Um mergulho no passado através de calcogravuras aquareladas é a proposta do artista plástico Otoni Moreira de Mesquita, no vernissage ‘Memória do Tempo’, exposto na Elf Galeria até o dia 30 deste mês. Amazonense, o jornalista desenha desde criança e já é bastante conhecido entre os paraenses por sua atuação acadêmica e participação em salões de arte locais.
“O conceito da exposição é visitar um tempo imaginário, no qual podemos encontrar personagens de diferentes histórias e mitos. De Ariadne e os seus fios salvadores, a Sherazade com suas histórias intermináveis. Além destes personagens, surgem outros e que em dados momentos podem assumir outros papeis. São denominações temporárias. Pode ser Rainha da Noite ou Cavaleiros de Poseidon agora, mas já foram outra coisa em meu repertório. Grande parte das imagens brotaram de meus cadernos de anotações”, conta Otoni.
Muitos desenhos surgiram na época em que ele estudou na Escola de Belas Artes, no Rio de Janeiro, como a Cabeça do Cavaleiro e a Cabeça de Mulher do Deserto. “A questão de uma memória do tempo não é somente dos personagens e mitos, mas do meu próprio repertório, que sempre está voltando com alguma variação, sempre no universo do imaginário”, destaca.
Para este trabalho, Otoni criou matrizes em metal das quais reproduziu as calcogravuras, mas produziu um número razoável de cópias diferenciadas, algumas impressas de forma tradicional e em preto. Fez, também, uma série de provas únicas, a partir de cópias com tons mais suaves e que são aquareladas. Dessa forma, as matrizes geram diferentes resultados, com variações de cores e detalhes, gerando imagens únicas, que foram impressas no formato A3, com duas ou três exceções, que foram impressas no A2.
“Basicamente são calcogravuras feitas com ponta seca sobre matriz de acrílico e de acetato. No entanto, apresento todas como provas únicas, pois as impressões contemplaram entintagens com diferentes cores. Além desse aspecto diferenciador, fiz várias imagens com impressão suave, sobre as quais realizei aquarelas”, pontua.
“Comecei a fazer gravura em 1981 e numa intensidade estupenda. Depois disso, assumi um ritmo bem lento, me dedicando a pintura, instalações e outras técnicas, mas a gravura sempre esteve presente em meus processos de criação. Para essa série fui localizando velhos desenhos, poucos são recentes. Buscava, sobretudo, pelo aspecto da fantasia e da indumentária”, completa o artista.
Certo dia, Otoni localizou uma coleção de cabeças que vinha fazendo soltamente em diferentes momentos e que se mantinham como esboço. Depois de ter realizado duas ou três gravuras, ficou evidente qual era a direção. “Confesso que é um processo pouco racional, bastante intuitivo e que permite muita experimentação. Devo lembrar que parte dos ensaios ocorreram como demonstrações em sala de aula, para estimular a produção de alunos da disciplina gravura em metal, no curso de Arte da Universidade Federal do Amazonas, local em que trabalho desde 1984”, conta.
Sobre influências, Otoni revela que, nesse trabalho, especificamente, “flertou” com imagens que remetiam a obra de Marcelo Grassmann, um grande gravador brasileiro, morto no ano passado. “Costumo dizer que tenho influências das cavernas às coisas mais contemporâneas. Há um simbolismo que não controlo e aspectos surreais que direcionam o desenho. Me inspiro em muitos gravadores”, afirma.
Quem conferir a exposição verá que a mostra conta histórias e traduz a poesia em forma de calcogravuras aquareladas, retiradas do universo imaginário de Otoni. É como se as memórias do também historiador estivessem nas paredes da galeria. “Como artista, espero sempre que venham aqueles que gostam de arte.
Espero também que o trabalho possa interessar a outros artistas e também a estudantes, não somente da área da gravura, mas todo aquele que de alguma forma lida com imagens, literatura e imaginário”, convida. “Não se trata de um trabalho inovador do ponto de vista da ousadia. Mantenho uma vinculação forte com as tradições e com o passado, mas mesmo assim tenho permitido algumas inovações, sobretudo técnicas”, pondera o amazonense.
(Diário do Pará)
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