Ela já publicou mais de 50 livros, entre contos, romances, poesias, prosa e literatura infantil. Seu livro de contos “Uma Ideia Toda Azul” recebeu o prêmio “O Melhor para o Jovem”, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Mas, apesar das várias obras voltadas para os mais novos, a escritora Marina Colasanti teve o público adulto como plateia em Belém. no último Encontro Literário da Feira Pan-Amazônica do Livro.
Aos 76 anos e mais de quatro décadas de carreira, Marina mostrou que está muito à frente do seu tempo. À vontade durante todo o bate-papo, ela apresentou ideias modernas regadas a bom humor e muita leveza. Debateu sobre os impasses da mulher atual e contemporânea, defendeu os homossexuais e contou experiências como jornalista em uma revista feminina de alta tiragem.
A escritora publicou recentemente o livro “Hora de Alimentar Serpentes”, com 206 contos recheados de ironia e doçura, e está entre os indicados ao Prêmio Portugal Telecom 2014. No encontro, ela comentou a preferência por minicontos temáticos. “Não faço coisas à toa, gosto da construção, sou pedreiro. Os minicontos me servem porque com tantos pedacinhos, fragmentos, histórias soltas, eu estou provocando uma reflexão sobre o tema e quero que o leitor, sem perceber, tenha mais do que fragmentos, tenha um discurso que o faça refletir”, disse.
Ela revelou que sempre inicia suas publicações com uma pesquisa vasta. Com os minicontos de “Contos de Amor Rasgados”, um de seus títulos mais vendidos, não foi diferente. “Primeiro vou estudar, faço leituras. No caso de ‘Contos de Amor Rasgados’, eu já trabalhava em uma revista onde tinha uma coluna que recebia cartas sobre amor. Achava que sabia tudo, mas o amor é muito adocicado, falado, comprometido, combina com tudo”, contou.
Marina defendeu que todos possuem um pacote cultural composto por tudo que os cercam. E no caso dela, a bagagem é multicultural. Afinal, apesar de ter nascido na Eritreia, na África, a escritora viveu a infância na Líbia, depois aterrissou na Itália e emigrou para o Brasil em 1948.
Mas Marina diz que é do mundo e não se limita a escrever dentro do contexto dessas culturas. Se prefere prosa ou poesia, não revela. “Sou feliz fazendo. Não posso dissociar. O meu projeto autoral é que tudo isso seja uma única coisa. É como se fosse um painel. Os gêneros são tijolos que têm que se encaixar”, destacou a autora ganhadora do Prêmio Jabuti 2010 de Poesia, com “Passageira em Trânsito”.
Seus devaneios sobre ser poeta foram frequentes durante todo o bate-papo. “Não se deixe enganar quando dizem que a vida de um autor é solitária. Quando estou sozinha, estou feliz, costurando minhas ideias. O inconsciente dita o conto e aí eu vou decifrar. Me sinto bonita quando escrevo, quando um livro acaba, eu penso ‘vou ficar feia outra vez’”, disse. “A poesia é uma coisa muito complexa. Demorei a entrar nela porque me parecia um desafio muito grande. Toda vez que termino um livro acho que nunca mais vou conseguir escrever outro. A partir de um certo ponto há um esgotamento na vida do poeta. Ele não vibra mais como vibrava”, completou a escritora.
Nos bastidores do evento, Marina conheceu o muruci e fez o público rir de suas impressões sobre a fruta. “Ela não é domesticada, anda sem coleira”, disse. Segundo Marina, bem diferente do mercado, que é um grande domesticador da palavra. “Ele cria interesses e canais para os quais um jovem autor pode e é frequentemente conduzido. O mercado editorial gosta de romance e os contistas sempre se queixam disso”, refletiu.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar