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Cultura é um produto que dá lucro

O talento e a criatividade usados como matérias-primas. Assim nasceu um novo segmento de mercado: a economia criativa. Cada vez mais comentado, esse novo vetor transforma a diversidade cultural em produtos e serviços distribuídos em áreas como arquitetura

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O talento e a criatividade usados como matérias-primas. Assim nasceu um novo segmento de mercado: a economia criativa. Cada vez mais comentado, esse novo vetor transforma a diversidade cultural em produtos e serviços distribuídos em áreas como arquitetura, artes e antiguidades, artesanato, teatro, cinema e vídeo, design, editoração, música, moda, softwares de lazer, publicidade, rádio e televisão. “Esse conceito ainda está sendo apropriado pelo Brasil. Ele surgiu nos anos 1990, nos países anglo-saxões, e chegou por aqui só em 2004. Há vários olhares sobre a economia criativa, uns mais economicistas e outros menos, que buscam integrar a dimensão econômica com as dimensões cidadã e simbólica de cultura”, destaca Eliane Costa, uma das grandes referências brasileiras em economia criativa e redes culturais, que esteve em Belém para realizar ações de capacitação na Incubadora Pará Criativo.

De acordo com a especialista, uma das bases dessa economia é a compreensão de que a cultura está presente em quase tudo na vida cotidiana. “Segundo a Unesco, existe um conceito de cultura amplo e contemporâneo que transcende arte e literatura e engloba modo de vida, crenças, rituais, religiões, idiomas. É a cultura como identidade”, diz.

As empresas da economia criativa já movimentam 2,7% do Produto Interno Bruto brasileiro, de acordo com mapeamento da Firjan, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro. Mas Elaine acredita que ainda há muito a ser feito. “O terreno ainda é muito instável, ainda está se definindo qual o modelo de economia criativa adequado ao Brasil. Nossa maior riqueza é a diversidade cultural e nosso maior desafio é a desigualdade social. É preciso avançar na percepção da riqueza do papel da diversidade cultural na economia criativa e ter certeza da importância das políticas públicas para este campo. As iniciativas culturais não são sedutoras ao mercado”, relata.

Elaine explica: como o mercado visa sempre o lucro, muitas manifestações culturais importantes ficam à margem. “Existe um pedaço da cultura que não está inserido no mercado e precisa ser protegido por políticas públicas”. Eliane começou a sua carreira na Petrobras, onde trabalhou por 37 anos. Lá ocupou por 9 anos a Gerência de Patrocínios, e ficou à frente das seleções públicas de projetos e do Programa Petrobras Cultural.

A ação viabilizou mais de três mil projetos, provenientes de todas as regiões do país, envolvendo cultura popular, tradicional, de vanguarda, de centro, de periferia, analógica e digital. A experiência lhe abriu o olhar sobre o Pará.“O Pará sempre se destacou no Petrobras Cultural. O coeficiente entre o número de projetos inseridos e contemplados sempre nos chamou atenção. O Estado se destacava em todas as suas áreas com projetos diversificados e consistentes. Vocês possuem uma riqueza cultural fantástica e potência”, afirma a mestra em Bens Culturais e Projetos Sociais pela FGV-Rio, onde coordena o MBA de Gestão e Produção Cultural com ênfase em Economia Criativa.

TECNOLOGIA

Durante a pesquisa do mestrado em Bens Culturais e Projetos Sociais, Eliane se debruçou sobre a estrutura dos Pontos de Cultura, políticas de digitalização de acervos, e viu a necessidade de equilíbrio entre o direito de propriedade intelectual e o direito de acesso aos bens culturais e ao conhecimento. Sua tese resultou no livro “Jangada Digital”, lançado em 2011.

No livro, ela disserta sobre as dinâmicas das redes no Brasil, país reconhecido como um fenômeno quanto à capacidade e à velocidade de absorção das tecnologias digitais. Fala sobre a apropriação tecnológica pelas periferias sociais e geográficas, discorrendo sobre o fenômeno do aparecimento de dezenas de lan-houses nas favelas brasileiras. “As lan-houses são um fenômeno do microempreendedorismo periférico. Em 2011, 108 mil lan-houses estavam em ação em um país que tem apenas 2,5 mil salas de cinema. Há aí uma apropriação cultural da era digital”, revela.

Ela destaca “cases” de sucesso impulsionados pela tecnologia, como o tecnobrega, o “passinho” (vídeos que bombaram na internet com meninos dançando na favela) e o Calypso. “Antes de ir para uma gravadora, a banda Calypso já tinha chegado até as pessoas de outra forma”, comenta. “O modelo tradicional da indústria fonográfica passou por uma revolução. A tecnologia está aí o tempo inteiro. É uma realidade que não se pode desconhecer. Ela revoluciona a relação com o tempo, o espaço, serve para o bem e para o mal”, vaticina a consultora.

(Diário do Pará)

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