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Fotógrafo fala sobre arte e nudez na internet

O regime militar acabou. A censura não. Mais de 20 anos após o fim da Ditatura no Brasil, a repreensão ainda dá as caras e a censura agora pega de surpresa os usuários das redes sociais. Anônimo ou não, quem tiver conteúdos considerados impróprios é ba

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O regime militar acabou. A censura não. Mais de 20 anos após o fim da Ditatura no Brasil, a repreensão ainda dá as caras e a censura agora pega de surpresa os usuários das redes sociais. Anônimo ou não, quem tiver conteúdos considerados impróprios é banido. Nem a cantora Rihanna escapou. Após postar fotos sensuais que fez para a revista francesa “Lui”, inclusive com um topless na capa da publicação, a artista recebeu uma advertência por conta das imagens que foram classificadas como quebra de violação dos termos de serviço.

Ousada, sem se intimidar com a notificação, ela publicou uma montagem em que aparece comportada com a legenda: “A próxima capa de Rihanna se dependesse do Instagram”. A cantora teve seu perfil bloqueado pela rede social, deixando para trás mais de 12 milhões de seguidores. Alguns boatos dizem que a conta foi excluída pelo próprio Instagram, mas representantes da rede, segundo o site “E!”, alegam que o sumiço do perfil da famosa foi acidental.

O cofundador do Instagram, Kevin Systrom, em entrevista à BBC, disse que as regras do aplicativo sobre nudez são “justas”, iguais para todos e visam tornar o aplicativo o mais seguro possível para adolescentes e adultos. Os termos de uso estabelecem que o usuário não pode publicar fotos violentas, de nu total ou parcial ou sexualmente sugestivas. Recentemente a empresa também removeu fotos sensuais de Scout Willis, filha de Bruce Willis e Demi Moore.

Paraense, o fotógrafo Bob Menezes também já foi alvo de duas advertências nas redes sociais. A primeira ocorreu no próprio Instagram, oito meses atrás, após a publicação de uma imagem do fotógrafo Richard Avedon feita por ele. “Gosto de fotografar algo feito por grandes mestres e sempre publico citando o autor da imagem original. Publiquei a foto de uma modelo seminua e eles apagaram. Depois, recebi um email em inglês do Instagram, dizendo que eu estaria ultrapassando as normas. Respondi desaforado, levando em conta dois pontos: se Richard Avedon é pornografia, eu não sei mais o que é arte; e se eu fotografo uma fotografia, publicada em outro tamanho, ela é minha”, diz.

Bob exprime o nu feminino artístico em muitas de suas publicações. Na série “Essas Outras Mulheres”, reproduziu Frida Kahlo através da atriz Karine Jansen. Dessa vez, a alfinetada veio do Facebook, rede social que mais adverte os internautas. “A foto foi denunciada e censurada por nudez imprópria. Me senti ofendido, nunca fotografei e nem publiquei pornografia. Não se pode censurar um conteúdo, ainda mais nesses critérios. Tenho visto violência e crianças em posições eróticas, e uma foto não real eles julgam como imprópria?”, questiona. “Não vou me submeter à censura alguma, se cancelarem a minha conta, paciência”, diz o fotógrafo, que tem o blog acessado por visitantes de mais de 30 países.

Outro caso repercutiu na mídia tendo como protagonista a banda americana Vulfpeck, de funk instrumental. O grupo lançou um álbum com dez faixas sem nenhum som, explorando o silêncio, no Spotify, plataforma de músicas on-line, e após dois meses teve o disco retirado do ar “por violar os termos de serviço” ao tentar lucrar com um álbum silencioso. Até onde vai o limite da liberdade artística em tempos de internet? Os sistemas estão preparados para distinguir arte de conteúdo abusivo ou pornográfico?

O professor de Jornalismo Digital da Estácio Fap, Pedro Loureiro de Bragança, nunca teve nenhum conteúdo banido, mas lembra do caso de uma amiga que participou da Marcha das Vadias e teve uma foto com os seios à mostra excluída no Facebook. Pedro não acredita que situações como essa configurem uma espécie de censura. “O Facebook é público porque todo mundo tem acesso, mas é uma empresa privada com regras que a gente não observa. Se eles decidem que não pode aparecer seios, é uma regra deles. Tudo o que você consome ou publica faz parte de uma estratégia de vender anúncios”, pontua.

Todavia, ele não discorda de que as advertências e justificativas são contraditórias. “Há um moralismo meio torto, difícil de compreender. Seios não podem ser expostos, mas órgãos dilacerados, pessoas mutiladas, perna amputada, tiro, machadada na cabeça e animais violentados sim”, lamenta. A sugestão do jornalista é migrar para outros espaços com maior liberdade de expressão. “O que as pessoas precisam compreender é que o Facebook não é a internet, ele é apenas um espaço dela. Eles se colocaram um período a disposição das pessoas para avaliação das regras e sugestões de mudanças e não houve participação. Se a criatividade do artista está sendo limitada, ele pode procurar outros canais e quem perde é o Facebook”, avalia. Segundo Pedro, blogs, Flickrs e Tumblrs são boas opções. “Se eles interferirem em uma dessas áreas é censura, porque você está em um local sem gerência, um espaço seu”, afirma.

(Diário do Pará)

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