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Ney Ferraz Paiva une fotografia e filosofia

A jovem americana Francesca Woodman teve uma vida breve. Suicidou-se aos 22 anos, atirando-se do alto de um prédio em Nova York, em 1981. Mesmo assim, em menos de uma década (tirou a primeira fotografia aos 13 anos), construiu uma obra que ganhou destaque

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A jovem americana Francesca Woodman teve uma vida breve. Suicidou-se aos 22 anos, atirando-se do alto de um prédio em Nova York, em 1981. Mesmo assim, em menos de uma década (tirou a primeira fotografia aos 13 anos), construiu uma obra que ganhou destaque no cenário da arte, com autorretratos em preto e branco, envolvidos em uma atmosfera onírica, onde na maioria das vezes seu rosto está fora de cena.

A fotografia dela e a filosofia de Michel Foucault são o ponto de partida para a instalação “Um Mundo Onde Foucault Possa Reclinar a Cabeça”, do paraense Ney Ferraz Paiva, que será aberta à visitação pública esta noite, às 19h, e permanece em cartaz até o fim deste mês na Galeria Theodoro Braga, do Centur.

“No início de outubro deste ano, selecionei uma pequena série de velhos jornais, envelopei em três sacolas plásticas em um conjunto intitulado ‘Envios’, e essa obra acabou sendo selecionada para o 19º Salão Unama de Pequenos Formatos. Desde então venho me perguntando: é possível a imagem resistir hoje? E como resiste? Examinei como certos objetos, assuntos e temas reaparecem em imagens ao longo do tempo e acabei me fixando nos trabalhos de Francesca Woodman”, explica.

Aos olhos de Ney, as fotografias de Francesca, que exploravam intensamente a imagem com movimento e longos tempos de exposição, casam perfeitamente com o que diz Foucault em “As Palavras e as Coisas”, onde o filósofo aborda a relação entre poder e conhecimento e como eles são usados como uma forma de controle social através de instituições sociais.

Mas Foucault não é a única referência para a instalação. Também estão lá conceitos de Gilles Deleuze e do crítico Georges Didi-Huberman (de “A Imagem Sobrevivente - História da Arte e Tempo dos Fantasmas Segundo Aby Warburg”). “Venho pensando a questão do arquivo, como o Didi-Huberman aborda, sobretudo na recente exposição dele no Museu de Arte do Rio, não exatamente por uma recuperação da memória, e sim mais pelas suas fantasmagorias. Daí para o ambiente da Francesca Woodman, é um pulo”, diz o artista, que não tem medo de parecer hermético.

“Na arte, os espaços se abrem pela força e intensidade dos projetos. É a mesma coisa entre se abrir um livro de Borges e um de Paulo Coelho. O primeiro te abre magicamente a visão, o outro te cega. Daí é escolher”, argumenta.

Cenografia apurada

De acordo com Ney Ferraz Paiva, a escolha da fotografia e da instalação – em seu sentido técnico e estético – deve-se a essa abordagem da “imagem que resiste” ou como “resíduo da tradição”, uma tradição que um dia deixará de existir conforme nossa história avança. Nesse ponto, ele diz que a cenografia realizada por San Rodrigues é fundamental para chegar à exposição.

Foram muitas conversas durante cerca de um mês para conceber a montagem, diz San Rodrigues, conversas estas que envolveram também sua parceira no Exteriacto Ateliê, Nívia Brito. “A gente entende que uma exposição de arte também é uma cena, tem uma relação entre o expectador e o ator, mas de uma forma diferente. Pensamos o espaço em três conjuntos: um primeiro que apresenta a Francesca, outro que trata do Ney e da relação dele com ela, e um terceiro que é uma mistura disso e que é bem interativo, força as pessoas a entrarem no universo experimental da Francesca”, explica.

“Um Mundo Onde Foucault Possa Reclinar a Cabeça” é composta de fotografias em formato 40x40cm, feitas com base no estilo e ambiente artístico de Francesca Woodman, e da reconstituição de certas abordagens filosóficas de Foucault. Esboça uma espécie de reaparição de memórias entrelaçadas em meio a um processo de aproximação e acolhimento da filosofia na fotografia, e vice-versa.

Objetos que remontam às fotografias de Francesca também surgem na montagem e um dos vídeos produzidos por ela será exibido durante o período da mostra, em conjunto com as obras de Ney Ferraz Paiva.

Para ver e pensar

“Um Mundo Onde Foucault Possa Reclinar a Cabeça”, instalação de Ney Ferraz Paiva

Onde: Galeria Theodoro Braga (Centur - Gentil, esquina com Rui Barbosa)

Abertura: Hoje, às 19h.

Visitação: Até 31 deste mês, das 8h às 18h.

Quanto: Entrada franca

(Diário do Pará)

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