Além do entretenimento, a produção cultural mantém as raízes, estimula o acréscimo de conhecimento e de relacionamento entre as pessoas. E quando falamos em cultura, não estamos falando apenas de música ou dança. “Através dela você estimula a perpetuação do conhecimento existente e a criação de novos. E é com o conhecimento que você cria um mundo melhor”, diz a coordenadora administrativa da Fundação Amazônica de Música (FAM), Izabel Boulhosa – uma entre muitas pessoas que fazem da cultura sua vida e a defendem como uma das peças fundamentais para a formação de um país melhor.
A dançarina Waldete Brito, diretora da Escola de Teatro e Dança da UFPA (ETDUFPA), em uma palavra, define a cultura como “essencial”. Acredita que, por meio dela, acontece o desenvolvimento do ser humano no meio em que ele vive. “Acho que merecemos ter no Brasil um projeto mais amplo de cultura. Os setores que trabalham com ela precisam ter mais sensibilidade para ver a quantidade de produtos culturais que suas cidades têm. Para ver o esforço que as pessoas, artistas, fazem para levar o que produzem até outras pessoas e manter vivas muitas formas de cultura local”, afirma.
Arte que floresce na dificuldade
Na literatura, nossos autores têm dificuldades em publicar e fazer seus livros entrarem nas escolas, mas a produção é intensa. O Grupo de Estudos Literários na Amazônia e Formação de Leitor (Gelafol), por exemplo, tem promovido estudos para produzir material didático a partir da literatura local e recomendá-lo para ser usado em salas de aula do ensino básico. “Conseguimos catalogar cerca de 300 obras de autores paraenses. Temos várias obras de qualidade voltadas para o público infanto-juvenil e não vemos isso ter o espaço e divulgação devida. Percebemos que há algo de errado”, afirma Nilo Souza, integrante do Gelafol.
Quem faz a cultura do país caminhar então, tem buscado seus próprios caminhos. Para Izabel Boulhosa, que trabalha trazendo artistas internacionais da música e ainda como gestora de uma escola que dá formação musical aos jovens de comunidades de baixa renda, fomentar a cultura para todos, e de forma gratuita, é mais do que gratificante. “É maravilhoso. Estou nesse trabalho faz cerca de sete anos. No início, tinham crianças de 7 a 12 anos e que hoje são adultos, trabalhando e crescendo na música. E você vê que aquilo realmente mudou suas vidas, que poderiam ter um futuro diferente, se não fosse o contato com a música”, afirma.
A fundação em que Izabel trabalha começou de maneira independente, hoje recebe apoio em parte de seus projetos, mas ainda sobrevive principalmente de doações e da iniciativa de artistas que abrem mão de cachês, que usam suas bolsas e patrocínio para vir a Belém trocar experiência e conhecimento atendendo convite da instituição. “Já existem inúmeras iniciativas individuais de gente que quer produzir cultura, mas acho que ainda existe aquela ideia de que o Estado tem que bancar. As pessoas ainda esperam muito e não se apercebem que nós mesmos somos o Estado, tanto para cobrar como para fazer”, declara Izabel.
A diretora da ETDUFPA, Waldete Brito, também acredita que a força de vontade de muitos artistas e a esperança da devida valorização faz com que cada um encontre seus meios. “Eu creio que ele (o artista) sempre encontra uma forma de colocar sua arte na rua, mas há situações em que o apoio é necessário para a garantia de que aquela forma de manifestação cultural será guardada. Os pássaros juninos, por exemplo, estão quase se acabando”, afirma. Para Waldete, a maioria dessas fontes de cultura popular está escondida, com poucas oportunidades.
“Como os mestres que detêm esse conhecimento estão conseguindo guardar sua cultura? Muitos deles estão escondidos, sem condições de levar seu trabalho adiante. Há uma tendência de certas coisas desaparecerem pela pura falta de políticas que pensem em guardar o que é nosso”, diz Waldete. Uma iniciativa que talvez também esteja faltando é a individual. “Aqui essa iniciativa ainda é muito distante do que se pratica em outros países, onde uma pessoa contribui, doa para museus e grupos artísticos, pessoas que decidem bancar um artista, porque acreditam na importância do trabalho dele e no seu talento”, afirma Izabel.
Quem convive e acompanha diariamente o crescimento cultural, diz que o brasileiro tem valorizado parcialmente a cultura. Temos um vínculo muito grande com a música e a dança, mas talvez ainda deixemos outras áreas esquecidas. “Museus e patrimônio histórico, por exemplo, fazem parte da cultura e ainda ficam muito a margem”, diz Izabel. Mas não é em tudo que pecamos. Na literatura tivemos um fortalecimento – pesquisas mostram aumento na venda de livros – e o cinema nacional tem fechado com grandes bilheterias.
(Diário do Pará)
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