Era finzinho de tarde quando dois garotos, no alto da meninice, brincavam de caçar calangos no solo de um terreno baldio. Era finzinho de tarde quando, ao invés de achar os bichos e outros insetos, os dois primos acharam o dedão de um pé que entregava a existência de um corpo inerte enterrado no chão de terra batida. A história verídica ocorrida nos idos anos 1980 no bairro do Jurunas talvez explique o porquê de um desses meninos ter encarado cenas de morte de perto com tanta naturalidade ao desenvolver a série fotográfica que capturou ao longo de um ano cenas de crimes em Belém, a mesma cidade que guardava calangos, escondia dedões e que hoje coleciona o título de uma das capitais mais violentas do país.
A série em questão é Corte Seco, vencedora do Prêmio Marc Ferrez de Fotografia 2012, e a história envolve o fotógrafo Alberto Bitar, um dos meninos protagonistas da crônica urbana, e que terá a memória publicada nas páginas do livro homônimo lançado hoje, a partir das 10h, na Sala Gratuliano Bibas, na Casa das Onze Janela, onde as imagens continuam em exposição até o dia 29 deste mês. O texto que integra o livro é assinado pelo escritor Orlando Carneiro que buscou na memória aquilo que o tempo se encarregou de levar. “Já tinha esquecido disso quando no final da produção da série surgiu na minha memória. Por isso, convidei meu tio, Orlando Carneiro, pra escrever a história que comporia o livro, pois na época foi quem chamou a polícia para relatar o caso”, explica o fotografo.
Um pouco diferente das cenas vividas cotidianamente na periferia de Belém, os meninos naquela época viram a violência ali, exposta diante os olhos inocentes. “Há 30 anos não era comum as crianças verem uma cena dessas. Lembro dos policias pedirem para nos levarem pra longe da cena, nossos pais tiraram a gente e talvez por isso o fato tenha ficado escondido na minha memória por tanto”, lembra o autor que detectou uma realidade bem diferente das cenas de crimes flagrados com a sua câmera durante o processo de composição do Corte Seco.
Sobre transformar a exposição em livro, Alberto acredita que esse é um processo natural durante o desenvolvimento da série. “Sempre que produzo um trabalho penso na possibilidade de transformá-lo num livro, ou num catálogo como muitos preferem se referir. É uma outra maneira de mostrar a série, que tem uma permanência maior e ainda serve de registro ou documentação do trabalho”, explica o autor que incluiu imagens inéditas da série exibida primeiramente ao público nas paredes da Sala Gratuliano Bibas.
PRESTIGIE
Lançamento do livro Corte Seco, hoje, a partir das 10h, na Sala Gratuliano Bibas, Museu das Onze Janelas. Preço da obra: R$ 20. Exposição Corte Seco continua até o dia 29 deste mês.
(Diário do Pará)
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