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Marujada completa 215 anos de resistência cultural

Na tarde desta quinta-feira (26), a tradicional manifestação bicentenária mais uma vez se renovou, com centenas de marujos e marujas caminhando pelas ruas estreitas do município. O cortejo da Marujada de São Benedito, que começa e termina na igreja do

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Na tarde desta quinta-feira (26), a tradicional manifestação bicentenária mais uma vez se renovou, com centenas de marujos e marujas caminhando pelas ruas estreitas do município. O cortejo da Marujada de São Benedito, que começa e termina na igreja do padroeiro da cidade de Bragança, no nordeste paraense, percorre todo o centro histórico acompanhado de uma multidão de devotos do santo preto.

Tudo começou no ano de 1798, quando alguns escravos começaram a dançar em frente aos casarões da época, em agradecimentos aos seus senhores que permitiram a fundação de uma irmandade para louvar São Benedito. De lá para cá, o gesto virou tradição e permanece vivo na identidade, na história e no cotidiano dos moradores de Bragança até os dias de hoje.

O ritual de dança, ritmo, e devoção a São Benedito ocorre há 215 anos. Ao longo de 50 anos como marujo e quinze como capitão - uma espécie de chefe dos homens no ritual - história é que não falta na vida de seu Teodoro Ribeiro. As mãos trêmulas, a voz cansada e o olhar vago nem de longe lembram a imagem do excelente “pé de valsa”, como ele mesmo se denominava. Aos 100 anos, o corpo do aposentado carrega as doenças trazidas pelo tempo e que desde 2006 o afastaram dos bailados.

Ele faz questão de lembrar que durante toda sua trajetória à frente da Marujada, nunca permitiu que marujos ou marujas dançassem embriagados. “Eu perdi a conta de quantas vezes tive que buscar meus colegas em botecos perto da igreja de São Benedito. Às vezes, eu meu mesmo tomava umas doses de cachaça antes de dançar para melhorar a garganta. Mas, nunca dancei e nem deixei os outros dançarem alterados pelo álcool”, relembra.

As lembranças de seu Teodoro retratam o cenário de lazer e devoção presentes lado a lado na Marujada. A manifestação corresponde a uma oportunidade para se divertir e ao mesmo tempo pagar uma promessa. Mesmo que ocorra um caráter lúdico e de espontaneidade durante a apresentação das danças, os membros da marujada não perdem de vista a seriedade e a reverência dos ritos.

Ao longo da procissão, a luxuosidade presente na roupa colorida das mulheres chama a atenção de quem acompanha. A saia rodada, a blusa branca toda cheia de rendas, o chapéu coberto de plumagem e enfeitado por longas fitas coloridas na parte de trás mostram quem são as protagonistas da festa. Aos marujos cabe apenas a função de meros acompanhantes de dança. A roupa bem mais simples deles estampa essa diferença. Camisa de manga comprida branca ou azul, dependendo do dia da apresentação, calça branca, uma fita amarrada ao braço esquerdo e um chapéu de palha revestido por tecido branco. “Tudo como manda o figurino”, afirma dona Araci Corrêa, 65 anos, capitoa da marujada. Principal cargo hierárquico da manifestação.

Segundo o historiador Dário Rodrigues, apesar da presença das classes mais abastadas de Bragança na manifestação, as quais muitas vezes não têm nenhum vínculo direto com a festa, a maioria dos marujos e membros da Irmandade é formada por pessoas da classe baixa. São ambulantes, benzedeiras, mingauzeiras, aposentados, analfabetos. “Gente que passa o ano todo como coadjuvante na cidade e que durante a Festividade assume o papel de protagonista”, ressalta o historiador.

A Festa da Marujada segue ainda por toda a noite de hoje, com apresentação de danças, louvor e devoção a São Benedito no Museu da Marujada, no centro histórico da cidade.

(DOL com informações da Agência Pará)

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