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Jeferson Cecim apresenta novo espetáculo

Dona Bibi é uma velhinha que vive isolada dentro de uma caixa. E não se trata de uma metáfora. O espetáculo “Mater Dolores – Desvãos da Memória”, de Jeferson Cecim, emprega a técnica do lambe-lambe, que consiste em apresentações com bonecos em um palco em

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Dona Bibi é uma velhinha que vive isolada dentro de uma caixa. E não se trata de uma metáfora. O espetáculo “Mater Dolores – Desvãos da Memória”, de Jeferson Cecim, emprega a técnica do lambe-lambe, que consiste em apresentações com bonecos em um palco em miniatura.

Assim como as antigas câmeras fotográficas que a linguagem pega o nome emprestado, o quarto é montado no interior de um cubo de madeira de 75 centímetros de altura por 40 de largura. O pequeno espaço é decorado como um casarão de época, com direito a cadeiras de brinquedo e quadros do tamanho de selos de carta. Para espiar esse frágil mundo construído pelo ator paraense, a peça só admite um espectador por sessão. As micro-cenas com pouco mais de três minutos de duração são repetidas para cada membro da audiência, em maratonas que podem durar até duas horas.

Universo Pessoal

Além disso, para experimentar o espetáculo é preciso “vestir” o palco: a cabeça fica coberta com um pano que dá visão apenas ao interior da traquitana. O sentimento de isolamento é completo com o uso de fones de ouvidos, que transmitem as falas gravadas pela atriz Astréa Lucena.

“A história gira em torno dessa senhora, a dona Bibi, que passa os restos dos dias dela deitada em uma rede. Sozinha no quarto ela relembra o passado e é transportada para outros lugares através de sua imaginação. Um universo tão pessoal só poderia ser entendido por uma experiência mais pessoal ainda. Cada indivíduo submerge na história, habitando a caixa junto com o boneco”, descreve Jeferson Cecim, 44 anos, que ainda assina sozinho o roteiro e a manipulação dos bonecos.

A montagem é inspirada no conto “A rede, dona Bibi” do escritor paraense Haroldo Maranhão (1927-2004), no qual a protagonista está à beira da morte deitada na cama de um hospital e, como ultimo desejo, quer passar os últimos dias embalando-se na rede no aconchego de casa.

Em miniatura, as angústias da velhice

“O que me levou a escrever a adaptação foi uma fala de dona Bibi no conto: ‘Quem inventou a rede está no céu’. Apesar dos bonecos remeterem ao terreno infantil, eu quis inverter essa lógica a construir uma obra focada no tema da velhice. Ao retratar todas as aflições e angústias dessa anciã na figura de uma pequena boneca de 15 centímetros, acaba sendo mais fácil pro espectador tecer uma conexão emocional com o assunto. O boneco não te tira da realidade, é o oposto. Ele se conecta direto com o teu emocional”, explica.

O tema da velhice se repete inclusive na próxima montagem do ator, baseada no conto Mater Dolorosa, da escritora paraense Maria Lúcia Medeiros. Com previsão de estreia para outubro, o espetáculo, segunda parte de “Mater Dolores – Desvãos da Memória”, retrata o sofrimento de uma senhora com o abandono da família e amigos.

A utilização do palco em miniatura é também uma questão prática. Patrocinado pelo Prêmio Funarte Artes na Rua, do Ministério da Cultura (MinC), a proposta do projeto é que a circulação ocorra nas ruas, ocupando praças, centros comunitários, centros de terceira idade.

“Como geralmente é difícil achar um palco pra atuar, resolvi criar o meu próprio [risos]. Mas brincadeiras à parte, eu quero levar o espetáculo pra lugares que geralmente são carentes de opções culturais. A estreia é na Terra-Firme e depois segue para outros bairros da periferia de Belém como Marambaia, Jurunas, os distritos de Icoaraci e Ilha de Outeiro, além de municípios do interior do estado como Nazaré de Mocajuba, São Francisco do Pará, Igarapé-açu, Colares, Maracanã, Bragança e Soure”, conta.

(Diário do Pará)

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