Com uma produção cultural fervendo em um caldeirão bem temperado, o Pará é uma mina de ouro de artistas com obras reconhecidas no Brasil e no mundo. Tendo a música como uma de suas expressões mais bem articuladas em termos de negócios, não apenas pela crítica mas pelo público, o Estado esbanja oportunidades para fazer da nossa cultura uma fonte de renda e aquecer o mercado.
Mas não basta só colocar um preço no trabalho, é preciso novas formas para reconfigurar o mercado de arte e atrair bons consumidores. O primeiro passo é despertar no artista um olhar para o negócio e a sociedade propiciar o consumo cultural.
Já existem projetos interessantes pensados nesta lógica para acender a chama do mercado e também cursos direcionando o olhar do artista para uma lógica mais empresarial.
O artista plástico e arquiteto Jorge Eiró é uma dessas mentes voltadas para as novas formas de explorar o mercado artístico na região. Junto com seu sócio Marcelo Magalhães, que tem uma visão de marketing, eles estão iniciando o Boaventura Cultura e Negócios, que eles definem como uma usina de ideias voltada para transformação do mercado de artes, principalmente focado nas artes plásticas e na fotografia.
“A ideia surgiu em uma feira em São Paulo e juntos pensamos que poderíamos ampliar o mercado de arte para cultivar mais consumidores em Belém, tendo em vista os produtos culturais tão interessantes que são produzidos em todas as vertentes da arte paraense”, explicou Eiró.
O projeto está apenas começando e se configurando com a ajuda de artistas, jornalistas e pessoas importantes da cena cultural na cidade, mas pretende ampliar e difundir a cultura de colecionadores e consumidores de arte, propondo iniciativas e ações. “Os artistas plásticos e fotógrafos paraenses desde os anos de 1980 têm um grande reconhecimento nacional, mas não é por isso que podemos dizer que temos um mercado de arte em Belém. Essa clientela, o que a gente pode chamar de colecionadores, é um número que não chega a 20 pessoas na cidade, que são aqueles que começam a comprar teu trabalho, têm obras de todas as tuas fases e acabam se tornando até amigos. Mas acredito que existe potencial e um público que pode ser criado”, esclarece Eiró.
O que se percebe é que este mercado, se fomentado, pode trazer bons frutos e retorno financeiro aos artistas. Jorge explica que, quando a ideia do projeto surgiu, eles estavam em uma feira de arte em São Paulo, a SP Artes, que só este ano movimentou R$ 150 milhões. “Este é um mercado muito bem desenvolvido em outros locais e a sociedade precisa reconhecer o valor de sua cultura, não só o artístico estético, mas também o financeiro agregado disso. Queremos difundir e criar um hábito de frequentadores de galerias, que ainda são tão poucas em nossa cidade, e também de museus e exposições para fazer desse público uma clientela consumidora de cultura”, revela Eiró.
E o projeto já tem um norte para trilhar com base na exuberância do mercado imobiliário local, que representa um forte indicativo de que existem possibilidades de expansão. “Lojas de decoração e móveis surgem naturalmente nesta cadeia e as belas obras de arte podem estar neste meio, por exemplo. Muita gente gostaria de ter em casa uma obra, mas muitas vezes não sabe como chegar até o artista”, diz Eiró.
Artistas estrategistas
O músico e ator Marcos Vinicius foi um dos fundadores do grupo Palhaços Trovadores. Mesmo talentoso na arte, acabou trilhando um caminho diferente. Especialista em planejamento estratégico e coaching, ele ministra oficinas, uma delas no Instituto de Artes do Pará, através do projeto Pará Criativo, voltado para artistas, designers, comunicólogos e arquitetos.
Para ele, fomentar a visão de mercado nestes produtores é importante para o desenvolvimento de carreira. “O artista na nossa cidade e região não tem essa visão empreendedora. A arte dele é um produto que pode ser planejado e ter etapas para chegar na concretização do seu ideal”, explica Marcos.
Por já ter vivido a experiência de ir buscar em outros caminhos uma estabilidade profissional, mesmo com uma carreira artística desenvolvida, Marcos reconhece que os artistas locais investem muito na sua produção mas esquecem que é possível, através de planejamento, fortalecer o mercado e conseguir um retorno financeiro. “Ainda precisamos de muitos elementos para que o artista viva de sua própria arte. A falta deles acaba deixando a arte como um hobby para alguns. Acredito que o pensamento empreendedor pode tornar possível ao artista ter qualidade de vida”, completa o coach.
(Diário do Pará)
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