Não é apenas uma transmissão de sons, o rádio fez e ainda faz parte da vida das pessoas, levando informação e entretenimento – fazendo história. Novas tecnologias também surgem ao longo desta linha do tempo trazendo novidades que eram inimagináveis para seu inventor, o italiano Guglielmo Marconi (1874 - 1937), que realizou em 1895 a primeira transmissão de sinais sonoros.
No Brasil, o rádio continua tendo grande importância para diversos fins desde a sua primeira transmissão, em 7 de setembro de 1922. Na ocasião, o então presidente Epitácio Pessoa fez um discurso transmitido pelo equipamento, instalado no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro. Era um evento de comemoração do centenário da Independência do Brasil, um entre tantos momentos relevantes da história em que o rádio esteve presente.
Nesse início, a programação estava ligada à cultura, a música e as artes, e poucas pessoas possuíam os aparelhos em casa. Hoje em dia, a programação abrange de tudo um pouco e podem-se ouvir rádios via Web, TV por assinatura ou em celulares, é possível acompanhar as ondas do rádio de qualquer lugar. “O rádio é a comunicação mais imediata, ágil e capaz de chegar até a população. Seja na internet, celular ou pelos meios tradicionais”, afirma a jornalista Elissandra Batista, da Rádio Web UFPA.
Muitas estações tradicionais de rádio chegam a transmitir a mesma programação pelo meio convencional e também pela Internet. “Quando você faz rádio pela internet, qualquer pessoa de qualquer parte do mundo pode ouvi-la. Fazer rádio é muito gratificante”, diz Elissandra. A Web rádio, assim como a tradicional, gera áudio em tempo real com programação ao vivo ou gravada. Mas as gravações em fita e pendrive são substituídas por uma nova possibilidade: o Podcast, quando o arquivo de áudio é baixado diretamente da rádio para o computador.
As novas tecnologias também exigem menos de quem tem o sonho de montar sua própria rádio. “Você precisa de menos recursos tecnológicos para montar uma rádio web e é possível trabalhar com uma equipe pequena, ou mesmo sozinho”, afirma Elissandra. E a importância dessa simplicidade em todas as formas de fazer rádio torna-se importante em determinadas situações. Em Bragança, por exemplo, até hoje existem rádios educadoras, utilizadas até mesmo na alfabetização de jovens e adultos.
“Minha mãe era uma dessas pessoas que ajudou a alfabetizar moradores do interior de Bragança. Naquele tempo, uns 60 anos atrás, as pessoas saiam para trabalhar na roça, na pesca, e voltavam por volta das seis da tarde. Tinha um rádio em um espaço aberto, em cada comunidade, e as pessoas sentavam em volta para aprender pelo rádio. Nós ainda temos pela cidade, até hoje, gente que chegou a se formar, tem doutorado, e que começou a estudar assim”, conta Carlos Fernando Costa, morador da cidade.
Evolução chega na Rádio AM
A última novidade a ser acrescentada na história do rádio foi a autorização para que rádios AM passem a ter transmissão por frequência modulada – FM. O decreto que permite a mudança foi assinado na semana passada pela presidente Dilma Rousseff. Em seu programa ‘Café com a Presidenta’, veiculado ontem pela Rádio Nacional, ela afirmou que só deverão continuar como emissoras AM as rádios de longo alcance, chegando a vários municípios.
Essa seria uma novidade com o objetivo de atrair uma nova geração de ouvintes, que poderá acompanhar a programação dessas rádios por meio de celulares e tablets. O que indica também uma busca por sobrevivência das pequenas rádios, que vem sofrendo grande interferência em suas frequências por causa do aumento na quantidade de aparelhos transmissores de sinais, como os celulares.
Em sua conta no Twitter, semana passada, a presidente deu sua declaração sobre a importância de se manter o rádio como um forte veículo de comunicação. “Sou fã de rádio. Cresci ouvindo radionovelas e por muito tempo testemunhei como o rádio foi o eixo da integração da cultura e da identidade nacional”, escreveu. (Continua na página 2)
O rádio se reinventa
Anos 1930 - Criou-se o programa ‘A Voz do Brasil’ pelo departamento de propaganda e difusão cultural do Governo. Aparecem os programas de auditório e os primeiros radiojornais.
Anos 1940 - A Rádio Nacional se tornou líder de audiência graças às radionovelas, o Repórter Esso e programas de auditório, que conquistaram o público. A primeira radionovela a ser transmitida foi ‘Em busca da felicidade’ e durou três anos.
Anos 1950 – Surgem equipamentos menores e mais leves. É a fase do rádio portátil.
Anos 1960 – Criam-se as primeira FMs.
Anos 1970 – O rádio passa a agregar novos dispositivos, como toca-discos e toca-fitas, permitindo a gravação caseira em fitas.
Anos 1980 - Surgem redes de rádios AM/FM via Satélite, utilização de CDS e a proliferação das rádios piratas
Anos 1990 - Diferencial nos métodos de gerenciamento das emissoras, programação via satélite digital, Internet, rádio a cabo.
2013 – É assinado o decreto que autoriza a migração das rádios AM para a faixa FM, pela presidente Dilma Rousseff , no dia 7 de novembro, Dia do Radialista.
Radialistas mostram amor ao ofício
Cada radialista tem seu jeito de falar e interagir, mas algo em que todos são iguais é no amor que sentem pelo rádio. São reconhecidos facilmente pela voz e constroem uma identidade ao longo dos anos em que estão a fazer parte da vida de quem os ouve. Muitas vezes são conhecidos apenas por aquele nome que ouvimos na rádio, e que algumas vezes nem são seus nomes reais. Suas histórias se confundem com a do rádio.
Um dos primeiros a fazer carreira foi Heron Rodrigues com o noticiário ‘Repórter Esso’. Transmitido pela Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, em 1941. A programação era basicamente a leitura do jornal impresso do dia. Um dos slogans mais famosos do jornal foi ‘O primeiro a dar as últimas’. Quando foi anunciada a última transmissão do programa, em 31 de dezembro de 1968, o locutor foi às lágrimas ao se despedir do público. E depois dele ainda vieram muitos outros, a se apaixonar pela profissão.
Geraldo Magela Gomes Falcão, 38 anos, é simplesmente Magela. Ele já foi garçom, trabalhou em clínica de estética, e começou sua carreira profissional no teatro – ganhou o rádio com sua irreverência – a mesma que tinha nos palcos. “Uma pessoa me viu atuando e me convidou, achou que eu levava jeito para apresentar. Eu vim pro rádio achando que não tinha uma voz boa para isso, mas acabei aprendendo que o importante é você ter um diferencial, conseguir chegar até o ouvinte, agradá-lo”, diz.
Ele conta que viveu muitos momentos especiais como radialista e que mesmo dentro daquele estúdio tão isolado consegue sentir que viaja até o lugar onde o ouvinte está – esse, para ele, é o principal encanto da profissão. “Entre todas as mídias, o rádio continua sendo o meio mais imediato de contato. E esse contato é constante. Eu sei que tem pessoas me ouvindo que estão em hospitais internadas, em casa com a família ou sozinhas, no ônibus indo para o trabalho, e cada vez que estou aqui consigo visualizar onde quero ir”, afirma.
Tem que ser artista com o microfone e mostrar versatilidade
Versáteis, irreverentes, críticos – cada radialista tem um pouco de artista – são mestres naquilo que fazem. Quando experimentam a profissão pela primeira vez, largá-la é quase impossível. Uma prova dessa verdade é Georgeonor Paiva de Araújo, ou apenas Geo Araújo, 60 anos, radialista da Rádio Clube do Pará (690 AM). Quando questionado, diz “já esqueci” para o tempo que atua no rádio, mas acaba puxando pela memória: “tem uns 40 anos”.
Atualmente, Geo Araújo também é presidente da Associação dos Cronistas e Locutores Esportivos do Pará (ACLEP) e diz que um dos maiores prazeres em ser radialista são os momentos únicos que a profissão proporciona. “Eu estive na primeira visita de um Papa ao Brasil, na posse de vários presidentes, nas Copas do Mundo da França, Alemanha, África. Sou completamente realizado no rádio”, declara. E diz que há uma grande utopia para quem vê a profissão sem conhecê-la de verdade. “Acha que vem para o rádio, a TV ou o jornal para ganhar rios de dinheiro e não é assim. A recompensa, quando você é correto e um bom profissional, é o reconhecimento”, afirma.
Se existe alguém que conhece bem essa realidade são os profissionais das rádios comunitárias. “Essa galera tem que correr atrás de apoio cultural, e muitas vezes tiram do próprio bolso quando não conseguem arrumar nenhuma forma de patrocínio. Quem vai para as comunitárias tem que fazer por amor ao rádio”, diz Victor Samuel Moreira de Moraes, 34 anos, mais conhecido como DJ Vítor Pedra, da Rádio Cabano FM de Ananindeua. Ele não é propriamente radialista, afirma, mas sempre acaba indo “para esses lados”.
O tempo da Cabano coincide com o tempo de Vítor na profissão. Criada em 2007, ela conseguiu sua outorga para funcionamento apenas em 2012. “Depois de muita luta”, afirma o radialista. Propostas de pessoas querendo entrar para a rádio são muitas, e ele diz que aqueles que a fazem nunca esqueceram as razões que os impulsionaram a começar. “O prazer de fazer rádio é você conhecer as pessoas, conhecer a realidade delas, ajudar a comunidade a melhorar de vida, ajudar a atender as necessidades da população”, afirma.
(Diário do Pará)
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