Imagine ter a oportunidade de fazer uma entrevista exclusiva com João Cabral de Melo Neto, autor de “Morte e Vida Severina”. Marcos Linhares teve essa chance e fez dela um belo livro. “Cartas ao Poeta Dormindo” traz, além da conversa com o poeta, o resultado de um desafio proposto pelo autor: pedir a diversas personalidades que escrevessem cartas a João Cabral, morto em 1999, aos 79 anos.
Arnaldo Niskier, Heródoto Barbeiro, Miriam Leitão, Cristovam Buarque, José Pacheco, Miguel Sousa Tavares e outros aceitaram o desafio e escreveram cartas fortes, críticas, criativas e até poéticas. “Cheguei com eles e propus: se você pudesse dizer alguma coisa a João Cabral de Melo Neto, o que seria? E vieram cartas surpreendentemente livres, reflexões de nosso tempo e até poesias. Cristovam Buarque, por exemplo, não escreveu sobre educação. Disse o quanto queria conhecer o poeta, mas também disse que, de certa forma, já o conhecia, porque o livro é a esquina em que o escritor encontra o leitor”, conta Marcos.
Se tivesse lido as cartas, João teria conhecido o Big Brother Brasil sob o olhar de Heródoto Barbeiro, ou até saberia que Miriam Leitão ficou tímida ao encontrar com ele, como ela relata em sua carta. “Nós nos encontramos uma vez, mas você não se lembraria por melhor que fosse sua memória. É que, intimidada, fiquei silente como uma pedra. Sim, sei do seu apreço por pedra, mas ninguém notaria algo tão insignificante quanto aquela jovem que, em 1980, sentou-se à mesa em que havia tanta gente mais interessante. Para mim foi inesquecível. Era apenas o prazer de olhar para o poeta, e achar notável qualquer coisa que dissesse”, escreveu Miriam.
O encontro de Marcos com João Cabral veio quando dava aulas de literatura. “Gostava de dar aulas performáticas e no dia em que falei sobre ‘Morte e Vida Severina’, uma aluna me perguntou se eu, como jornalista, poderia levar algumas perguntas ao João Cabral. Quando eu disse que poderia tentar, muitos outros alunos fizeram também suas perguntas”, relembra Marcos.
Diante da curiosidade dos estudantes, Marcos disse incrédulo que tentaria entrevistar o poeta, e conseguiu. “Estava começando no jornalismo, foi uma surpresa conseguir uma entrevista exclusiva. Fui até a casa dele, levei as perguntas dos meus alunos e as minhas. Ele havia me concedido 10 minutos, mas ficamos juntos por uma hora”, disse o autor.
“Foi sem dúvida a entrevista mais difícil que fiz na vida. Busquei o homem por traz do poeta, mas ele não gostava de falar dele mesmo. Tentei saber do que ele tinha medo, e ele criticava as minhas perguntas. Ao final, soube que ele tinha medo do diabo com tridente, por causa dos padres do colégio Marista em que estudou. Ele confessou que ainda sonhava com o diabo com tridente correndo atrás dele”, revela o autor.
Marcos ligou as cartas à entrevista para dar forma ao livro, que já pede uma nova edição. “Está prevista para o segundo semestre uma edição ampliada com mais cartas. Vamos instalar essa caixa postal no céu”, brinca o autor, que esteve recentemente em Belém para uma sessão de autógrafos do livro.
(Diário do Pará)
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