Duas metrópoles distantes, uma na Amazônia e outra da Alemanha, Berlim e Belém são as cidades que servem de cenário para o romance “Berlinda – asas para o fim do mundo”, que marca a estreia do jornalista Ronald Junqueiro na literatura, que descobre novo universo do texto, depois de uma longa carreira no jornalismo impresso. O livro foi escrito há pouco mais de dois anos, logo depois de uma viagem à Alemanha, onde ele escreveu uma boa parte do romance, após ser contemplado com uma bolsa de criação literária da Fundação Nacional de Arte – Funarte, do Ministério da Cultura. O jornalista ficou entre outros 60 candidatos selecionados pelo programa e entre os cinco escolhidos na região Norte.
“A semente dessa aventura literária foi plantada há muitos anos atrás, quando conheci Berlim ainda separada pelo muro. Mas eu não pensava escrever um livro”, conta Ronald Junqueiro. Ele esteve a primeira vez na Alemanha participando de um encontro de jornalistas da América Latina, promovido pela InterNationes, uma instituição alemã que incentivava intercâmbios desse tipo. Berlim era a última cidade do roteiro apresentando no programa que incluía outras cinco. Além das visitas a veículos de comunicação e instituições governamentais e conhecer a vida cultural local, com programações fechadas, havia um espaço livre no programa, mas foi Berlim que atraiu os olhares de todos os jornalistas, “não só pelo pela história da antiga capital do Terceiro Reich, das tragédias provocadas pelo nazismo, pela figura de Adolf Hitler que orquestrou de lá Segunda Guerra Mundial, mas porque a cidade era uma ilha no leste europeu e como o país, também era dividida por um muro que, por sua vez, separava duas potências mundiais representadas pelos soviéticos e norte-americanos e tudo o que veio depois de 1945”, diz Ronald Junqueiro. A década de 1980 marcou fortemente o autor, primeiro com a visita, em 1983, e depois com a queda do muro, em 1989.
Há referências à Grande Guerra no livro, mas sem aprofundamento histórico, apenas memórias de personagens que se encontram no enredo. O autor explica que fez uma abordagem mais distante dos horrores da guerra, mesmo que passeie por cenários históricos. A narrativa usa como recorte do romance existência e derrubada do muro de Berlim. “Eu voltei a Berlim outras vezes, uma delas logo depois da queda do muro, como aluno do Goethe Institut, em 1991. E todas às vezes eu me surpreendia com as mudanças que encontrava, como por exemplo, na Copa de 2006, quando me deparei com Potsdam, um bairro que antes era um grande terreno baldio e que virou o cenário de uma arquitetura arrojada, futurista, o avesso das casas seculares, reconstruídas sobre as ruínas”.
O autor conta que escrever o romance foi quase um trabalho de escavação nas memórias. “Eu precisei fazer um plano da narrativa, pois quando comecei a escrever o livro, me deparei com muito material que estava guardado em gavetas e pastas como cartas, fotografias, postais, roteiros de viagem e cadernos com várias anotações, não só na temporada vivida em Berlim, mas em outras cidades por onde passei, como Hamburgo e Sttutgart. E quando decidi focar Berlim, muita coisa ficou fora da narrativa”, diz Ronald Junqueiro, que conta porque Berlim foi escolhida como cenário. Nos cadernos que guardou e programações culturais percebeu que a capital alemã, de passado sombrio, era uma cidade muito colorida, festiva, cheia de movimentos o que a tornava uma cidade linda. Foi então que percebeu que unindo as duas palavras, aparecia o vocábulo berlinda e pronto: já tinha um título. A surpresa maior foi quando descobriu que a berlinda, mesmo no formato com que nós a conhecemos, que é a berlinda de Nossa Senhora de Nazaré, tinha sua origem em Berlim. Ela foi concebida por um artesão genovês a pedido do rei Frederico Guilherme I de Brandemburgo, o Eleitor de Brandemburgo, que queria uma carruagem especial para passear pela cidade. “A berlinda acabou sendo o elo para narrativa que eu pensava, unido Berlim e Belém. O livro não tem histórias beatíficas, na verdade conta dramas e constrói uma crônica de vidas que transitam por essas duas metrópoles, uma na Amazônia e outra na Alemanha, mas que se encontram, no plano da ficção, a forma que encontrei para representar o real”, diz Ronald Junqueiro.
O autor se lembra da primeira vez que fez a Berlim, quando o muro ainda existia e atravessou a fronteira num ônibus de dois andares para o lado oriental. “Foi uma viagem à tarde, para turistas, mas me marcou muito, pois passei por lugares que pareciam recônditas páginas de romances e de cinema. O lado oriental me parecia sombrio, cinza, muito por influência desse sentimento. Um episódio ficou muito forte na minha lembrança, quando passávamos pela Unter den Liden, uma avenida que eu associava à Avenida Presidente Vargas, em Belém, por ser longa e arborizada com tílias. Vi noivos saindo de uma igreja, sob um banho de arroz e, em determinado momento, a noiva, acho que se sentindo furiosa, mandou uma banana para os passageiros do ônibus. Na mesma hora eu pensei que Berlim Oriental era tratada como uma coisa estranha. Acabei colocando essa história no livro, pois tinha a impressão que os ocidentais olhavam o lado oriental como se fosse o zoológico”, diz o jornalista que confessa ter caído de amor à primeira vista por Berlim. E foi em Berlim que descobriu como Belém era próxima desta cidade, por causa de personagens que andavam entre cá e lá.
“Eu espero que o livro tenha uma boa recepção e que seja entendido mais do que um simples relato ou um diário de bordo. Na ficção faço o recorte de uma realidade, dentro de um lapso de tempo, mas que não retrata a riqueza da vida em sua plenitude. De qualquer forma, escrevi o que era possível. E mais teria a contar, só que precisei contar com o tempo e número de páginas que me dispus a escrever”, diz Ronald que em janeiro apresentará o livro em Berlim, a convite do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim.
O autor criou um blog contando todo o processo criativo livro. O site pode ser acessado através do link dirariodaberlinda.blogspot.com.br. A página fica no ar, na internet, até maio do próximo ano.
O lançamento do romance, nesta segunda-feira (11) é um dos eventos programados para o romance, editado pela Paka-Tatu. Em Berlim, além do livro, o autor lança o CD com a trilha sonora que traz músicas feitas em parceria com Pedrinho Cavalléro, Firmo Cardoso, Albery Albuquerque e Vital Lima. As músicas serão apresentadas em Belém no próximo ano.
(Diário do Pará)
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