O ensino médico no Pará entrou oficialmente em uma nova fase de cobrança e pressão por resultados. A divulgação do primeiro Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025 revelou um quadro preocupante: quase metade das faculdades de medicina do estado apresentou desempenho insatisfatório e agora terá de enfrentar sanções diretas do Ministério da Educação (MEC).
Dos nove cursos avaliados no Pará, quatro ficaram abaixo do nível considerado adequado, o que representa 44,4% das instituições. Esses cursos passarão por um rigoroso processo de supervisão, com possibilidade de redução de vagas, perda de acesso a programas federais e até restrições acadêmicas. O cenário é ainda mais delicado em relação às notas, pois 3 instituições receberam as piores notas.
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O cenário coloca em xeque a qualidade da formação de futuros médicos e acende um alerta sobre os impactos que isso pode ter no sistema de saúde da região.
O novo Enamed e suas consequências
O Enamed substitui o antigo modelo do Enade para cursos de medicina e passa a ser o principal parâmetro de avaliação da qualidade dos cursos no país. Além disso, tornou-se requisito para acesso ao Exame Nacional de Residência Médica (Enare), o que garantiu adesão praticamente total dos formandos.
Mas, para as instituições, o exame trouxe algo inédito: consequências regulatórias imediatas.
O MEC definiu que cursos com Conceito 1 e 2 — aqueles em que menos de 60% dos alunos alcançaram proficiência mínima — sofrerão medidas cautelares. E foi exatamente nessa faixa que quase metade das faculdades paraenses acabou enquadrada.
Quem são as instituições na zona de risco
O caso mais grave foi registrado no campus de Altamira da Universidade Federal do Pará (UFPA). Apenas 37,3% dos estudantes atingiram o nível esperado de proficiência, atingindo o Conceito 1, o mais baixo.
Por estar na faixa mais baixa de desempenho, o curso sofrerá as sanções mais duras:
- Redução imediata de 50% das vagas ofertadas;
- Proibição de abrir novas turmas;
- Suspensão de pedidos de ampliação de vagas;
- Restrição de acesso a programas como Fies e ProUni.
Na prática, o resultado coloca o curso sob risco real de encolhimento e exige uma profunda revisão de seu modelo pedagógico.
Outras duas instituições privadas ficaram em situação delicada:
- UNIFAMAZ (Belém): 54,9% de proficiência
- AFYA Marabá: 54,6% de proficiência
Embora tenham superado a barreira dos 50%, ambas ficaram abaixo dos 60% exigidos para um desempenho considerado satisfatório. Com isso, entram na chamada Faixa 2 de risco.
As consequências para elas incluem:
- Proibição de ampliar vagas;
- Processo administrativo de supervisão conduzido pela Seres/MEC;
- Prazo de 30 dias para apresentar um plano de melhoria;
- Possibilidade de novas punições caso não consigam reverter o quadro.
Sinal de alerta
A unidade da UFPA em Belém conseguiu escapar das punições mais severas por atingir 60,4% de proficiência — exatamente o limite para o Conceito 3.
Ainda assim, o resultado ficou abaixo da média nacional (64,8%), indicando que a maior universidade pública do Pará também enfrenta dificuldades na formação prática e teórica de seus alunos.
O dado mais preocupante: quatro em cada dez formandos da instituição não alcançaram o nível esperado de competência clínica.
O Campus de Santarém da UEPA e AFYA de Redenção atingiram o Conceito 3 também.
Excelência no interior
Se parte do estado vive uma crise, outra parte celebra resultados expressivos.
O grande destaque foi a UEPA Campus Marabá, que alcançou impressionantes 91,7% de proficiência, conquistando o Conceito 5 — o nível máximo da avaliação.
O desempenho coloca a unidade entre as melhores do Brasil e prova que é possível oferecer formação médica de altíssimo nível mesmo fora dos grandes centros.
Também tiveram desempenho de destaque:
- UEPA Belém: 84% de proficiência (Conceito 4)
- Cesupa: 78,9% de proficiência (Conceito 4)
Esses resultados mostram que o problema do Pará não é estrutural ou geográfico, mas diretamente ligado à gestão acadêmica de cada instituição.
O que muda, na prática, para as faculdades punidas
O ministro da Educação, Camilo Santana, foi claro ao apresentar as medidas: o foco não é punir alunos, mas garantir qualidade.
As sanções previstas incluem:
- Corte de vagas entre 25% e 50%, dependendo do nível de desempenho;
- Suspensão de participação em programas federais como Fies e ProUni;
- Proibição de abertura de novas turmas;
- Fiscalizações presenciais do MEC para avaliar estrutura, laboratórios e corpo docente;
- Monitoramento contínuo até o próximo ciclo avaliativo.
Todas as instituições enquadradas terão que apresentar, em até 30 dias, um plano detalhado de saneamento e melhorias.
Uma nova era de avaliação
O Enamed inaugura um período em que a qualidade da formação médica deixa de ser mera formalidade burocrática e passa a ter efeitos concretos sobre a sobrevivência das próprias faculdades.
Para estudantes, o recado é claro: a nota do exame agora influencia não só o acesso à residência médica, mas também o prestígio e a estabilidade da instituição onde estudam.
Para as faculdades com desempenho ruim, o recado é ainda mais direto: ou melhoram rapidamente, ou verão seus cursos encolherem — e, em casos extremos, desaparecerem.
REALIDADES DISTINTAS
O retrato revelado pelo Enamed 2025 expõe duas realidades opostas no Pará: de um lado, polos de excelência que competem com o melhor do país; de outro, cursos que não conseguem garantir o mínimo de proficiência a seus formandos.
O que acontece agora com as faculdades de medicina que tiveram desempenho ruim é um processo inevitável de ajuste e cobrança. O MEC abriu a caixa-preta da formação médica — e deixou claro que, a partir de agora, qualidade não será mais opcional.
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