Harry Foster-Smith – um inglês pai e avô – sentou e escreveu a lápis, por volta da década de 1960, um pouco de suas experiências trabalhando no exterior. Entre os tantos lugares onde esteve como engenheiro elétrico, viveu em Belém, entre 1919 e 1934. Essa história ele não só escreveu como contou diretamente ao filho, Tony Foster-Smiths, de 74 anos, que hoje visita a Cidade das Mangueiras com uma verdadeira relíquia em mãos – fotos de Belém, Mosqueiro e Icoaraci, tiradas quando o pai dele aqui instalava os bondinhos e iniciava uma amizade com o então governador Magalhães Barata.
A preciosidade das fotos não necessita explicação, casarios antigos que hoje se transformaram em empresas ou ruínas. Fotos que são um registro das festas realizadas por Barata em hotéis, encontros entre oficiais e altas patentes da Marinha inglesa e brasileira. O chalé onde hoje deveria funcionar muito bem a biblioteca de Icoaraci, na foto está em seu auge. A Vila, em Mosqueiro, com um trapiche em madeira ainda recém-construído. Tony, e também seu filho Jonathan, de 41 anos, sabem a preciosidade que herdaram do pai e avô.
“Minha mãe, aos 101 anos – pouco antes de morrer, dois anos atrás -, encontrou estas fotos e nos entregou, contou também um pouco sobre quando eles viviam aqui em Belém. Meu pai também contava histórias e eu sempre quis conhecer o lugar onde ele viveu por 15 anos”, diz Tony, que nasceu na Colômbia, após a passagem do pai pelo Brasil. Sobre o que encontrou aqui desde sua chegada, ele diz se sentir “extasiado por causa do clima” e que entende agora o motivo do pai ter gostado tanto de morar aqui.
Entre a nostalgia e a decepção
O primeiro lugar que Tony Foster-Smiths, o filho Jonathan, e a amiga que os acompanha, Beryl Krowles, foram visitar foi a Igreja Anglicana da cidade, localizada na Avenida Serzedelo Corrêa, no bairro de Batista Campos. Segundo Tony, ela foi construída aos poucos pelos marinheiros ingleses que vinham para Belém. Em setembro do ano passado foi comemorado o centenário da Igreja Anglicana na Amazônia. E ele aproveita para relatar um detalhe pitoresco de parte dessa história:
“O padre não fazia nada, só colecionava insetos”, ri ao contar. Além disso, ele diz que pela empolgação do padre com outros assuntos, Harry Smith, também membro da igreja, era quem acabava liderando suas atividades. “O padre chegou a formar uma grande coleção de insetos aqui da Amazônia e levou para o Museu de História Natural da Inglaterra, hoje um acervo muito bem cuidado e valorizado”, revela.
Além do padre colecionador, outras amizades de Harry Smith chamam atenção e rendem outras tantas histórias, como a de Magalhães Barata – um dos maiores líderes políticos do Pará, conhecido pelo seu governo nitidamente populista. O primeiro governo foi entre os anos de 1930 e 1934, justamente quando o pai de Tony viveu em Belém. Em uma carta, na qual se despedia de Harry, em 1934, Barata escreveu que o amigo dispunha de sua “mais autoestima e distinta consideração”.
Naquela época, o engenheiro elétrico e sua esposa viviam no bairro de Batista Campos. As fotos mostram um casario antigo e Tony a procurou, no lugar encontrou apenas um muro, ali construiu-se um prédio residencial. Ao ver que muitas das construções que apareciam tão belas nas fotos foram derrubadas ou estão em ruínas, Tony Smith faz suas considerações: “Entendi que o progresso destrói, e me senti triste por isso”. A beleza, ele diz, estava nas faixadas decoradas das casas, nos tetos e janelas altas, e gostaria de ter encontrado isso intacto.
Histórias da época dos bondinhos
O pai de Tony era sócio-fundador e gerente da Companhia de Eletricidade Paraense Ltda., a Parah Elétric, na década de 1930. A empresa fornecia energia, mas também investiu na construção dos bondes elétricos. A malha desenvolvida pela empresa era de 120 km interligando várias áreas de Belém, como Reduto, Batista Campos, Jurunas, Pedreira e a Santa Casa. A sede da empresa era onde, hoje, funciona a Companhia de Desenvolvimento e Administração da Área Metropolitana de Belém (Codem), uma instituição pública localizada na Avenida Nazaré com a Travessa Quintino Bocaiuva.
O período de investimento nos bondinhos também é contado por Tony com bom humor. “Uma vez, no Círio, um promesseiro trouxe uma pedra enorme de Portugal e seguiu a procissão inteira com ela na cabeça. Ao fim da procissão, ele a deixou perto da estação de onde saíam os bondinhos”, e ri ao revelar a ideia do pai após o abandono do objeto de promessa: “Meu pai passou a usar a pedra no dia seguinte para segurar os bondinhos”. Mas nem só de pedras Harry Smith se apropriava, após a passagem da procissão, as velas usadas pelos romeiros e abandonadas, “ele pegava e levava pra gente usar em casa”, conta Tony.
Parte do acervo vai ficar na cidade
Até mesmo o movimento da Cabanagem esteve presente nas memórias de Harry Smith, descrito em seu manuscrito como uma “rebelião”. Em certa ocasião, ele contou ao filho que estava ao lado de um fotógrafo no momento em que rebeldes da Cabanagem apontavam as armas para este, próximo à estação dos bondinhos. “Ele contou que ficou morrendo de medo nesse dia”.
E Tony também conta outra ocasião, quando “o exército veio todo para Belém e carregaram um bonde com munição e armas, eles disseram que iam pagar uma taxa para o meu pai pelo transporte”. Na ocasião, Harry nem quis conversar muito, assustado com a situação, liberou o bondinho e se trancou na estação.
Tony, o filho e a amiga estiveram visitando a Codem e realizaram a doação de parte dos arquivos e fotos que trouxeram, o material irá integrar o acervo de obras raras do Centro de Documentação e Informação da Codem – um verdadeiro tesouro da nossa memória.
(Diário do Pará)
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