O projeto “Circular Campina – Cidade Velha” proporcionou um domingo atípico aos paraenses. As ruas dos bairros históricos estavam cheias de gente, com outro clima, e não era para menos: sete espaços culturais estavam de portas abertas com programações diferentes, proporcionando aos visitantes um verdadeiro mergulho cultural. Exposições de fotografia, pinturas, gravuras, desenhos, apresentações musicais, venda de vinis, espetáculo de teatro e uma feirinha de troca de objetos artísticos movimentaram dois dos bairros mais charmosos da cidade.
A Elf Galeria apresentou a exposição “Notas sobre o Esquecimento, Caderno das Águas e Outras Páginas”, do artista Armando Sobral, com obras feitas em suportes diversos. Como destaque o quadro de mais de 2 metros, em óleo sobre tela, intitula do “Seu Luiz”, uma homenagem ao pai do artista, ainda vivo. No Atelier do Porto, um mix de pinturas, gravuras, desenhos e fotografias de artistas de diferentes gerações conturbava a vista. Cada trabalho provocava uma sensação diferente e até o cantinho onde tudo aquilo nasceu, o refúgio do pintor num espaço discreto, ao fundo da casa, parecia uma tela com a desordem de tubos de tinta, pinceis e todos os utensílios de um verdadeiro ateliê.
A intimidade da produção do ilustrador Fábio Vermelho também pode ser apreciada no espaço Oficina Assim. A exposição, com trilha sonora de ícones do rock’n’roll da década de 1950, reservava no fim da galeria um espaço que reproduz o quarto de Fábio com o seu caderno de desenhos que podia ser folheado pelos visitantes. Obras de arte em páginas, uma maneira de mergulhar a fundo do pensamento do autor. Quem esteve por lá, também pode conferir as obras de PP Condurú. Já na Gotazkaen, o mote era a exposição do fotógrafo Laércio Esteves e o “Poukas Trancaz”, feirinha com troca de objetos artísticos.
No fim da manhã, na Casa do Palhaço, a calmaria reinava. A bagunça ficou por conta dos clowns que, na ânsia de ver a plateia cheia, foram buscar espectadores na Praça da República para fazer seu show. Já na aconchegante Kamara Kó Galeria, os visitantes conferiram a exposição “Navegante da Luz”, de Miguel Chikaoka, com belas e poéticas telas em preto e branco, além de obras de fotógrafos renomados Flavya Mutran, Alberto Bitar, Ionaldo Rodrigues, Pedro Cunha e Octávio Cardoso.
Um dos destaques do circuito cultural da Cidade Velha foi a inauguração da loja de discos Discosaoleo. Para idealizar o espaço, o porão da casa de Leo Bitar ganhou uma central de ar e mobiliário vintage. Os pockets shows foram só a cereja do bolo. O que atraiu mesmo o público foi o recheio: vinis – que eram contemplados como obras de arte, com preços para todos os gostos. Garimpando, era possível encontrar reedições importadas de clássicos como o famoso álbum The Velvert Underground and Nico, com uma banana desenhada por Andy Warhol na capa, por R$ 130.
“A loja representa a volta de uma coisa que tinha tudo para não terminar. É um resgate da cultura discográfica no Brasil e em Belém. Os CDs estão desaparecendo e os vinis nos revisitando. Existe toda uma arte em volta da cultura do vinil”, comemorava o professor de história Carlito Aragão, um dos presentes na abertura da programação. Quem decidiu esticar para almoço pode se deliciar no restaurante Dona Joana a poucos metros dali, e que ficou lotado de artistas e amantes das artes até à tarde.
Mesmo com o público ainda tímido, o último domingo foi um simples recorte do que o centro histórico ainda pode se transformar com o “Circular Campina – Cidade Velha”. A cada edição, o projeto soma conquistas. O apoio do comando da Polícia Turística, que ficou responsável pela segurança, é a mais recente vitória dos organizadores e uma prova de que o circuito - que se pretende, inicialmente, ser bimestral – tem tudo para se tornar um roteiro turístico fixo em Belém. “Somos espaços autônomos independentes, produzimos e queremos criar circulação da produção. A ideia é reforçar, junto com outros espaços, essa cadeia que está se criando como base para o mercado de arte. Criar nas pessoas o hábito de entrar no circuito da arte contemporânea, mostrar a nossa diversidade para a população”, destaca Armando Sobral. O primeiro passo já foi dado e o público agradece.

(Diário do Pará)
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