Um dos estreantes no Festival Se Rasgum 2010 é um fenômeno da internet: mais de um milhão de views no Youtube, uma popularidade que ajudou a vender dez mil discos artesanais, de mão em mão, sem aparecer na grande mídia. Não, não é a Mallu Magalhães. A peripécia é obra de Leandro Roque de Oliveira, ou melhor, Emicida.
O rapper de 25 anos, nascido na periferia de São Paulo, é dono de um som baseado no freestyle das batalhas de MCs, onde a criatividade do improviso das rimas dita os campeões. A fama surgiu de sua performance impecável nessas batalhas. Amigos fizeram vídeos das apresentações e postaram na internet. Pronto.
“Eu andava na rua e o pessoal já me parava, pedia foto, autógrafo, e eu não entendia nada”, conta Emicida. “Até que vieram me dizer: ‘Você já viu que tem mais de um milhão de visualizações no Youtube?’. Aí eu saquei que era hora de usar isso a meu favor”.
Começou assim a árdua e promissora trajetória do rapper, no melhor estilo “artista igual a pedreiro”: Leandro entrou pela primeira vez em um estúdio para gravar a mixtape “Pra quem já mordeu cachorro por comida, até que eu cheguei longe...”, com 25 faixas, e fez manualmente cada uma das dez mil capas do disco, vendido a R$ 2 em bares e nos shows que fazia.
Sobre o título do trabalho, ele conta: “Meu pai morreu cedo e minha mãe não tinha emprego. Eu e meus três irmãos tínhamos que dividir dois pães no lanche, e minha cachorrinha roubou o meu pedaço. Não contei conversa: tasquei nela uma mordida de raiva. Mas ela ficou com o pão”, diz, bem humorado.
Se o passado foi ingrato, o presente anda sorrindo para Emicida. O rapaz, que já foi pedreiro, pintor, vendedor de hot dog, ilustrador e dublador, se orgulha de ter sua própria gravadora, o Laboratório Fantasma, que cuida da gravação, mixagem, prensagem e venda (a preço de banana, no máximo R$ 5) dos CDs assinados por ele.
Emicida lançou este ano o EP “Sua mina ouve meu rap também”, que reforçou um aspecto que diferencia o seu som do que se entende comumente por rap brasileiro: a rima marcada pelo pop, que às vezes beira o romântico. “Digo que eu sou o folk do rap. Não me identifico com o discurso de protesto, mais agressivo. Canto as coisas da vida, o cotidiano com a minha mulher, com minha filha, coisas bonitas, que são tão reais e comoventes quanto falar de miséria”.
Mas ele não deixa de dar um recado mais politizado em suas composições. “Infelizmente, o preconceito social e racial ainda é realidade no Brasil, e isso faz parte da minha vida. Negro, esteticamente, não agrada. As pessoas olham feio e pensam o pior de você”, diz. Leia mais no Diário do Pará.
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