Várias escolas de samba têm anunciado o início de seus arrastões culturais pelas ruas de Belém. A iniciativa é para chamar a população para participar do Carnaval, conhecer os samba-enredos, arrecadar fundos, fortalecer a cultura. No entanto, todas as agremiações que atuam no carnaval belenense – Bole-Bole, Grande Família, Rancho, Quem São Eles e tantas outras - vêm passando pelo mesmo problema: falta de apoio.
Uma das escolas que mais sofre, até mesmo com o que seus dirigentes chamam de “perseguição”, é a Embaixada de Samba do Império Pedreirense. A agremiação tem 62 anos de existência e tem passado por grandes dificuldades para manter suas tradições. Com uma sede nova ainda em construção, e precisando de apoio, ela está cada vez mais preocupada com a falta deste.
“É complicado fazer carnaval em Belém. O incentivo é muito pouco e as despesas muito altas”, declara Carlos Alberto Pinto, o “Carlinhos”, presidente da Império. Ainda de acordo com ele, a escola tentou começar seus arrastões culturais já no primeiro final de semana do ano - como fizeram a Quem São Eles e o Rancho Não Posso Me Amofiná-, mas não conseguiu por falta de apoio para a segurança do evento, por isso teve que começar apenas no domingo passado, dia 5.
Escolas de samba querem resgatar folia
O arrastão da Império Pedreirense reuniu mais de 2 mil pessoas e teve um custo de aproximadamente R$ 2.500. “A tendência é aumentar o público a cada final de semana, e os órgãos que podiam nos dar apoio - Semob (antiga CTBel), a Polícia Militar e demais órgãos públicos - não estão atentando para isso. Mandamos ofício e não somos respondidos, ou negam apoio dizendo que não é possível”, este último caso teria ocorrido no primeiro final de semana com a PM, relata o presidente da escola, Carlos Alberto Pinto.
O presidente da Associação Carnavalesca do Bole Bole, Paulo Alcântara, também comenta das dificuldades com a falta, além de apoio, patrocínio. “Só um carro som custa de R$ 800 a R$ 1.000. Para quem não tem nada fica difícil, por isso demoramos a começar nossos arrastões”. A escola poderá começar suas atividades apenas a partir do próximo domingo, um atraso de duas semanas. “No Carnaval de Belém tudo é sempre com muita dificuldade. Sempre que acionamos algum órgão público para pedir apoio dão desculpas de falta de contingente, entre outras coisas, para não comparecer”, reforça.
Quem está acostumado a participar da folia também reclama. “As pessoas gostam de participar, a gente tenta resgatar o que já foi o Carnaval de Belém. Minha família toda participa”, declara Joaquim Palhano. A matriarca de sua família é Maria Ribeiro Palhano, “cadeirante, mas que acompanhou o Carnaval a vida toda e ainda vai e brinca todos os anos. É em nome da família paraense que as escolas lutam para que o Carnaval não acabe”, completa Joaquim.
Um dos órgãos que as escolas dizem enfrentar dificuldade é o Ministério Público do Estado, que alegaria problemas de poluição sonora provocado pelos ensaios das escolas e pelos arrastões culturais. No entanto, as agremiações dizem que é impossível sobreviver sem as duas atividades.
“Para eles [Ministério Público], o problema principal é a bateria. Mas Carnaval sem bateria de samba não existe. Eles dizem que devemos ensaiar em uma quadra apropriada, mas não temos dinheiro para isso, e não temos nenhuma forma de patrocínio, estamos fazendo tudo com dinheiro do nosso bolso. A gente tem que ensaiar no meio da rua, através dos arrastões. E do jeito que o Carnaval está no Pará, ninguém quer investir”, afirma Carlinhos.
Os arrastões seriam uma exigência da própria comunidade que mora próximo às escolas e veem nelas um patrimônio em comum. “Isso é cultura de massa. O que nós queríamos é que eles [Ministério Público] viessem conversar com a gente, porque eles só sabem barrar, nós queremos encontrar uma solução e fazer tudo certo, estar legal, pedir as autorizações e contar com o apoio para oferecer esse eventos com segurança”, declara Carlinhos.
O pedreirense Joaquim Palhano reforça que quem participa dos eventos das escolas são famílias, e que elas têm direito a receber dos órgãos públicos o atendimento adequado de segurança e apoio à cultura. “Ha vários moradores que gostariam de se manifestar, a escola de samba é uma tradição de 62 anos, aquilo é da comunidade, do povo da Pedreira. Quem vai contra, muitas vezes nem conhece a escola, nunca esteve lá”, afirma.
Outro lado
Os órgãos citados pelos carnavalescos foram procurados para pronunciarem-se sobre as afirmações de falta de apoio. A Semob confirmou que existe um processo para que seja autorizado o apoio aos arrastões culturais e que o pedido é feito por ofício. No entanto, informa que ainda não recebeu nenhuma solicitação de escolas de samba de Belém para dar apoio nos eventos culturais de rua deste ano. O único pedido recebido até o momento foi para que dessem apoio a um evento em Mosqueiro, e que foi atendido, segundo a assessoria de comunicação do órgão.
A Polícia Militar informou que não é determinante para que eventos sejam ou não realizados. Os eventos seguem um calendário montado junto à prefeitura e a PM apenas integra o corpo de policiamento junto com a Polícia Civil. Ainda de acordo com a assessoria de comunicação da PM, há reuniões que são realizadas antes de serem agendadas as atividades e é preciso que as escolas que vão participar do Carnaval participem destas, para que sejam incluídas na programação feita pela prefeitura.
Quanto ao Ministério Público do Estado, que estaria barrando ensaios e a participação das baterias nos eventos de rua, até o fechamento desta edição a assessoria não se manifestou.
Arrastões promovem alegria nas ruas da cidade
Os arrastões culturais fazem cortejo pelas ruas do bairro ao qual cada escola de samba está ligada. Ao longo do percurso, a escola promove uma forma de entretenimento e também promove sua identidade, atrai novos foliões, e muitas vezes ganha pequenos patrocínios. Eles são uma forma de fortalecer o Carnaval de Belém, como declarou José Marcos Araújo, do Quem São Eles: “As escolas deviam realizar mais arrastões para, quem sabe, a gente voltar a ter o destaque que nós tínhamos, o título de terceiro maior Carnaval do Brasil, que nós infelizmente perdemos”.
Programe-se
Os arrastões culturais das escolas de samba de Belém devem continuar todos os domingos até o Carnaval. Todos são considerados eventos públicos e gratuitos. Confira alguns deles:
- Rancho Não Posso Me Amofiná
Concentração: Sede da escola (Travessa Honório José dos Santos, 758, esquina com Rua dos Timbiras - Jurunas), a partir das 16h.
Samba-enredo: “Da paixão secular a um ícone bicolor, um marco a celebrar em uníssono uma história a perpetuar”. Uma comemoração dos 100 anos do Paysandu.
- Império de Samba Quem São Eles
Concentração: Praça Eneida de Moraes (Esquina das avenidas Pedro Miranda e Alcindo Cacela), a partir das 15h.
Saída prevista para as 16h, em direção à sede da Escola (Avenida Almirante Wandenkolk, 680 – Umarizal).
Samba-enredo: “Sou Pará, Força de Bamba: A riqueza dessa terra é a grandeza dessa gente”. Uma homenagem ao estado do Pará e sua gente.
- Embaixada de Samba do Império Pedreirense
Concentração: Sede da escola (Travessa Mauriti, 1135 - entre Pedro Miranda e Antônio Everdosa - Pedreira), a partir das 12h.
Samba-enredo: “Alegria Alegria”. Uma homenagem ao circo.
- Associação Carnavalesca do Bole-Bole
Concentração: Sede da escola (Passagem Pedreirinha, 143 - Guamá), a partir das 13h, saída às 17h.
Samba-enredo: “A Trilogia - O canto que vem da Amazônia”. Uma homenagem ao trio musical formado por Lucinha Bastos, Mahrco Monteiro e Nilson Chaves.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar