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Arrastão dá colorido especial às ruas de Belém

Junho jamais será junho em Belém do Pará sem alguns ingredientes especiais. Além de fogueira, quadrilha, bandeirinhas coloridas, algumas coisas assinam a quadra junina aqui com uma identidade única. E uma delas é o Arrastão do Pavulagem. O mar de gente, t

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Junho jamais será junho em Belém do Pará sem alguns ingredientes especiais. Além de fogueira, quadrilha, bandeirinhas coloridas, algumas coisas assinam a quadra junina aqui com uma identidade única. E uma delas é o Arrastão do Pavulagem. O mar de gente, tradicional em manifestações paraenses, como no Círio de Nazaré, invade as ruas nos domingos de junho em reverência à cultura popular.

Quem consegue ver a escadinha da Estação da Docas sob um ângulo mais alto enxerga uma festa de cores. O rei de honra deste dia, o Boi Pavulagem e seu companheiro, o Boi Malhadinho, chegam de barco em um trajeto que sai da Praça Princesa Izabel e corta o rio aos acordes do carimbó. São recebidos em festa, ao som de toadas de boi, xotes, carimbós e quadrilhas, digno da chegada de reis aos seus súditos. Batuques e acordes ressoados por um batalhão (não à toa chamado de Batalhão da Estrela), famílias inteiras entregues em corpo, alma, paixão e cores à cultura popular paraense. Essa multidão invade a avenida Presidente Vargas rumo à Praça da República, numa coreografia perfeita em que cada um tem seu lugar.

Milhares de pessoas acompanham o cortejo do Pavulagem nos domingos juninos. (Foto: Jaime Souzza/Arquivo)

O da dona Marlene Paiva, 75 anos, está marcado há mais de 12 anos. Ela vai na primeira fila da ala das coreografias, puxando quem a segue com alegria. “Gosto de carimbó, de quadrilha, de música e de dançar. Meu lugar é aqui. Mês de junho é o melhor mês do ano para mim”, disse no arrastão de estreia, entre um passo e outro, sorridente. Há menos tempo do que dona Marlene no arrastão, Amanda Coutinho tinha o mesmo sorriso que a veterana dançarina e não escondia a alegria de estar entre as estrelas. “Estou apenas há três anos e fazer parte da cultura popular regional é muito importante. A alegria deste momento me motiva”, disse Amanda.

Há 27 anos no Arrastão do Pavulagem, Márcio Gomes, conhecido como Baba, começou tocando no cortejo, mas ele é realmente conhecido pelos seus 23 anos de performance como tripa, nome dado à pessoa que dança dando vida ao boi.

“Mês de junho eu paro tudo que estou fazendo, tiro férias do trabalho e me preparo para fazer o que eu gosto. Me concentro para fazer o meu melhor, dar alegria ao povo. Tentei colocar os passos não só do boi bumbá do Pará, mas misturar com o do Maranhão, dançando em pé e agachado”, explica Márcio.

Durante o arrastão, os pernaltas fazem a alegria dos brincantes. (Foto:Jaime Souzza/Arquivo)

Dora Soares também é peça tradicional naquele cortejo. Ela começou no Guamá com o Malhadinho, e desde então é responsável por enfeitar os bois da festa. “Ajudamos com os adereços do cortejo e produzindo a ornamentação dos bois com aplicações, bordados, fitas, flores e paetês. Este ano fizemos uma referência ao Brasil sem deixar de lado os símbolos da quadra junina”, detalhou.

MAIS QUE UMA SIMPLES FESTA

Júnior Soares, compositor, músico e cantor do Arraial do Pavulagem, que dá base ao cortejo e, claro, é a atração mais esperada no show que é o ápice da festa todos os domingos, explica que o aumento do Arrastão todos os anos é consequência da entrada não só de novos brincantes, mas de verdadeiros defensores dessa cultura.

“Temos uma missão: trazer sempre a alegria e um pouquinho da cultura do interior do Estado, da nossa gente e de nossas manifestações. Isso é o que nós apresentamos com o Arraial do Pavulagem. O que esperamos de quem acompanha o cortejo, tanto os veteranos como quem vem pela primeira vez, é que venha compartilhar da cultura popular”, convidou Júnior.

Só este ano foram 500 pessoas envolvidas de alguma forma nos bastidores nesta teia, renovando as esperanças de que o cortejo se perpetue. “A coisa mais bonita de tudo isso é a compreensão de que o ser humano constrói e reconstrói o futuro. Reinventar as coisas é ainda melhor quando se faz no coletivo, como é o caso do Arraial do Pavulagem”, destacou Ronaldo Silva, presidente do Instituto Arraial do Pavulagem. “O Arraial é patrimônio do Brasil, mas só vale a pena ser um patrimônio se tivermos responsabilidade sociocultural e ambiental, e que estes cortejos sejam a favor da criança, da cidadania, do direito à vida e de uma prática cultural que melhore o rendimento escolar, que melhore a nossa condição de pai, de filho, de amigo”, esclareceu.

Os cortejos acontecem nos três últimos domingos de junho e no primeiro domingo de julho, a partis das 9h. (Foto: Jaime Souzza/Arquivo)

À frente do cortejo, os estandartes são um espetáculo à parte e uma homenagem a Mestre Nato, que morreu em maio deste ano, mas ficou imortalizado em suas imagens que traduzem o sincretismo da festa, misturando o sagrado e o profano, a fé e a alegria em suas obras. Ele estava desde 2002 presente nos cortejos do Pavulagem através dos estandartes de Santo Antônio, São Pedro, São João e São Marçal e ficará para sempre eternizado ali. Porque Ronaldo acredita que os arrastões vão se perpetuar por gerações e o conhecimento compartilhado com cada nova pessoa é fundamental para a continuidade desta festa.

“O Arraial tem um pé na tradição e nós compreendemos o tradicional não como coisa ultrapassada, mas como conhecimento que precisa estar adaptado ao contemporâneo. Somos uma nave de compartilhamento desta cultura, de olho no futuro sem coisas negativas como venda e consumo de bebida alcoólica. Nosso viés pedagógico põe em cheque essa questão por conta das crianças que estão aqui com a gente. Esse público precisa consumir a música, o chapéu, a camisa, CD e fazer a economia da cultura viva”, analisou Ronaldo Silva.

SERVIÇO

O Arrastão do Pavulagem, que teve o primeiro cortejo no último domingo (15), acontece ainda nos dias 22 e 29 de junho, e no dia 6 de julho, com concentração na escadinha da Estação das Docas e saída às 9h. O cortejo segue pela avenida Presidente Vargas até a Praça da República, onde é realizado o show de encerramento do evento.

(Diário do Pará)

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