Depois de um 2013 em que a classe artística de Belém, influenciada pelas diversas manifestações ocorridas por todo o país, saiu também às ruas para reivindicar maior atenção do poder público, esperar um 2014 diferente parece ser o caminho óbvio. Mas há uma sensação de desconfiança por parte de quem faz arte na capital, seja na música, no teatro, nas artes plásticas, literatura ou cinema.
“Na música acredito que teremos uma estagnada. Não acho que vá ser a mesma coisa que foi em 2013”, diz o produtor e radialista Lucas Padilha, referindo-se ao fato de que o ano que finda viu uma parcela da música paraense se tornar a bola da vez no cenário midiático nacional.
“Musicalmente 2014 deverá ser o ano de Felipe Cordeiro”, profetiza o jornalista Vladimir Cunha, também produtor, diretor e roteirista. “No trabalho mais recente ele consegue conciliar pretensões de vanguarda paulistana com a pegada pop paraense”, diz.
No terreno do audiovisual, Cunha é mais pessimista. “O modelo atual das leis de incentivo está falido. Quanta gente não terminou o ano com uma carta da Lei Semear nas mãos sem conseguir captar verba alguma, porque quem determina se uma empresa vai investir é o responsável pelo departamento de marketing, que geralmente não entende de música, de cinema etc”.
Responsável por inserir a capital paraense no mundo dos festivais de música, o produtor Marcelo Damaso cobra o anunciado Fundo de Cultura, prometido pelo Governo do Estado e que até agora não saiu do papel. “Não dá para ficar só com as leis de incentivo”, diz. O Se Rasgum, festival criado por Damaso, já se garantiu para 2014 por contar com incentivo de fora do Estado e não depender tanto mais do apoio interno.
O músico Pio Lobato diz que há muita gente em condições de fazer um bom trabalho, mas que não está conseguindo. Pio coloca o dedo na ferida ao dizer que o projeto Terruá Pará se tornou uma espécie de inquisição. “Quem entra está no limbo, mas quem está de fora vive o inferno, vai pra fogueira. Não pode ser apenas esse o foco”.
Independência
Um dos protagonistas dos protestos contra a política estadual de cultura, Edyr Augusto planeja um 2014 intenso. “Depois das lutas de 2013, da plena exposição na mídia, suportando agora, de maneira mais evidente toda a antipatia das autoridades da área cultural, que odeiam quem faz cultura, creio que teremos um 2014 mais ativo ainda. Na área de teatro, estamos iniciando o projeto ‘Só Dói Quando Eu Rio’, sequência de espetáculos feitos na marra, sem nenhum apoio ou patrocínio, que inicia com ‘As Gêmeas Sedentas de Sexo’, com Luciana e Juliana Porto e Paulo Marat”, diz ele.
Nos planos do dramaturgo há ainda um monólogo com a atriz Mona Lisa, ainda sem título, mas já em leituras de mesa. “Provavelmente teremos uma nova montagem de ‘Nunca houve uma mulher como Gilda’, agora como monólogo, outro título, com Sandra Perlin dirigida por Sonia Alão. Em meados de maio, novamente ‘Sem dizer adeus’, com Zê Charone e Cláudio Barradas. Temos ainda o Projeto ‘Pauta Mínima’, aprovado pela Funarte, em sua segunda edição, onde o Grupo Cuíra seleciona grupos locais para apresentação em seu teatro, com ensaios, metade da renda e cachê para produção. Uma coisa é certa: voltaremos aos palcos e às ruas. Queremos um novo porvir e haveremos de tê-lo”, discursa.
Edyr Augusto comemora o fato de ter os livros publicados por ele, traduzidos em vários países. A França deve ser o destino de ‘Moscow’. Quem também comemora na literatura é Marcelo Damaso, com o primeiro romance, o pop ‘Iracundo’ previsto para ser lançado pelo IAP em abril.
“O grande desafio na atualidade é poder fazer novos leitores”, diz a escritora Josette Lassance. O caminho, segundo ela, é o investimento maior na educação. “Temos que mexer com isso”, diz.
O fato é que a classe artística quer que os olhares do poder público sejam mais abrangentes. “Historicamente a produção independente de Belém sempre correu na frente e o poder público sempre buscou colar nesses artistas. O que eu desejo é que haja mais atenção aos artistas e que estes tenham fôlego para continuar produzindo”, diz o artista plástico Alexandre Sequeira. “O Pará tem poucas coisas com que se orgulhar. A arte é uma delas e isso se deve mais aos artistas que ao poder público”, afirma.
O fotógrafo Michel Pinho lembra que é necessário se consolidar uma ‘cultura de museus’, por exemplo. “A verba pública deve servir para financiar exposições de grande porte. Não temos isso. As últimas grandes exposições que tivemos foram a de Picasso e de Rodin, há muitos anos. A verba pública não pode ser apenas direcionada a um segmento”, defende.
“Precisamos conscientizar o poder público para que crianças, jovens e pessoas da terceira idade tenham a possibilidade de criar. Precisamos que os teatros estejam mais ativos e que as rádios locais estejam mais abertas ao potencial de nossa música. Estamos em evidência no Brasil, mas a gente precisa acontecer no local onde nascemos”, diz.
Retomada
O ano de 2014 pode ser, no entanto, o de retomada de um cinema paraense genuíno. Na opinião do critico de cinema Marco Antônio Moreira, quem pode fazer essa ponte é a cineasta Jorane Castro, que prepara aquele que pode ser o primeiro longa de ficção paraense em cerca de quatro décadas. “Esse é o fato mais importante e que pode abrir caminhos”, acredita Moreira.
Segundo ele, é necessário que haja editais que possibilitem produções. Cita como exemplo, Pernambuco, onde há talvez o mais vigoroso polo de cinema brasileiro atual. “Começou com editais pequenos, que permitiu a produção de curtas. Dez anos depois, o governo do estado de lá tem editais de mais de R$ 10 milhões. Esse é o caminho”.
A produtora e diretora de documentários Ângela Gomes vai além. Diz que é preciso os criadores locais atentarem aos editais nacionais e começarem a tentar mais. “Os editais não estão sendo aproveitados, não há projetos suficientes e os produtores locais tem de acordar para essa realidade”, diz ela.
Com edital ou sem edital, incentivo ou não, o coletivo 100Grana pretende continuar com o sucesso do projeto Cine Liso. “Nós passamos filmes clássicos da sessão da tarde lá no Libero Luxardo, uma vez por mês, com sessões super lotadas. O projeto vai continuar ano que vem. Robocop será o primeiro da lista”, diz Diego Andrade, um dos integrantes do coletivo. “E o que é melhor, com dublagem original”. Os nerds aguardam ansiosos.
(Diário do Pará)
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