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Mestre Solano fala sobre 'O Som da Amazônia'

Até hoje tem gente que pergunta quem é essa americana “bacana e linda pra chuchu” que roubou o coração de Mestre Solano, 72 anos. E ela continua um mistério. Solano garante que a mulher desencanada e irresistível só existe na imaginação – matéria-prima da

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Até hoje tem gente que pergunta quem é essa americana “bacana e linda pra chuchu” que roubou o coração de Mestre Solano, 72 anos. E ela continua um mistério. Solano garante que a mulher desencanada e irresistível só existe na imaginação – matéria-prima da maioria de suas composições. “Perdi as contas de quantas músicas já fiz”, gaba-se. “Às vezes tô na rua andando e a música vem na minha cabeça”.

Aconteceu outro dia. Solano voltava do mercado do Ver-o-Peso num ônibus Pedreira-Condor, sob o sol impiedoso de Belém. Olhava a paisagem na janela e pronto, surgiu ali a ideia para uma canção. Assobiou, batucou, que nada. Quando chegou em casa e pegou o violão, a ideia tinha fugido, tão veloz quanto chegou. “Eu devia usar o telefone pra gravar. Mas quem disse que eu sei mexer nele?”, lamenta.

Ainda que a inspiração visite Solano com certa frequência, o processo de composição se mostra uma tarefa árdua. Uma boa ideia não basta - é preciso dedicação, suor. “Você escrever a letra de uma música é o mesmo que fazer um poema. As estrofes têm que rimar”, ensina. “A gente ouve essas músicas de hoje em dia e às vezes não entende onde o cara quis chegar. Não tem rima, não tem beleza nenhuma”.

‘Americana’ é prova desse cuidado. E não à toa, a canção que Solano hoje carrega no bolso, como toque de celular, mudou sua vida. Composta em parceria com Frank Castro, foi regravada por artistas tão diversos quanto Dorgival Dantas, Aviões do Forró, Alípio Martins e Arnaldo Antunes. Um feito que enche Solano de orgulho quando relembra a trajetória que já soma seis décadas.

No começo, o radinho de pilha

Para Solano, um dos segredos para permanecer no jogo por tantos anos é saber se reinventar. “Não se pode parar no tempo”, ensina. A grandeza da lição, ele mostra no novo disco, o 17º da carreira, que será lançado em outubro pelo selo Natura Musical. “Apostei num estilo diferente, uns arranjos inovadores. Você tem que evoluir. Pegue um disco meu gravado em 1984 e este. Tudo diferente, execução e arranjos. Gosto muito de músicas do passado e guitarrada, mas gosto de estar evoluindo, mudando, crescendo”, afirma.

Nascido numa família de nove Josés, em Abaetetuba, Solano jamais imaginou que faria da arte ofício. Os primeiros acordes lhe chegaram por meio de um radinho de pilha que animava as manhãs na casa simples que dividia com o pai, Raimundo, e a mãe, Oscarina, sua principal incentivadora.

A sonoridade quente da Colômbia, das Guianas, do Panamá e Santo Domingo, com muito calipso, zouk, salsa e cúmbia, foi sua influência fundamental. Aos nove anos, Solano já dedilhava o banjo que o pai guardava escondido, distante dos olhos curiosos do menino, sempre que saía para o trabalho. Sim, porque música não era emprego, música não dava futuro.

Esse pensamento, no entanto, não lhe impediu de dominar o banjo - e também guitarra, violão, teclado, bateria e bumbo. Solano diz que aprendeu tudo olhando, nas festas que movimentavam a cidade, faziam dançar famílias inteiras e só acabavam lá pelas seis da manhã. Foi Oscarina quem insistiu para que o filho cruzasse os quilômetros que separam Abaeté de Belém, quando ele completou 21 anos.

Solano entrou num barco e partiu rumo à capital. Foi em busca de oportunidades. Ingressou como sargento no Corpo de Bombeiros e mergulhou numa vida dupla, alternando as rotinas do quartel e dos palcos. Para orgulho da mãe e desespero do pai.

Em 1974, veio o primeiro registro fonográfico, um compacto duplo. Nos anos 80, montou seu primeiro grupo, batizado ‘Top5’ e depois ‘Solano e Seu Conjunto’. Em uma noite que jamais esqueceu, durante um show em Belém, foi abordado por Wilson Souto Jr., então diretor artístico da badalada gravadora Continental. Em 1984, lançou o primeiro LP. Foram cinco discos em seis anos de contrato. Alçada à condição de hit, “Americana” não deixava o topo das mais pedidas em diversas rádios. Solano conhecia ali a força da música que seria um sucesso atemporal e também passaporte para os palcos de todo o nordeste. “Fez sucesso até fora do Brasil, em coletâneas de música latina”, assinala, arregalando os olhos.

Ele diz que essa visibilidade lhe proporcionou dividir o palco com gente como Dominguinhos, Ritchie, “aquele doido do Lobão”, o grupo Dominó, Roberta e Sula Miranda, Peninha e Luiz Caldas. Um dos poucos sonhos ainda não realizados é o de tocar na Europa. “E também de fazer um show grande em Abaeté. Tenho muito orgulho de ter nascido ali, levo o nome da minha cidade pelo Brasil, por onde passo. Espero que consiga isso antes de Deus me chamar”.

Mestre Solano não perde tempo com falsa modéstia. E esse despojamento é componente indissociável de sua personalidade. “Quem vê minha agilidade na guitarra fica embasbacado”, assegura.

(Diário do Pará)


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