As relações entre panorama visual, cinema e fotografia levaram o artista paraense, radicado em Brasília, Dirceu Maués, a desenvolver o projeto “Extremo Horizonte”, contemplado com XII Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia. Ele se propôs a visitar vários centros urbanos no Brasil para capturar por meio da técnica pinhole - câmeras artesanais - a extensão urbana das diferentes regiões do país. O Processo pode ser acompanhado pela página do Facebook (facebook.com/extremohorizonte).
São Paulo, Rio de janeiro, Belo Horizonte, Belém, Recife, Salvador, são algumas das cidades visitadas por ele. Na página virtual, Maués publica as fotografias produzidas e discorre sobre o processo e as viagens. “O público pode fazer comentários e perguntas. Há uma troca muito interessante. A página já tem mais de 600 seguidores que acompanham as novas publicações que faço frequentemente”, comemora Dirceu.
O projeto surgiu da experimentação no campo da fotografia pinhole que ele desenvolve mais profundamente desde 2003. “Foi meu trabalho de conclusão de curso na UNB porque nesses últimos anos que voltei a frequentar a universidade, sempre tentei conciliar a linha de trabalho que já vinha realizando com a academia. Uma coisa acabou retroalimentando a outra. A série tem a ver também com minha mudança para Brasília, essa cidade de extremos horizontes, com seu campo visual sempre aberto”, diz o artista.
Sobre o desenvolvimento do projeto, Dirceu conta que surgiu quase que de uma brincadeira. “Meu trabalho tem um pouco de um jogo lúdico com o dispositivo fotográfico. Comecei a emendar vistas, em sequência, sobre o mesmo negativo para conseguir imagens panorâmicas”, explica Dirceu. A estratégia de uso da câmera, segundo ele, foi ficando um pouco mais complexa.
“Passei a girar filme e deslocar lateralmente a câmera ao mesmo tempo em que a imagem estava sendo capturada. Com isso, pude fazer extensas vista panorâmicas das cidades”, completa.
O trabalho do fotógrafo se debruça sobre a paisagem urbana diante da construção de outra paisagem. “Onde sombras, ruídos, arrastamentos, inscrições de tempo se sobressaem na imagem. São paisagens inventadas”, poetiza. Para ele, trata-se de imagens panorâmicas de um universo urbano que tem padrões e semelhanças, mas que guarda, em cada lugar, um pouco de sua própria identidade.
OBRA DO ACASO
A câmera pinhole é usada como um scanner, em um procedimento que não está interessado em uma certa “perfeição” da imagem mas, pelo contrário, se interessa pelo erro e pelo acaso. O que importa para o artista é essa imagem “precária” impregnada de muitas surpresas e ruídos revelados por um procedimento que é quase um brincar, um jogo de dados.
Entre as cidades, que foram contempladas com atividades do projeto está a terra natal do fotógrafo. “Passei por Belém em maio e tive oportunidade de fotografar alguns lugares. Entre eles, claro que revisitei o Ver-o-Peso”.
Sobre a relação que possui com a fotografia pinhole, Dirceu destaca que é mais uma ferramenta que potencializa a poética do trabalho que realiza. “Também me ajuda a discutir e pensar como nos relacionamos com as tecnologias emergentes. De como temos a tendência a ficar reféns dos dispositivos tecnológicos emergentes e de como eles exercem um certo controle sobre nossas vidas”. O fotógrafo pretende realizar uma exposição e incluir outro material, colhido na Europa, principalmente na Holanda, para onde viajou graças a uma bolsa de residência em arte que ganhou no Festival de Arte Contemporânea Sesc-Videobrasil, em 2011. “Sempre que viajo faço mais imagens. Agora devo começar a editar esse material para brevemente realizar uma nova exposição”, finaliza.
“Extremo Horizonte” é uma série de fotografias panorâmicas do espaço urbano, tomadas com câmeras artesanais pinhole. A câmera faz uma varredura do horizonte sob o controle da imprecisão e da intuição contidos nos movimentos das mãos do fotógrafo, que gira filme e move câmera, ao mesmo tempo, enquanto a imagem penetra pelo pequeno orifício para ir sensibilizando o filme no interior do dispositivo precário. Texturas, sombras e cores, surgem em uma imagem quase sem fim, até o limite da extensão do filme, conforme consta na descrição do projeto na página virtual: “uma cidade outra. Paisagem que não é mais paisagem como recorte, é somente horizonte, vasto horizonte (quase) sem fim”. Tecnologias se somam: novamente os conceitos high-tech e low-tech se ligam para a produção e invenção de um lugar outro.
(Diário do Pará)
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