Gargalhadas ressoam na floresta e chamam atenção... Assim, meio por acaso, aconteceu o primeiro contato com os dois últimos indivíduos de uma etnia considerada extinta há mais de 20 anos – os Piripkura. A notícia extraordinária se espalhou rapidamente e quando foi publicada na imprensa, despertou o interesse da Companhia Teatro Balagan para a criação de um espetáculo inspirado exatamente na recusa dos índios em estabelecer qualquer contato com os brancos.
Entre a publicação da notícia, em 16 de setembro de 2008, e a estreia da obra, em 4 de outubro de 2012, aconteceu um grande processo criativo, envolvendo atores, diretora, dramaturgo, preparadora corporal, cenógrafo, antropólogos e outros estudiosos de culturas ameríndias. O resultado foi ‘Recusa’ – espetáculo que se apresenta em Altamira hoje e amanhã; e em Belém, nos dias 25 e 26 de abril.
“O espetáculo é nossa veia poética, de resistência artística, e desloca nossas perspectivas sobre a ideia de extinção, finitude, história, civilização, identidade, alteridade, animalidade e humanidade”, declara a diretora Maria Thaís. ‘Recusa’ é narrado e cantado pelos dois sobreviventes Piripkura; dois heróis ameríndios, Pud e Pudleré, criadores dos seres; um fazendeiro que matou um índio e o mesmo índio que o matou; por Macunaíma e seu irmão, e outros tantos.
O espetáculo ‘’Recusa’ chega a Altamira, onde diversos povos indígenas lutam contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, para apresentações nesta sexta e sábado. Na próxima semana, dias 25 e 26 de abril, será apresentado em Belém, produzido pelo ‘Espaço Oficina Assim’, no Teatro Cláudio Barradas.
Além da apresentação teatral, a Companhia Balagan promove, no dia 25, a atividade formativa ‘Diário de Campo de Recusa’, onde integrantes da equipe trazem elementos da pesquisa e criação do espetáculo, como textos de referência, imagens fotográficas e vídeos da pesquisa de campo realizada em Rondônia para o público, produtores culturais e artistas paraenses.
TRÊS ANOS E MEIO
A primeira fase do trabalho teve início em março de 2009, reunindo atores, dramaturgo, diretora, preparadora corporal e cenógrafo, tecendo diálogos com colaboradores convidados – antropólogos e estudiosos da cultura ameríndia para investigar formas de aproximação artística desse universo. O contato com povos indígenas também colaborou na construção do premiado espetáculo.
Com o olhar em diversas fontes de pesquisa, descobriu-se que para os ameríndios o mundo sempre existiu – não houve um começo – somente as coisas e os seres não o habitavam. Por outro lado, o mundo já acabou diversas vezes, configurando um ciclo de construção e destruição constante. “Será que estes dois sobreviventes, ao invés de estarem à beira do fim, não passam pelo mundo, única e exclusivamente, pra criar algo?”, é o questionamento feito pelo grupo.
E em meio aos questionamentos, a concepção de um verdadeiro espetáculo. A cenografia e figurino foram pensados por Márcio Medina. Os figurinos foram construídos de acordo com a cultura ameríndia: “Eles contêm elementos que multiplicam um único sujeito em muitos. Todos os seres são humanos, dizem os mitos. O que acontece é que a ‘pele’ que cada um veste é que é de onça, gente, cadeira, chinelo, vento, livro”.
A pesquisa sonora, dirigida pela etno-musicista Marlui Miranda, tem como material, entre outras fontes, os cantos de diversos povos indígenas, recriados pela pesquisadora. Cantos em outros idiomas, como o latim e o português também compõem o material de criação deste espetáculo vencedor de grandes premiações como: Prêmio Shell de Teatro 2012, Prêmio Associação Paulista dos Críticos de Arte 2012, e Prêmio da Festa Internacional de Teatro de Angra 2013.
(Diário do Pará)
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