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Músicas com letras maliciosas são alvo de polêmica

De É o Tchan a Mamonas Assassinas. O duplo sentido nas músicas não vem de hoje, mas recentemente tem sido mais questionado e, em alguns casos, alvo até de processo judicial. O exemplo mais recente é o da banda “Abrakadabra”, de Vitória da Conquista (BA).

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De É o Tchan a Mamonas Assassinas. O duplo sentido nas músicas não vem de hoje, mas recentemente tem sido mais questionado e, em alguns casos, alvo até de processo judicial. O exemplo mais recente é o da banda “Abrakadabra”, de Vitória da Conquista (BA). O clip do grupo, “Tigrão Gostoso”, é acusado de incitar o estupro e recebe críticas fervorosas na internet.

O cenário inicial mostra uma mulher em uma mata sendo perseguida por um homem. Assustada, ela acorda e percebe que tudo não passa de um pesadelo. O alívio não dura muito tempo. Alguém bate na porta. Seis homens forçam a entrada. “Abre a porta logo que eu quero entrar. Não adianta se esconder, o tigrão vai te pegar. (…) É na hora do espanto que o bicho vai pegar. Toma, toma, então toma”.

“Mas eu tô com medo. Você vai me machucar?”, pergunta a jovem. Um dos integrantes da banda responde: “Sou o seu tigrão gostoso. Só precisa relaxar. É na hora do espanto que o bicho vai pegar. Toma, toma, então toma”. A Marcha Mundial das Mulheres elaborou nota de repúdio à música da banda baiana, que considera o clip uma “forma de enaltecer a posição do estuprador, colocado como a figura do ‘tigrão gostoso’, de modo a associar a agressividade à masculinidade”.

A apologia ao estupro rendeu comentários indignados de internautas na página da “Abrakadabra”. “Vocês ainda irão sofrer bastante, não só as consequências da péssima música e clip, mas principalmente, por continuar defendendo-a. Vocês são a vergonha da vergonha e as consequências já estão aparecendo”, comentou diversas vezes um internauta. “Vamos divulgar o lixo de vocês para que ninguém nunca mais assista um show de vocês”, disse outro.

Para a assistente social e executiva nacional do Movimento Mulheres em Luta, Gizelle Freitas, a música legitima uma ideia errônea a preconceituosa, além de incitar o estupro – crime que superou os casos de homicídios dolosos em 2012, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “É uma concepção machista que coloca a mulher na posição de subjugada e contribui para que a sociedade veja a mulher assim, como a frágil, a que apanha. Reforça a ideia de que a mulher nunca vai sair dessa posição que a sociedade patriarcal nos colocou”. O DIÁRIO tentou entrevista com a banda “Abrakadabra”, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

Adoutoranda em Antropologia Social pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Maria Regina Ribeiro Reis, acredita que a mobilização de mulheres é fundamental para coibir a disseminação de pensamentos machistas e de apologia à violência sexual. “As mulheres precisaram se unir em movimento para fazer valer seus direitos e exigir respeito”. O alerta, segundo ela, é ainda mais pertinente quando a mídia denuncia crimes sexuais e a apologia vem em forma de entretenimento.

Casos polêmicos são recorrentes

A polêmica da dubiedade musical já envolveu a dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano, que tem uma legião de fãs do sexo feminino. “Tapa na cara eu sei que vai doer, mas não dói mais do que perder você”, diz a letra de “Tapa na Cara”. “O ‘tapa’ que estamos falando não é o tapa físico, é aquela coisa de sai fora. Isso já é tipo um tapa de pelica. É isso que a gente quer mostrar na música”, argumentou o cantor Luciano, na época do lançamento do hit.

A banalização da violência contra a mulher e a depredação da imagem e do papel social das mulheres foram o embasamento para a ação movida pelo Ministério Público Federal e pela Themis Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero, em 2003, contra a banda “Furacão 2000”, responsável pelo funk “Um tapinha não dói”. A ação também envolvia o hit sertanejo “Tapa na cara”.

Dez anos depois, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região entendeu que apesar de ser de “mau gosto”, o funk não incitava a violência e absolveu a banda, condenada em primeira instância a pagar indenização por danos morais no valor de R$ 500 mil para o Fundo Federal de Defesa dos Direitos. O juiz entendeu que não há prova psicológica, sociológica, antropológica, política ou técnica de que letras de “mau gosto” possam gerar sentimentos negativos em relação às mulheres.

Quem também responde na Justiça por conta de uma canção é o cantor Alexandre Pires. No clip da música “Kong”, que tem a participação de Neymar, Mr. Catra e David Brasil, homens vestidos de macaco e mulheres de biquíni renderam ao artista a acusação de racismo. O Ministério Público de Minas Gerais abriu investigação para apurar acusações de racismo e sexismo no videoclipe. A Ouvidoria Nacional de Igualdade Racial recebeu denúncias sobre o clip, que usa clichês e estereótipos equivocados que retratam a mulher como símbolo sexual.

“Sou negro com orgulho da minha cor, autor e intérprete de música romântica, sem que isso nunca tenha sido confundido com sexismo. Devemos tratar toda e qualquer brincadeira com macacos e gorilas como uma referência a ser apagada da nossa memória?”, defendeu o cantor em entrevista à revista Veja.

(Diário do Pará)

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