“Eu faço samba e amor até mais tarde. E tenho muito sono de manhã. Escuto a correria da cidade que arde e apressa o dia de amanhã. De madrugada a gente ‘inda’ se ama. E a fábrica começa a buzinar. O trânsito contorna a nossa cama, reclama. Do nosso eterno espreguiçar” – o trecho de Samba e Amor, canção de Chico Buarque de Holanda, foi apenas uma das referências usadas em ‘A vadiagem na obra de Chico Buarque de Holanda’, uma dissertação de mestrado defendida pela coordenadora de editoração do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da UFPA, Roseany Caxias Lima, e que chamou a atenção de fãs do artista em Belém.
No trabalho, a autora fala do vadio como um personagem, um romântico boêmio e que, ao contrário do ‘malandro’, chega a ser até mesmo um anti-herói, que há muito é representado na Música Popular Brasileira. Descrito e até reverenciado por artistas como Noel Rosa e Wilson Batista, ele tomava novos significados ao ser cantado pelo carioca Chico Buarque de Holanda no período de 1967 a 1985, não por coincidência, período em que o Brasil vivia a ditadura militar.
“Enquanto o malandro é aquele que utiliza o jeitinho brasileiro para se dar bem, o vadio faz do seu comportamento uma forma de resistência. E ele é um tema que sempre vai ser atual”, explica Roseany Lima. O estudo abordou o que foi produzido por Chico entre os anos de 1967 e 1985. Nesse universo composto de 110 músicas, ela selecionou nove: Com açúcar, com afeto (1967); Samba e amor (1970); Partido alto (1972); Vai trabalhar, vagabundo (1976); O malandro (1978); Hino de Duran (1978); Doze anos (1978); Homenagem ao malandro (1978) e A volta do malandro (1985).
No contraponto do que é abordado nelas, incluiu a canção Pedro Pedreiro (1966), onde o personagem é um trabalhador, e que portanto é visto como um ser passivo, um conformado com as regras impostas pela sociedade. Os dois personagens coexistem até hoje, afirma Roseany. “Qualquer pessoa que luta ou reivindica pode ser considerado como esse vadio de outrora, já que eles vão de encontro às regras, às instituições”, afirma Roseany Lima.
Vadiagem com açúcar, com afeto
Os fãs de Chico Buarque em Belém concordam com a visão apresentada pela autora do estudo e percebem que o vadio é personagem atual. Matheus Maneschy, 21, diz que para quem conhece toda a obra do cantor é fácil notar a presença desse personagem e o que ele representa. “Com a vadiagem, o Chico Buarque fala de ir contra aquilo que é esperado, uma ‘contra-cultura’. Eu percebo nas músicas principalmente essa coisa da vida boêmia e com bastante amor, muito contraditório com o período em que as músicas foram feitas”, declara.
O vadio, descrito por Matheus Maneschy, está presente, segundo Roseany Lima, nas canções Doze anos; Com açúcar, com afeto; Samba e amor; Homenagem ao malandro; e A volta do malandro. Nelas é feita uma representação do vadio que é aceito socialmente, o ‘vadio romântico’, aquele mesmo encontrado nas obras de Noel Rosa, e que é muito semelhante ao malandro. “E mesmo assim, ele se posiciona contra o sistema”, diz a autora.
Ainda de acordo com ela, apesar do título, é na música ‘Samba e Amor’ que a resistência do vadio à cultura do trabalho é mais visível. “Enquanto todos estão no caminho do trabalho, ele ainda está na cama com a mulher amada. A sua atitude é a de quem não deve satisfação a ninguém, e não se importa em seguir o processo civilizatório que fala da importância de trabalhar, uma norma típica da sociedade moderna”, explica.
Na opinião dos fãs, Roseany Lucena acertou em ver nas obras do músico Chico Buarque uma mensagem além do óbvio.
“As músicas dele são assim, é tudo nas entrelinhas. Você ouve achando que ele está falando de vadiagem, mas é além disso. Ele usa a música para fazer todo tipo de crítica”, afirma o fotógrafo Ney Marcondes.
E tais canções ainda podem fazer pensar. “Todas as músicas dele têm grande influência, a vadiagem que ela [Roseany] fala no estudo é apenas uma de muitas coisas abordadas e que vão continuar a influenciar a juventude”, afirma Nathália Dias, 23, fã do cantor.
Roseany Lima, que escolheu as músicas Chico Buarque como objeto de pesquisa por também ser fã, acredita ter conseguido captar em seu trabalho algo que sempre terá uma representação atual. “Os especialistas dizem que esse comportamento, de não aceitar regras, tende a ser tolhido pelo sistema e pela família. O vadio seria aquele que não se deixa ser levado. Acredito que todos esses movimentos, esses mascarados, os ‘Black Bloc’, podem ser tidos como o vadio dos dias de hoje”, analisa.
(Diário do Pará)
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