“Com alguma surpresa de quem me escuta, desde há algum tempo venho a dizer que cada vez me interessa menos falar de literatura. Pode parecer isto uma provocação, a atitude do escritor que, para se tornar mais interessante, lança declarações inesperadas e gratuitas. E não é assim. A verdade é que duvido que se possa falar de literatura como duvido, com mais razões, que se possa falar de pintura ou se possa falar de música”, declarou José Saramago (1922-2010), durante um discurso proferido na Universidade de Turim, Itália, em Maio de 1998.
Apesar da relutância, a fala feita de improviso marcou um dos raros momentos em que o escritor português refletiu sobre a sua obra. Como definiu, deixava de descrever a estátua, para tentar penetrar no interior da pedra através de seu trabalho. “Saramago aos poucos compreendeu que não queria tocar apenas a superfície das coisas, a estátua. Ele queria tratar do essencial, daí foi em busca daquilo de que ela é feita, a pedra”, diz Pilar del Río, viúva do autor Prêmio Nobel de Literatura de 1998, em entrevista ao Você.
Palavra que ecoa, perene
A jornalista espanhola está em Belém para o lançamento do livro “Da Estátua à Pedra e Discursos de Estocolmo”, uma parceria entre a Editora da Universidade Federal do Pará (ed.ufpa) e a Fundação José Saramago, que reúne além da apresentação em Turim, o discurso apresentado por ele quando recebeu o Prêmio Nobel, em Estocolmo.
A mudança de perspectiva da obra de José Saramago coincide com a mudança de endereço de Lisboa para a ilha de Lanzarote, pertencente ao arquipélago espanhol das Canárias, em 1992. “É uma ilha com 260 crateras. Uma ilha vulcânica. Árida. Maravilhosa. E esse ambiente contribuiu para que Saramago refletisse sobre a terra, a pedra nua. Destituída de detalhes”, conta Pilar.
A transformação do escritor acontece com “O Ensaio Sobre a Cegueira” (1995), no qual a cegueira fulminante que ataca os habitantes de uma cidade, para o narrador da história, não é mais desoladora do que a cegueira da razão que atinge a humanidade. “O livro já não se empenha na descrição da estátua, é uma tentativa de entrar no interior da pedra, no mais profundo de nós mesmos, é uma tentativa de nos perguntarmos quem somos. E para quê”, afirma o autor em um trecho.
“Saramago não tinha o costume de escrever discursos, tampouco conversar com ninguém sobre o assunto. Então é inexplicável o que passou em Turim. Ele começou a falar e nós que estávamos na plateia ficamos perplexos. Porque ele enveredou por um caminho muito pessoal. Saramago não contava em seus livros detalhes da sua vida. Saramago não fala de si. E ali, ele falava de algo mais amplo. Do ser humano. Da necessidade de viver em harmonia”, revela Pilar.
O discurso transcrito foi publicado originalmente em 1999, em uma edição italiana limitadíssima de 126 exemplares. Foram mantidos, como na versão europeia, os prefácios assinados por Pilar del Río, Giancarlo Depretis, professor da Universidade de Turim, e por Luciana Stegagno Picchio, professora da Universidade de Roma, além do texto de Fernando Gómez Aguilera, autor do livro “A Consistência dos Sonhos – Cronobiografia”, sobre Saramago. A versão brasileira conta com correções no discurso, feitas pelo próprio Saramago.
ATIVISMO
Além de “Da Estátua à Pedra”, a editora da UFPA também lança durante o evento o livro “Democracia e Universidade”, fruto de uma conferência que o escritor proferiu em Madri, na Universidade Complutense de Madri.
“A universidade não é uma fábrica, uma produtora de títulos acadêmicos. Como dizia Saramago, deveria ser o lugar para aprender os conceitos de cidadania, de civismo. Se os médicos atendem apenas as pessoas que tem dinheiro, e os bons advogados ajudam a perpetuar injustiças, então que tipo de sociedade estamos ajudando a construir? Tanto ‘Da Estátua à Pedra’ quanto ‘Democracia e Universidade’ são livros que não se limitam apenas a um tópico. Eles falam sobre o mundo. De um mundo que precisa ser falado. De um mundo que precisa de pessoas com capacidade, com decisão. Que devem se posicionar”, define a jornalista.
Presidente da Fundação José Saramago, Pilar se dedica a manter viva a memória do marido através do ativismo. Idealizado pelo escritor como um espaço para lançar propostas, mas sem pensamentos fechados ou acabados, a fundação ocupa a Casa dos Bicos - um edifício do século 16, localizado na parte antiga da Lisboa.
“Temos três objetivos. O primeiro é a divulgação da literatura. E aí entra nossa pareceria com a editora da UFPA. Queremos dar projeção não só a literatura de Saramago, mas de autores portugueses e de língua portuguesa. O segundo objetivo são os deveres humanos. Deveres, no plural. E não temos direitos. Se você não luta, não cumpre deveres, não vai ter direitos. E a terceira é o meio ambiente. Estamos vinculados a inúmeras associações de conservação do meio ambiente. Nós militamos em um pensamento: isto que está aí pode ser melhor. Que no mundo cabem todos. Isso é um problema, porque o mundo tem milhões e milhões de pessoas excluídas”, descreve.
Dentre os planos de Pilar frente à fundação está o lançamento de um romance inédito de José Saramago. Batizado de “Alabardas, alabardas! Espingardas, espingardas!”, título emprestado de um verso do poeta português Gil Vicente, o livro será publicado inacabado. “Era o livro em que ele estava trabalhando antes de morrer. Serão publicados apenas quatro capítulos e nada mais”.
PRESTIGIE
Além da palestra proferida por Pilar del Río, a programação conta ainda com a presença da atriz Vera Barbosa que lerá excertos de obras de Saramago, acompanhada por Áureo De Freitas, da Orquestra de Violoncelistas da Amazônia. Hoje, às 18h, no Centro de Eventos Benedito Nunes (setor básico da UFPA). Os livros serão vendidos com preços promocionais: “Da Estátua à Pedra e Discursos de Estocolmo”, por R$ 18, e “Democracia e Universidade”, por R$ 15. A jornalista segue depois para o Rio de Janeiro, onde participa da XVI Bienal Internacional do Livro.
(Diário do Pará)
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