Assim que os olhos se deparam com ele, surge o arrebatamento. Na mesma fração de segundo, irrompe uma quase incontrolável vontade de tocar. E cheirar as páginas também vira necessidade. Se você considera o objeto de leitura tão vital quanto o próprio ato de ler, e é daqueles que se fascinam com a simples possibilidade de ter a edição exclusiva de uma obra, sorria, não há solidão nesse mundo. Existe um clube que reúne amantes e colecionadores de livros de todo o país, a Confraria dos Bibliófilos do Brasil, em Brasília. Gente que gosta não apenas de ler, mas também se encanta pelo livro-objeto.
Pela Confraria nascem todos os anos pelos menos três preciosidades literárias com a coleção ‘Edições da Confraria’. Uma das mais recentes é a de “Oito Contos Amazônicos de Inglês de Sousa”. Publicado em 2012, a edição especial celebra o legado do escritor paraense que nasceu em Óbidos em dezembro de 1853 e captou da terra natal a essência para criar narrativas únicas sobre a Amazônia. Pesa pouco mais de um quilo e evoca aquela áurea de item de colecionador. Coisa que talvez só os apaixonados por livros vão entender. “Na verdade, cada livro é como uma joia, feita especialmente para aquele confrade, pois como tudo é feito de forma manual, nenhum é exatamente igual ao outro”, diz o presidente da Confraria, o engenheiro e bibliófilo José Salles Neto, de 65 anos.
Esse jeito de tratar livro como preciosidade, transforma cada obra em joia rara. Nem poderia ser diferente. Dos 501 exemplares de ‘Contos Amazônicos’, por exemplo, editados pela Confraria, nenhum é igual ao outro, nem terão uma nova tiragem. Faz parte da engrenagem. Assim que é concluída uma edição, as páginas de chumbo, usadas para dar vida aos livros, são derretidas para reaproveitamento do material.
PASSO A PASSO
Nessa era tão carregada pela tecnologia e por produções em escala industrial, os métodos de trabalho da Confraria subvertem o sistema editorial e resistem. Cada edição leva em média oito meses para ficar pronta. Quando o título é escolhido, depois de uma eleição entre os membros da Confraria, vem a verificação dos direitos autorais. Contratar um ilustrador torna-se a preocupação seguinte. Em ‘Contos Amazônicos’, é o traço de Arnaldo Garcez que ilustra os enredos marcados por lendas e mitos da Amazônia, e pelo olhar crítico sobre uma região esquecida nos confins do Brasil. Na próxima etapa, Salles seleciona quem irá escrever a apresentação do livro. De leituras e pesquisas, ele descobriu Sylvia Perlingeiro Paixão, doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e estudiosa do legado de Inglês de Sousa. É ela quem traça de forma precisa o impacto do título na época em que foi lançado e até hoje.
“As histórias que compõem o volume poderiam ser consideradas quase como crônicas de costumes da época, ou melhor, um documento social elaborado a partir da observação de vários aspectos da região da Amazônia, onde a luta do homem contra o meio selvagem, em que a vida se apresentava como uma sucessão de embates sociais e políticos, era também a luta contra a natureza que o ameaçava. Personagens típicos da sociedade de Óbidos, bem como habitantes marginalizados do interior desfilam nas páginas do livro, ilustrando a vida social e política de meados do século XIX, embora não seja essa a principal característica da obra de Inglês de Sousa”.
A próxima fase de produção é a composição das páginas em linotipia, onde se fabrica em máquinas dos anos 40 e 50, cada linha em chumbo quente. “Concluída uma página, ela pesa quase cinco quilos, e todas as páginas do livro cerca de meia tonelada, que são levadas para a tipografia em kombi fretada”, explica Salles. Nesse mesmo, é feita a revisão da obra, uma das atividades mais complexas e demoradas de todo o trabalho. “A cada erro achado tem de se fazer novas linhas e aí aparecem novos erros e assim por diante. A revisão em linotipia é considerada como o episódio da Mitologia, onde Hércules corta uma serpente na cabeça da Hidra e outras vão surgindo”, compara Salles.
Para não perder tempo, é também nessa fase que começa a preparação dos papéis artesanais. Em seguida, começa a impressão tipográfica, folha a folha. Na sequência, vem o acabamento com costura e encadernação manual e a preparação de caixa de acomodação. E depois de tanto lapidado, o livro finalmente fica pronto para ganhar as prateleiras de alguma estante de colecionador e despertar os sentidos de um novo leitor.
A CONFRAFIA
Criada em 1995, a Confraria dos Bibliófilos do Brasil funciona como uma espécie de clube de aficionados por livros. E nesse grupo seleto há nomes ilustres como a atriz Julia Lemertz, o ator Paulo Betti, os banqueiros Pedro Moreira Salles e Joseph Safra, os empresários Ricardo Semler e Horácio Lafer Piva. Tem até os diretores de novela Aguinaldo Silva e Manoel Carlos de Almeida. “Todos eles, ainda que não saibamos disto, têm boas bibliotecas, são colecionadores ou grandes amantes do livro diferenciado, como os nossos”, comenta José Salles. Na lista, figuram também paraenses, como o arquiteto Flávio Nassar.
Para entrar nessa sociedade, nada secreta, basta ter o mesmo deslumbramento por livros. Há 15 vagas abertas. O sócio paga só o custo do próprio exemplar.
PARA TER
A edição de ‘Oito Contos Amazônicos de Inglês de Sousa’, publicada pela edição ‘Coleções da Confraria’ custa R$ 130, além do frete. Para adquirir, basta entrar em contato pelo email conbiblibr@yahoo.com.br ou Caixa Postal: 863170.312-970.
(Diário do Pará)
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