Nascido em 25 de fevereiro de 1952, Raimundo Nonato Silva, o Mestre Nato, era conhecido por sua arte, mas também por ser alguém simples e alegre. O artista morreu na manhã da última sexta-feira (23), aos 62 anos, mas sua obra tem muita gente disposta a mantê-la viva e a usar seu exemplo de vida para melhorar tudo aquilo que tanto o preocupava: a violência, o futuro dos jovens, a preservação da cultura popular.
“Ele foi um artista de vida, viveu a arte, a aprendeu vivenciando”, afirma o sobrinho, Rafael da Silva, 26. Já o amor pela cultura popular foi herdada e incentivada. Aos 13 anos, Mestre Nato já se apresentava como “tripa” do Boi Bumbá, era o brincante que veste o boi de pano e faz a evolução do bumbá. O evento foi criado pelo pai dele para levar cultura às crianças da rua Augusto Correa, no bairro do Guamá.
Ainda jovem, aos 18 anos, Mestre Nato saiu de casa para aprender arte por conta própria, rodou o Brasil, passando por lugares como a Bahia e o Rio de Janeiro. Cinco anos depois, quando voltou para casa, estudou alfaiataria – mais uma ideia do pai. E ao longo da vida, transformou o oficio em arte. “Ele pegou essa costura e começou a incluir pintura, bordado, a desenhar figurinos e experimentar suportes”, conta a irmã Maria de Nazaré.
Apesar de ter vindo de uma família grande – ele era o mais velho de oito irmãos – Mestre Nato não teve filhos, ao menos não consanguíneos. “Dizia que os filhos éramos nós, sobrinhos. Cativava muita gente, na família e fora dela, de todas as idades”, diz Rafael. Seu talento também foi direcionado para esse prazer em cativar: todas as irmãs do Mestre casaram com vestidos desenhados e confeccionados por ele.A designação de “mestre” é algo que veio do reconhecimento popular por sua arte e habilidade. “Meu tio foi meu pai nas artes, cresci no ateliê dele. Minha referência sempre foi ele. Fico feliz porque também tivemos a oportunidade de fazer alguns trabalhos em parceria. Ele é quem eu sempre quis ser na vida. Brincava que ele foi o maior ‘culpado’ por eu gostar de arte”, conta Rafael.
CARREIRA E AMIGOS
Mestre Nato foi referência não só para os sobrinhos, mas para toda uma geração já formada no mundo artístico. “Era um homem do povo, que passou a vida em um bairro cheio de contradições, violento. Quando construía um figurino, levava a reflexão de dias melhores”, afirma o compositor Ronaldo Silva, do Arraial do Pavulagem. “Era ele quem confeccionava nossos estandartes de Santos Juninos desde 2002. Deu uma contribuição muito significativa à cultura popular, de forma humilde, o que só torna seu trabalho mais bonito”, completa.
“Eu o conheci na década de 90. Naquela época, a gente curtia junto com os amigos o Bar do Parque e os recantos do Guamá”, conta Gilvan Tavares, artista plástico e instrutor da Fundação Curro Velho, local onde Mestre Nato também lecionava. “O Nato é um ícone – pelo estilo, a irreverência de cores, o caráter. Pessoa que sempre será uma referencia para mim”, declara.
“Ele perpassava por todas as artes e o Guamá era um referencial, tudo ali o inspirava. Foi um profissional muito generoso com sua arte, a repassava para todos a sua volta”, afirma o amigo Jorge Cunha. Já Marcele Engelke, 22, assistente do Mestre reforça: “Era a vontade dele que eu me tornasse uma grande profissional e serei – além de continuar o trabalho que me ensinou e estávamos fazendo juntos. Agora tenho 500 estandartes pra fazer”, afirma com uma voz que mistura orgulho e tristeza.Cortejo cultural de cores, fitas e vozes
O reconhecimento pela obra e talento de Mestre Nato já existia há anos, vindo de seus familiares, amigos e público. A última homenagem foi organizada por estas mesmas pessoas, no último sábado (24). Foi um momento de cores, música, chapéus com fita, e o coral de vozes a cantar “Chama Verequete”. Um verdadeiro arrastão cultural do Arraial do Pavulagem pelas ruas do Guamá, chamando o povo a celebrar a existência da arte de Mestre Nato – porque essa sim, é imortal.
E muitas formas de manter seu trabalho vivo ainda devem seguir. A exposição “Mestre Nato entre Cortejos e Festejos”, pensada por seu sobrinho Alexandre Nogueira, 28, e que esteve em cartaz no Instituto Arraial do Pavulagem durante o mês de aniversário do artista, deve ser reaberta. “Como sobrinho e amante da arte, tenho essa divida de levar a arte dele, não deixar sua marca morrer”, declara. A mostra é composta por 16 estandartes narrava o sincretismo afro-católico, uma das inúmeras bandeiras culturais pela qual Mestre Nato lutou.
(Diário do Pará)
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