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Moradores lamentam o descaso com a Aldeia Cabana

“Está sendo usado pra nada, tudo o que era feito de programação cultural foi tirado. Antes tinha a Bienal de Música, feiras de artesanato, acabaram com tudo”, conta Regina Silva, 54 anos, moradora do bairro da Pedreira, em Belém. Ela é comerciante e vizin

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“Está sendo usado pra nada, tudo o que era feito de programação cultural foi tirado. Antes tinha a Bienal de Música, feiras de artesanato, acabaram com tudo”, conta Regina Silva, 54 anos, moradora do bairro da Pedreira, em Belém. Ela é comerciante e vizinha da Aldeia Cabana de Cultura Amazônica Mestre Davi Miguel, ou apenas Aldeia Cabana, um “elefante branco” bem em frente à casa dela.

Pensado como um novo espaço cultural, construído com R$ 4,9 milhões de recursos da Prefeitura de Belém, hoje o espaço sobrevive com algumas atividades, mas de pouca expressão comparado ao que era previsto. “Até para o meu comércio era melhor quando era usado. Eu acho um erro eles levarem os eventos para outros espaços e deixarem aqui sem nada. Até a falta de iluminação é um problema, por causa de assalto. Fica tudo escuro, abandonado durante a noite”, completa Regina.

Atualmente, qualquer atividade a ser realizada no local precisa de autorização da Secretaria Municipal de Esporte, Juventude e Lazer (Sejel), que funciona na própria Aldeia Cabana e se tornou administradora do espaço. “É solicitado por oficio, nós avaliamos o pedido e então cedemos o espaço para eventos culturais, tanto lá fora [sambódromo] como as salas e o auditório”, explica Deivison Alves, assessor do secretário da Sejel, Thalles Belo. Ainda de acordo com ele, o espaço ainda é bastante usado para palestras, lançamentos de livros e outros eventos solicitados pela comunidade e associações.

O problema está no abandono estrutural e na transferência dos grandes eventos para “a nova janela da cidade” – o Portal da Amazônia. A Sejel é apenas administradora, a realização de eventos fica por conta da Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel), que segundo Deivison, não tem mais direcionado os grandes eventos para o local, priorizando o Portal da Amazônia. “É uma forma de valorização do novo ponto turístico da cidade. O que ainda permanece aqui é apenas o desfile de carnaval mesmo, que afinal é para o que foi criado o espaço”, diz o assessor.

Outros eventos como a festa junina, o desfile do dia 7 de setembro e grandes festivais culturais já não marcam presença no grande “elefante branco”. A nova administração da Sejel afirma querer, pelo menos, uma reforma do local. O acesso dos cadeirantes já com o piso deteriorado. Corrimão e paredes estão corroídos. Do lado de fora, muitas partes da estrutura, está pichada. Há até paredes quebradas com acesso a espaços onde, os moradores denunciam, ocorre de assalto à prostituição.

“É um lugar que já não serve pra nada. Tem gente que fica dormindo aí dentro. É um lugar que podia estar sendo usado pra alguma coisa, desde que o responsável se responsabilizasse em usar para coisas culturais mesmo. Você olha, eles usam só uma parte do prédio, tem muita sala de aula abandonada. É prostituição à noite, assalto, e os guardas municipais ficam lá do outro lado. É uma grande obra abandonada, é Brasil”, declara José Maria Quintela, 70 anos, mais um dos moradores que vê a Aldeia Cabana ruir sem trazer o incentivo à cultura para o qual foi pensada.

O deputado estadual Edmilson Rodrigues, responsável pela arquitetura da obra, diz que só pelo fato de ela ser uma homenagem a Davi Miguel, sambista belenense, já deveria ser mais respeitada. “Ali funcionava uma biblioteca, uma brinquedoteca, atendimento de fisioterapia e várias especialidades médicas. O Carnaval era apenas um detalhe”, diz. A opinião do ex-prefeito é que falta apenas “vontade” para reverter a situação. “A atual gestão poderia dar um sinal de grandeza e voltar a investir na Aldeia. Afinal, aquilo foi um gasto público, a obra não é de partido, é do município”, e insiste, “o mais importante é que volte a usar o espaço para investir em programas sociais, o que ajudaria a diminuir a criminalidade que tem se instalado no bairro da Pedreira e por toda a Belém. Há muitas crianças e idosos abandonados ali”.

O pouco que sobrevive no espaço

Um dos poucos projetos que ainda sobrevivem na Aldeia Cabana é a Escola de Dança Municipal. A professora de dança Marlene Martins conta que a escola surgiu para dar oportunidade de acesso ao balé para pessoas de baixa renda. “Esse trabalho é feito há 22 anos, se hoje já é difícil para uma criança ter acesso ao balé – muito elitizado em Belém – imagine naquela época”. As aulas são realizadas em uma sala do prédio anexo ao sambódromo. Uma das poucas salas bem conservadas.

Mas ainda assim, com um acesso difícil para cadeirantes, que hoje são novos alunos da escola. As aulas para cadeirantes iniciaram este ano, com a professora Elenize Pimentel. “A gente está lutando para divulgar, poder receber mais alunos, conseguir as cadeiras, que são especiais para a dança”, conta ela. Algumas apresentações dos alunos são feitas no espaço do sambódromo, isso quando há um evento maior a ser realizado, o que tem se tornado escasso.

Ainda assim, os frutos desse trabalho têm sido muitos e deviam servir para provar a importância de valorizar o espaço oferecido pela Aldeia Cabana, ao invés de deixa-la no abandono. “Muitas alunas começaram aqui pequenas, com oito anos, e hoje são formadas em Dança pela UFPA, ou Educação Física, são professoras. Esse é um trabalho muito importante e que proporciona uma vivência através da dança”, acrescenta Marlene Martins.

(Diário do Pará)

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