Em sua origem, o Halloween não tinha relação com bruxas. Era um festival do calendário celta da Irlanda – o festival de Samhain – que marcava o fim do verão. Ao longo dos séculos, foi ganhando novos significados e incluindo tradições como a famosa frase ‘gostosuras ou travessuras’. E não é difícil entender como uma festa que começou tão longe do Brasil ganhou tantos adeptos.
No país das fantasias de carnaval, de Matinta Perera e Mula sem cabeça, a imaginação corre solta e as festas são cada vez mais criativas e frequentadas. Um dos principais responsáveis pela disseminação da festividade são os cursos de língua inglesa. A necessidade de saber o idioma, considerado um dos mais importantes para a formação profissional, e a convivência com o mundo globalizado, acabou trazendo a cultura de seus países de origem na bagagem.
“O Halloween é uma das datas comemorativas mais fortes da cultura americana. Como a gente quer que o aluno tenha essa interação com os traços dessa outra cultura e não só aprenda a língua, nós sempre o utilizamos como uma ferramenta de aprendizado”, explica Suzana Vinhote, coordenadora pedagógica de uma escola de idiomas em Belém.
Os alunos dessas escolas parecem aprovar e entender o ponto de vista dos professores. “Nós temos um desejo de conhecer, e o Halloween só nos leva a querer conhecer ainda mais a cultura e o inglês”, diz Fábio Santos, 20 anos. O jovem estuda a língua há cinco anos e conta que sempre vai às festas promovidas em Belém. “É divertido não só pela festa em si, mas também por essa coisa da caracterização, de você algumas vezes até criar um personagem”, afirma Fábio.
E muitos jovens já estão com a fantasia pronta para usar hoje à noite. Nathaly Costa, 15 anos, vai à sua primeira festa e diz que fez questão de confeccionar um modelo. “Eu vou de bruxinha. Estou ansiosa, acho que é um evento que você se sente fazendo parte mesmo da cultura dos Estados Unidos”, diz.
Para os adultos, a oportunidade de usar fantasias e aproveitar uma festa na cidade com uma temática diferente, também é um atrativo. “A gente vai de ‘The Walking Dead’, é a única oportunidade depois que passa o carnaval”, comenta o engenheiro Tiago Silva, 27 anos. Ele conta que, com dois amigos, vai vestido de zumbi para uma festa hoje à noite. E os bares e casas de shows estão cada vez mais repletos de programação voltada para esse público mais maduro e com muita imaginação na cabeça.
Bruxas contra Sacis: um debate acalorado
A chegada dessa comemoração ao Brasil, no entanto, causou certa resistência por parte de pessoas que defendem a valorização do folclore nacional. Um projeto de lei instituindo o dia 31 de outubro como Dia do Saci Pererê, por exemplo, aguarda debate na câmara. A data faria um contraponto à festividade norte-americana, dando destaque para a cultura nacional.
“Até a data que já existia, o Dia do Folclore, tem tido menos destaque entre os jovens estudantes do que o Halloween. Acredito que é necessário manter aquilo que é nosso”, afirma a professora de ensino fundamental Ana Rosa Souza. As escolas de idiomas, contudo, defendem a inserção da festa estrangeira como parte da formação de cidadãos mais globalizados e, até mesmo, mais tolerantes.
“Dentro da nossa realidade, na qual as pessoas querem viajar, conhecer o mundo, novas culturas, não tem como você fugir disso”, afirma a pedagoga Suzana Vinholte. A convivência entre culturas também é possível, segundo ela. “Dentro da nossa escola, por exemplo, a gente decora para o Halloween usando monstros de todos os lugares do mundo, e já houve ano em que decoramos tudo voltado para os seres de lendas amazônicas”, defende.
Quem vai às festas também não vê problema em aproveitar uma comemoração estrangeira. “O Brasil é multicultural. E acho que o Hallooween tem coisas que são parecidas com o carnaval, que tem as fantasias; e tem muitas lendas daqui que podem se encaixar também”, concorda Fábio Santos. Disputas à parte, as noites de hoje e amanhã prometem muita diversão aos amantes do dia das bruxas.
(Diário do Pará)
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