mais inclusivo, capaz de romper percepções capacitistas e preconceituosas.

“Aqui você é reconhecida pelo o que você é, pela sua capacidade, pelo seu conhecimento, independente de raça, cor, gênero, orientação sexual”, reforça. Veja o que a jovem também disse:      Apesar de índice longe do ideal, houve aumento na presença de mulheres na mineração, segundo dados do 1º Relatório de Progresso do Plano de Ação de Avanço das Mulheres na Indústria da Mineração, realizado pelo movimento Women In Mining Brasil (WIM Brasil), movimento que visa ampliar e fortalecer a participação feminina no setor da mineração.

De acordo com o relatório, apenas 15% do quadro geral de trabalhadores na indústria de mineração é ocupado por mulheres, representando uma alta de apenas dois pontos percentuais na comparação com 2020.

A boa notícia é que há uma clara intenção de mudança em prol da diversidade de gênero. Sem dúvida, ocupar lugares que antes eram mais restritos traz maior de identificação, representatividade e pertencimento. Para socióloga e mestra em Ciência Política e professora universitária, Karen Santos, a questão é compreender de que forma isso vem se tornando efetivo na mineração.

“Quando se fala em aumento da diversidade no quadro funcional e integração das mulheres na mineração, esses dados econômicos têm total influência, com participantes da indústria e tomadores de decisão tendo conhecimento sobre os desafios e oportunidades que as mulheres estão encontrando ao buscarem carreiras em empresas de mineração e outros negócios relacionados à mineração, visando a equidade de gênero”, ressalta a especialista.   

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CONQUISTAS DE TODOS, TODAS E TODES

É neste contexto que está inserida também a trajetória de Pamella Almeida, de 30 anos, Supervisora de Manutenção Corretiva em Carajás, no sudeste do Pará, ingressou na Vale em meados de 2010. No início, seu maior obstáculo foi se aprimorar na carreira de vulcanização, que ainda é uma área eminentemente masculina. Com competência, profissionalismo e organização, hoje ela ajuda a inspirar outras mulheres e se tornou a primeira supervisora de vulcanização em Carajás.

Sobre a questão do preconceito, Pamella ressalta que “ele sempre existiu e vai existir”, mas que também é possível reverter e desconstruir os estereótipos. Em 2020, com a chegada de mais vulcanizadoras e sua atuação na supervisão, ela percebeu a importância do desenvolvimento igualitário para as mulheres.

A Supervisora de Manutenção Corretiva sabe muito bem o seu papel e representatividade. Ela é coordenadora do grupo LGBTQIA+ do Corredor Norte, abrangendo as operações do Pará e Maranhão, e defender a diversidade e a inclusão se tornou seu propósito de vida.

“A oportunidade vem, mas a gente precisa estar pronta para agarrar. Como representante de um grupo LGBTQIA+, como madrinha de uma equipe de mulheres, eu busquei e conquistei esse lugar de fala e assim a gente vai estabelecendo essa relação de confiança, tanto dentro da empresa quanto para a sociedade”, destaca ela.

Para ela, a maturidade veio de vários obstáculos superados e conquistas alcançadas. O exemplo foi para dentro de casa. Hoje, ela tem um filho de 18 anos, que se formou em eletromecânica.

“Com certeza, esse é o grande diferencial: ser mãe, ser exemplo também faz parte da minha carreira. Não foi fácil chegar até aqui e ainda temos muitos desafios pela frente. A mineração é um mundo de possibilidades. Foi aqui que eu alcancei voos gigantes, conheci pessoas excepcionais dentro do mercado. A gente consegue interface com várias empresas, várias pessoas que têm os mesmos objetivos. Minha casa, meu carro, meu sustento veio através da mineração”, comemora.

Pamella entrou na Vale com 18 anos. Agora, com 30, ela se considera uma referência dentro da mineração e dessa transformação cultural, que luta por um ambiente inclusivo, que valoriza as diferenças e reforça a importância da diversidade e do respeito.

“Eu acredito sim, que juntas vamos ainda mais longe e vamos alcançar mais mulheres, ainda mais LGBTQIA+, profissionais com deficiência, negras e todas aquelas pessoas que querem ter uma carreira na mineração”, conclui.   

QUALIFICAÇÃO, PODER E POSSIBILIDADES

Historicamente, a integração de grupos “atípicos” (ou seja, grupos de trabalho que possuem qualquer formação diferente de líder-colaboradores) assumindo funções na divisão social do trabalho ocorre devido a políticas de inclusão que visam romper o cenário da desigualdade.

Para Karen Santos, socióloga e mestra em Ciência Política, essa mudança não pode ser atribuída somente ao âmbito da governança, mas também na mentalidade social, que hoje mesmo de maneira ainda lenta, vem desmistificando o padrão do trabalho como sendo exclusivo do que feminino ou masculino.

“Além do aspecto político e social, é importante mencionar que houve um aumento substancial da taxa de desemprego nos últimos anos, no primeiro trimestre atingindo um recorde de 14,7% ante 13,9% do quatro trimestre, segundo dados do IBGE. Assim como a informalidade e a precarização do trabalho, isso quer dizer que a busca por setores profissionais atípicos a um determinado perfil de gênero é cada vez mais frequente, pois gera expectativa de estabilidade e controle da sobrevivência”, destaca Santos.

Ainda de acordo com a pesquisadora, para que o número de mulheres seja cada vez maior no mercado de trabalho, é necessário entender que lucro em uma sociedade caótica não gera solidariedade.

Ela reforça a importância de “criar uma estrutura ativa e permanente de comprometimento com as ações de inclusão de gênero, de forma responsável e diversa” para que, não apenas mais pessoas sejam incluídas no mercado, mas também haja maior diversidade em habilidades e competências.   

Karen Santos ressalta a luta das mulheres pela equidade de gênero, por condições igualitárias na sociedade, no mercado de trabalho, e na vida de um modo geral.
Karen Santos ressalta a luta das mulheres pela equidade de gênero, por condições igualitárias na sociedade, no mercado de trabalho, e na vida de um modo geral. | Reprodução

Para a professora universitária, o maior desafio da inclusão não é o nível de qualificação, já que, inclusive, muitas mulheres têm alto nível de especialização na área. O grande problema, de acordo com ela, ainda é a mentalidade machista, que pode ser exemplificado em atos de assédio e na naturalização dos abusos psicológicos.

“As empresas têm um papel obrigatório de garantir um ambiente de trabalho respeitoso. A boa gestão de pessoas como capital humano, é essencial no desenvolvimento e no fomento à diversidade”, reforça ela.

Nisto, a Vale é exemplar ao incentivar o respeito e desenvolvimento pessoal e profissional dos funcionários, algo notado, por exemplo, na trajetória de Rizia Veloso, paraense e filha de nordestinos. Supervisora de Manutenção de Raspadores na Usina de Carajás, já enfrentou muitos desafios até que chegar ao lugar que ocupa hoje.

“A mineração transformou a minha vida de uma forma gigantesca. Eu estava em outro estado, outro setor, em uma área mais técnica. Vim para cá e foi uma transformação completa. Não foi só mudar de carreira, foi encarar um desafio onde tinha que lidar com muitas pessoas, com um novo ambiente. Um desafio e crescimento pessoal e profissional”, ressalta ela.

Para o futuro, Rizia espera atingir sua tão sonhada meta: a de ser inspiração para tantas outras mulheres. “Quero que olhem para a Rizia e pensem que dá para chegar onde elas quiserem. Que pensem ‘se ela foi, eu também vou’. Que essa mulher se sinta empoderada e livre o suficiente para buscar o que ela quiser, o que a faça feliz. O preconceito existe e a gente vai combater. Seja na nossa fala, seja na nossa postura, seja no movimento que vai contra todo mundo que diz que a gente não vai conseguir, e a gente vai lá de faz”, reforça.   

MERCADO ACOMPANHA MUDANÇAS SOCIAIS

As conquistas das mulheres são resultado de lutas e avanços sociais, que também chegam à Mineração. Para a socióloga e mestra em Ciência Política, muita coisa mudou ao longo da história em relação a ocupação da mulher no mercado de trabalho, que antes, estava vinculada ao ambiente doméstico familiar, e para estatística, a “economia do cuidado” não conta como valor de mercado.

“É justamente a reprodução social do cuidado, a responsável por formar a mão de obra trabalhadora. No campo específico do trabalho externo, houve uma mudança significativa nas ocupações femininas. De 1872 a 2010 temos uma forte divisão sexual do trabalho, com as mulheres maciçamente ocupando o serviço doméstico, enquanto que os homens dominavam o setor da construção civil, por exemplo. O que altera essa dinâmica ao longo do tempo é o acesso das mulheres a escola, ensino básico, médio e universidades”, explica Karen Santos.

A trajetória de Valéria Franco exemplifica isto. Ela é Gerente Executiva de Saúde, Segurança e Meio Ambiente e Riscos do Corredor Norte, atividade que engloba operações de mina, ferrovia e porto nos estados do Pará e Maranhão. Ela entrou na mineradora como assistente financeira e atualmente, está no cargo de gerência, responsável por uma equipe de aproximadamente 1500 pessoas.

Valéria saiu de Minas para o Pará após passar por diversas áreas e dificuldades. Em 2021, durante o pico da pandemia, ele teve a missão e o desafio de conectar pessoas à distância.   

FUTURO INCLUSIVO

Apesar das mudanças e transformações no mercado de trabalho, as desigualdades entre homens e mulheres persistem no meio organizacional e sociopolítico. Dados do Fórum Econômico Mundial4 revelam que o Brasil ocupa a 92ª posição no ranking global de igualdade de gênero, que conta com a participação de 153 países.

A realidade no setor mineral é ainda mais desafiadora e muitos são os campos de atuação que necessitam da presença das mulheres de forma igualitária, respeitosa e condizente com a sua capacidade de produção.

Sobre isto, Karen Santos, reforça que a presença de mulheres liderando é uma das formas de construção e efetivação de agendas significativas, seja no espaço público ou no âmbito privado.

“Quando se fala de presença vai muito além da presença coadjuvante, para que o ciclo da desigualdade seja quebrado. É necessário que o cenário onde isso ocorre seja transformado. O direito e a dignidade no mundo moderno são construções políticas, que por sua vez, se transformam em direitos individuais e coletivos. Mais que o discurso de ‘minoria’, já que as mulheres correspondem a mais de 52% do eleitoral brasileiro, é necessário observar essa agenda como uma discussão da própria ideia de democracia. Não existe igualdade política sem condições de exercício da autonomia subjetiva”, enfatiza.   

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Viviane Ajub, gerente global de Diversidade e Inclusão da Vale, relembra que em 2019, na época em que a empresa firmou seu compromisso de valorizar a diversidade e promover a inclusão, era 13,5% de representatividade feminina. Esse número subiu e atualmente as mulheres representam 18,2% do total da força de trabalho da mineradora. Ou seja, segundo ela, cerca de 4.500 mulheres a mais atuando na área.

“Temos muitos desafios pela frente, de tornar esse ambiente de trabalho inclusivo para essas mulheres que estão entrando e temos a certeza que estamos no caminho certo, aprendendo juntos”, reforça Ajub.

Mulheres como Sarah, Pamella, Rizia, Valéria e Viviane são agentes de mudança e estão rompendo as barreiras. Em 2019, a mineradora Vale intensificou esforços e iniciativas, anunciando a meta de dobrar a representatividade feminina na sua força de trabalho até 2030. Confira:   

Reportagem: Andressa Ferreira

Edição: Enderson Oliveira

Edição de vídeos e multimídia: Emerson Coe

Coordenação Sênior: Ronald Sales

Coordenação Executiva: Mauro Neto


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