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Prêmio Diário aponta necessidade de panorama local

Mesmo se tratando de um edital de competição nacional, a fotografia do Pará, assim como os pesquisadores locais, artistas e professores, se encontram bem representados nos cinco anos de existência do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. “O Diário Co

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Mesmo se tratando de um edital de competição nacional, a fotografia do Pará, assim como os pesquisadores locais, artistas e professores, se encontram bem representados nos cinco anos de existência do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. “O Diário Contemporâneo é um projeto concebido e realizado inteiramente no Pará e que torna o estado um centro do debate sobre fotografia contemporânea. Não somos só periferia, queremos discutir de igual pra igual. É por isso que o projeto fomenta a produção brasileira, reflete sobre a produção local e abre um grande espaço para os nossos fotógrafos com trajetória. Esse espaço funciona em várias camadas e momentos” afirma Mariano Klautau Filho, curador do projeto.

Nesta 5ª edição não seria diferente. Entre as três categorias existentes, uma delas é destinada exclusivamente a fotógrafos paraenses e/ou residentes atuantes no Pará por pelo menos três anos. O chamado ‘Prêmio Diário do Pará’ abrange todas as poéticas e propostas conceituais e, este ano foi para as mãos de Alberto Bitar, que com o olhar intenso de fotojornalista e a vivência constante da redação no jornal DIÁRIO DO PARÁ, apresenta a realidade das ruas com questionamentos muito próprios.

‘Bank Blocks’ é um trabalho que faz referência ao termo Black Bloc, tática de protesto de rua de ação direta que começou a ser utilizada na Alemanha na década de 1980, e visa atacar símbolos capitalistas como forma de reivindicar atenção. No Brasil, tomaram força durante os protestos de 2013, quando manifestantes foram às ruas em várias cidades do país em protesto, em sua maioria, contra o aumento na passagem do transporte coletivo homologado pelas prefeituras.

“Nos bancos, situados nesses lugares, encontrei algo diferente ao que estava acostumado nas paisagens urbanas que conhecia. [...] A presença desse novo elemento não significa apenas que ali haviam acontecido embates e protestos anteriores. Aquilo não era simplesmente um remendo do resultado daquelas investidas, mas além de marcas ou símbolos do que havia ocorrido, também seria uma tática de defesa aos ataques dos Black Blocs, que ainda poderiam acontecer dali para frente, o que chamei de Bank Blocs”, conta Alberto.

Participam também da mostra na Casa das Onze Janelas os paraenses Ionaldo Rodrigues e Keyla Sobral com trabalhos que provocam diferentes percepções sobre o universo da imagem. “Os trabalhos de Ionaldo e Keyla são dos mais sofisticados na mostra desse ano. Em ‘Drenagem’ Ionaldo faz um percurso histórico pelos processos artesanais e históricos da fotografia para refletir sobre a cidade em seu mecanismo civilizatório. Keyla propõe em ‘Flash’ uma síntese verbal em neon que brinca com a imagem visual da palavra e ironiza com o piscar do objeto as falhas da própria luz como significado. É quase um poema concreto”, observa Mariano.

Convidado mostra ‘Cidade Invisível’

Todos os anos, o Museu da UFPA recebe a individual de um fotógrafo paraense, já passaram por lá, Dirceu Maués e Cláudia Leão, em 2010; Luiz Braga, em 2011; Miguel Chikaoka, em 2012 e Walda Marques, em 2013. Já Janduari Simões nasceu no interior da Bahia, mas foi justamente por ter construído seu acervo com imagens sobre cultura e o homem da Amazônia, sobretudo do Pará, que ele é o artista convidado dessa 5ª edição.

Em ‘Cidade Invisível’, o fotógrafo faz um questionamento sobre memória, patrimônio e história. Em uma parte da sua exposição individual, um recorte pontual de sua sensibilidade sobre o espaço urbano e as mutações que ocorrem na arquitetura, com um olhar atento para a estrutura formal das moradias, e as semelhanças que anulam o limite entre centro e periferia; na outra, um trabalho tocante e que foi realizado final dos 70, época em que a quadra que abrigava a Fábrica Palmeira estava sendo destruída.

Segundo a observação de Mariano, “além de refletir o resultado desastroso do contexto ditatorial onde o Brasil foi destruído pelo poder militar, o fim da Fábrica Palmeira é também o nascimento de uma das maiores cicatrizes urbanas que Belém já produziu e que hoje tem o nome de ‘Buraco da Palmeira’”. “As fotografias de Janduari vão muito além disso e recolocam nesse contexto a invisibilidade de uma cidade, uma cidade que a gente não quer ver ou não consegue mais ver”. Janduari fará uma palestra na quinta-feira (24), às 19h, no Museu da UFPA, dentro de sua exposição, contando um pouco da sua trajetória e do recorte escolhido para a mostra. O evento tem entrada franca.

Mostra coletiva apresenta novidades

Pelo segundo ano, além da mostra individual do artista convidado, o Museu da UFPA recebe, também, uma coletiva que traz um recorte do que de novo está se produzindo na fotografia paraense. Jovens fotógrafos e outros já veteranos apresentam seus trabalhos recentes, com questionamentos e preposições cotidianas. A mostra ‘Pequenas cartografias (e duas performances)’ acentua mais ainda a intenção do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia de valorizar e fomentar a cultura paraense.

Marise Maués apresenta a obra intitulada ‘Nóstos’, composta por um vídeo, que teve como local de produção a ilha ribeirinha de Maracapucu Miri, localizada no município de Abaetetuba. “Sou egressa desse lugar, contudo, aos dois anos, fui levada juntamente com mais oito irmãos para a cidade, pois para minha matriarca era imprescindível a educação, a fim de nos garantir um futuro melhor. Apesar desse afastamento, sempre tive contato com os costumes e tradições ribeirinhas, seja pela ancestralidade ou por visitas em épocas de férias”, conta Marise. O trabalho mistura natureza e feminilidade.

Já o fotógrafo e historiador Michel Pinho expressa seu convite à reflexão, um questionamento sobre o estado da humanidade que beira a barbárie, o qual legitimou e legitima a violência. ‘Patrimônio’ é composto por fotografias que navegam entre a estética do lugar e o registro do patrimônio deixado pelos nazistas.

“Descobri que a dor atravessa fronteiras e as edificações que antes serviam como apenas um estábulo, passaram a ser campos de extermínio. A proposta das imagens se encaixa nesse viés, falar de processos transnacionais, questionar como a construção visual do nazismo ajuda-nos a compreender a dor que emana dos prédios, caminhos, banheiros e arames, muitos arames que lá e cá estão”, reflete Michel.

MICRONARRATIVAS

‘Primavera’, de Rodrigo José, é um trabalho desenvolvido no ambiente interno de uma casa, em que as fotografias procuram investigar o lado afetivo de um lugar que estava em via de desaparecer. É uma série composta em que a fotografia trabalha como um vetor de descobertas que possibilita a reflexão de um universo particular.

‘Flat - Volto para dormir todos os dias nas ruínas’, de Cinthya Marques, trata-se de uma série de fotografias que buscam retratar o ambiente que artista reside, a partir da linguagem ficcional, observando uma única perspectiva: a vista da janela de um apartamento, próximo à Avenida Presidente Vargas, centro comercial de Belém. “Assim como um estrangeiro, que ao chegar em uma nova cidade se depara com uma visão acerca do seu próprio mundo, pretendo discutir na série a sensação daquele que observa pela primeira vez uma nova paisagem ao seu redor, para falar sobre o primeiro olhar que lançamos no local em que se transita, aquele olhar sobre o novo, o diferente e o desconhecido”, conclui Cinthya.

Também integram a mostra trabalhos de Marco Santos, repórter fotográfico do DIÁRIO DO PARÁ, e Luciana Magno, que tem transitado pela fotografia, performance e vídeo.

No cotidiano do fotojornalismo, Marco Santos observa. “Sempre tive uma certa paixão por composições que envolvem o que chamamos de sinistro. É uma sensação provocada pela escuridão e pela luz. Algo que revela de forma abstrata a existência e elementos, nas imagens”.

Em ‘Sinistro’, vemos fotografias de situações arrasadas, mas que renovam a esperança com pequenas coisas, quase imperceptíveis.

Já no registro da performance “ O silêncio ancorava as asas: ser pedra depende de prática”, da artista Luciana Magno, observamos imagens em que a força da natureza se impõe. O trabalho é uma reflexão sobre a vida e seu fluxo, a partir do lançar-se ao desconhecido.

(Diário do Pará)

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