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Grafite se torna comum em Belém

O grafite, a arte que começou pintando muros e hoje está no asfalto, nos carros e até em salões de arte, sempre foi marginalizada e ainda é confundida com a pichação. Ainda não é possível comparar a produção de grafite em Belém com a de cidades como São P

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O grafite, a arte que começou pintando muros e hoje está no asfalto, nos carros e até em salões de arte, sempre foi marginalizada e ainda é confundida com a pichação. Ainda não é possível comparar a produção de grafite em Belém com a de cidades como São Paulo, mas na capital paraense, aos poucos, esta expressão artística tornou-se muito mais presente na paisagem urbana. Principalmente após algumas iniciativas por parte de empresas e escolas voltadas para a arte de rua.

Daniel Zuil que é artista plástico, professor universitário e sócio-diretor do Gotazkaen Estúdio, conversou com o Você sobre essa arte com cara de urbano. Com vários grafites espalhados pela cidade de Belém e alguns fora, como na cidade do Rio de Janeiro, ele começou seus trabalhos com essa arte em 2007. Para Daniel, o grafite, assim como outras formas de expressão de identidade é também uma ferramenta de luta.

“Desde os pichos da II Guerra, que foram brilhantemente satirizados no filme Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick, à arte de abrir letras, que vemos todos os dias nos barcos do Ver-o-Peso e que constroem parte da identidade visual belenense. Com o grafite, esse mesmo fenômeno se repete, desde o ‘Feliz Natal’ ao famoso ‘Parei’, que já lemos milhões de vezes, repetidos em incontáveis paredes de Belém, como uma sátira ao modo ‘padrão’ de existir e um louvor ao estilo ‘vida loka’”, declara.

O artista plástico cita ainda o trabalho do grafiteiro Dedeh Farias, que apresenta símbolos cotidianos através de traços e texturas que os tornam novos significantes. “A realidade, como ela nos é apresentada, é uma luta. As pessoas vivem em constantes batalhas, em várias diferentes frentes. A rua é também um campo de batalhas, onde manifestamos através da pintura nossos pensamentos artísticos, políticos e sociais, nessa batalha por espaços da construção da identidade”, afirma.
Encontrar o prazer sem se preocupar com rótulos

No mundo da grafitagem, assim como em outras vertentes artísticas como a fotografia, o cinema e a literatura, os pares se encontram. As amizades estão presentes e a troca de experiências também. E a partir desses encontros surgem os ‘Crews de Grafite’. São coletivos como Cosp Tinta, Esc, Resistência, Rataria entre outros. “As pessoas se juntam por afinidades, e existem divergências conceituais e artísticas também, o que é normal. Cada grupo tem seus ideais”, explica Daniel.

A convivência entre grafiteiros e pichadores é também tranquila, e mesmo as interferências podem ser vistas como um acréscimo. “Interferências é o que devemos buscar, é o ideal da arte na rua, que existam interferências urbanas. Pichador, grafiteiro, muralista, pintor, artista plástico... a mim, não importa como vão me chamar. Vi o Arnaldo Antunes em um programa de TV outro dia desses, e ele disse que as pessoas que trabalham no campo da imaginação, não devem se preocupar como são denominadas, deixe isso para os rotuladores, realmente importa é que essas vozes, continuem ecoando nas ruas através da pintura”, declara o artista.

Formas artísticas diferem da pichação

Ainda é tênue a linha que separa o grafite da pichação. Na verdade, a forma mais artística nasceu da mais bruta e criminalizada. A pichação é o ato de escrever ou rabiscar sobre muros, edificações e monumentos com frases de insulto, assinaturas e até declarações de amor. Pode ainda ser usada como forma de demarcação de territórios entre grupos rivais. Considerada transgressiva, a pichação degrada a paisagem. Uma de suas marcas, e até o que muitas vezes atrai quem a prática, é o fato de ser realizada, em sua maioria, em locais proibidos e à noite. Mas foi dessa forma que surgiu o grafite.

O que eram apenas rabiscos e palavras soltas de insulto ou protesto, tornaram-se algo mais elaborado e de maior valor estético. As mochilas passaram a carregar sprays de diversas cores e a mensagem passou a ter papel importante, já não é mais degradação do espaço público e sim a valorização dele.

O grafite foi introduzido no Brasil no final da década de 1970, em São Paulo, e já tem características próprias, diferentes do norte-americano, onde a grafitagem surgiu. Em Belém, todas as avenidas de grande circulação como a Almirante Barroso e José Malcher tem, hoje, um exemplar dessa forma de manifestação.


O QUE DIZ A LEI?

“Não constitui crime a prática de grafite realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística, desde que consentida pelo proprietário e, quando couber, pelo locatário ou arrendatário do bem privado e, no caso de bem público, com a autorização do órgão competente e a observância das posturas municipais e das normas editadas pelos órgãos governamentais responsáveis pela preservação e conservação do patrimônio histórico e artístico nacional”. (Lei nº 12.408, de 25 de maio de 2011)

QUER GRAFITAR?

Em Belém, para quem quer aprender, uma das oportunidades é o workshop “Grafitti Gotazkaen”. Nele, é possível desenvolver as técnicas do grafite com uma oficina ministrada por Daniel Silva, que repassa a história e as técnicas mais usadas em um dia inteiro de atividades, que vão da teoria à prática. As inscrições estarão abertas até 6 de dezembro e custam R$ 120. A galeria fica na Rua Ó de Almeida, 755 (Entre TV. Piedade e Av. Assis de Vasconcelos). Informações: (91) 3347-6632.

(Diário do Pará)

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