O Festival Rec-Beat chega a sua 19ª edição este ano e convida, mais uma vez, um representante paraense – Manoel Cordeiro e os Desumanos. A participação, que ocorrerá na noite da próxima segunda-feira, dia 3, mostra o quanto o Pará tem em sua musicalidade um enorme potencial para estar em todos os palcos, para o mais diversificado dos públicos. A verdade é que se a música é “a arte de expressar sentimentos da alma através do som”, a alma festiva do paraense só podia encantar.
A atual sonoridade da música do paraense começou a ser moldada lá pela década de 80, quando as músicas eram uma mistura entre cúmbia e outros ritmos caribenhos. Mas talvez nosso sucesso nos palcos do mundo venha mesmo é de muito antes. Segundo Manoel Cordeiro, “as influências que o Brasil inteiro teve – indígena, africana, europeia – nós tivemos, mas éramos afastados das grandes metrópoles, estávamos isolados, e a gente aprendeu a fazer tudo de um jeito próprio. A gente cheira diferente, toca diferente, faz comida deferente, dança diferente”, diz.
A presença paraense em festivais também é prestigiada pela personalidade de seus artistas, temos um jeito reconhecível de tocar e estar no palco. “Quando a gente escreve uma música, faz um solo, mas cada vez que a gente toca, sempre faz um adorno (uma ‘gaiatisse’), a gente tem uma espontaneidade em tudo que faz. Até nossa comida é toda ‘invocada’, ‘cheia de onda’”, afirma Manoel Cordeiro aos risos.
NOVA GERAÇÃO
A globalização permitiu que todos conhecessem a música de todos, e assim formou-se a nova geração da música paraense – incluindo o tecnobrega, que nada mais é que a música eletrônica, a mesma tocada na Europa, mas com o nosso jeito, nossas letras, nossa forma de fazer música. Com a popularização disso, pessoas com mais fundamento musical começam a experimentar, a antiga geração se envolve, melhora letras, melodias, arranjos.
Os Desumanos foi criado “meio sem querer”, diz Manoel Cordeiro. “Fui gravar o disco do Felipe [Cordeiro], com o baterista Stephane (um francês com um sentimento de suingue latino), o Kassin, e o Miranda, que fez a coordenação. Ficou tão legal cada um tocando do seu jeito que a gente não quis mais largar. Os dois mais jovens, Felipe e Kassin, começaram a dizer ‘compõe coisa nova pra gente’, e resultou num som tão legal da modernidade deles com a minha sonoridade mais antiga, ribeirinha, que acabamos continuando. Formamos a banda pelo prazer de tocar juntos e juntando influências diferentes”, e isso é cara da nova geração.
O diretor do Rec-Beat, Antônio Gutierrez (Gutie), declara que há mais de 10 anos leva regularmente artistas paraenses para o festival, porque sempre há algo novo. “Já trouxe Pinduca, La Pupunã, Cravo Carbono, Gaby Amarantos. Acho que o Pará e Pernambuco produzem da mesma forma, com diversidade e originalidade. Nos últimos anos consegui incluir o Pará sem repetir, sempre com algo realmente novo, diferente. O Pará é de uma riqueza sonora e tão próximo do que buscamos aqui, que acredito surgir disso a nossa empatia”.
A cada participação de nossos artistas em festivais como o Rec-Beat atesta-se a competência do músico da Amazônia. Vamos supor que a ciência dissesse: vamos criar um modelo de música proposto como ‘top’ da musica do século 21. Para ser topo tem que ter requinte e técnica Europeus; misturar com o suingue do negro; e ser interpretado por um ser sábio, como o índio, capaz de percepção da natureza. “Não precisaria inventar, ela foi inventada por nós”, afirma Manoel. “Agora só estamos aprimorando. A gente se da bem porque tem um jeito próprio, comtempla técnicas, mas não perde de vista o sentimento”.
Um passeio pelo mundo da música
O Rec-Beat é composto por quatro dias de programação, iniciando hoje (1º) e encerrando na próxima terça-feira (4), ele mistura a produção atual da música brasileira com o mundo. A curadoria é do produtor Antônio Gutierrez (Gutie) que, ao longo de todo o ano de 2013, viajou por sete diferentes países em buscas de atrações para o Festival e ainda procurou pelos destaques da música Brasil a fora, para que eles pudessem realizar um belo diálogo através da linguagem universal da música.
A viagem feita por Gutie rendeu muito boas sonoridades, diferentes e marcantes, uma mistura dentro de um festival que já nasceu com essa premissa. Entre as sonoridades latinas, o destaque é holandês – a trompetista Maite Hontelé, saiu da Holanda para se radicar na Colômbia, na cidade de Medelim, onde passou a dividir palco com grandes nomes, como o Buena Vista Social Club e Juan Carlos Coronel, tudo por conta de sua paixão pela música latino americana. Ela se apresenta na segunda-feira, dia 3, à meia-noite, logo após o paraense Manoel Cordeiro.
A Espanha veio na bagagem de Gutie representada por Guadalupe Plata – um trio da província de Jaén –, formado por Pedro de Dios, Carlos Jimena e Paco Luiz. A apresentação mostra a criatividade e talento jovem para criar novas sonoridades, misturando uma atitude punk ao blues norte-americano. Assim como os andarilhos do Skip&Die com seu afrobeat, cantado em quatro idiomas diferentes, de composições que nasceram na estrada.
Indo da Alemanha ao nosso vizinho Uruguai, e passando pelos Estados Unidos, o festival arrebatou mais três atrações de peso: o DAAU, um quarteto belga que faz música instrumental e experimental, numa formação de clarinete, baixo acústico, cello e acordeon; o grupo uruguaio Max Capote com sua combinação de música eletrônica e rock retrô; e por último, Mud Morganfield, com sua poderosa voz ao ritmo do blues, herança do pai, o rei do blues de Chicago, Muddy Waters.
Shows serão transmitidos na internet
O palco não será a única oportunidade das atrações Mundo Livre S/A e Bruno Souto se apresentam no Rec-Beat. “Durante o Festival Rec-Beat eles serão destaque no Deezer, site de streaming de música presente em mais de 160 países e com 26 milhões de usuários”, conta Antônio Gutierrez.
A banda Mundo Livre S/A, grande representante da música pernambucana, aproveita o momento para comemorar os 20 anos de lançamento do disco “Samba Esquena Noise” e tocar, na sequência, todas as faixas do álbum. Já o cantor e compositor pernambucano Bruno Souto, da banda Volver, fará com sua apresentação, o lançamento em Recife de seu trabalho solo, “Estado de Nuvem”, destaque em quase todas as listas de melhores discos do ano de 2013.
RETORNOS
Não é de hoje que o Rec-Beat convida a cena musical do Pará a estar presente em suas edições. O músico Felipe Cordeiro é um dos que já chegou a apresentar-se no festival e agora volta com o pai em nova formação. O fato é que mesmo renovando-se todos os anos, sempre tem gente que volta – como a banda Bixiga 70, que foi atração do festival em 2012 e este ano acompanha o compositor e pianista João Donato, reconhecido por fazer uma das primeiras fusões entre o Jazz, a música latina e a afro-cubana.
A tradicional programação eletrônica também estará presente e renovada, com um DJ diferente a cada noite do Festival, tocando na abertura e nos intervalos entre as bandas. Hoje quem toca é o britânico Carl Jader, militante da new wave tropical no Reino Unido. Amanhã, dia 2, é a vez do mexicano Tropicaza, com sua coleção de raridades da música soul, gravada no México na década de 60. Também são atrações o “Original DJ Copy” Felipe Machado e o DJ Renato Damata, ambos pernambucanos.
SAIBA MAIS
Festival Rec-Beat 2014 – 19ª Edição – com participação de Manoel Cordeiro e Os Desumanos
Onde: Cais da Alfândega - Recife (PE). Quanto: Evento gratuito. Informações: www.recbeat.com / (81) 3231-3422.
PROGRAMAÇÃO
FESTIVAL REC-BEAT 2014
SÁBADO (01/03)
19h30 - DJ Cal Jader (Inglaterra)
21h - Juvenil Silva (PE)
22h - DAAU (Bélgica)
23h10 - Bruno Souto (PE)
00h30 - Mud Morganfield (EUA)
DOMINGO (02/03)
19h30 - DJ Tropicaza (México)
20h - Jonathan Doll (CE)
21h – Aninha Martins (PE)
22h - Guadalupe Plata (Espanha)
23h10 - Arrigo Barnabé (SP)
00h30 - Mundo Livre S/A (PE)
SEGUNDA (03/03)
19h30 - DJ Felipe Machado (PE)
20h - Projeto Ccoma (RS)
21h – Lulina (PE)
22h - Max Capote (Uruguai)
23h10 - Manoel Cordeiro e os Desumanos (PA)
00h30 - Maite Hontelé (Colômbia)
TERÇA (04/03)
19h30 - DJ Renato Damata
20h - Boogarins (GO)
21h - Graxa (PE)
22h - Skip&Die (Holanda / África do Sul)
23h10 - João Donato (RJ/SP)
00h30 - Emicida (SP)
(Diário do Pará)
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