Performances teatrais são sempre uma incógnita. Por mais que a gente leia o enredo, nunca está preparado para a experiência sensorial que esse tipo de apresentação provoca. O olhar não sossega, os membros ficam inquietos e a mente esgota. Você é instigado o tempo todo. No espetáculo performático “Transophia” não é diferente.
A performance começa com minutos de silêncio e pura expectativa. A plateia circula à vontade, se espalha pelo chão e se apossa das paredes. A trilha sonora é provocante e de suspense. Dos altos do espaço o ator surge envolto em um lençol branco que interage com ele como um personagem material. O cenário é perturbador: um tablado em formato quadrado que lembra um camarim com fragmentos de HDs, impressora, lâmpadas, cabos, retalhos de tecidos brilhosos, fios e um par de sapatos de salto alto.
Gradativamente os objetos são agregados ao corpo da drag, proporcionando ao público uma visão cada vez mais onírica. A música de suspense dá espaço a um som envolvente e o trabalho de corpo do personagem ganha força, facilitado pela forma física delicada do ator. “Se montando” em cena, Sophia interage com a sonoplastia, que no repertório extenso apresenta Caetano Veloso dando uma pausa suave no ritmo intenso do espetáculo.
“Transophia” desnuda e veste o universo drag, ao mesmo tempo em que relaciona este processo à questão do consumo excessivo de tecnologia. Coloca em cheque uma Amazônia que não tem acesso à mesma tecnologia disponível na Europa. Há uma crítica ao consumo e o olhar voltado para a reutilização de materiais diversos e o lixo tecnológico que consumimos. Ao misturar uma série de referências em sua concepção, Pedro Olaia, que dá vida à personagem, traz para o corpo da drag a tecnologia desconstruída.
OPORTUNIDADE DE VER
Quem perdeu a estreia, pode conferir a temporada que continua hoje e amanhã e nos próximos dias 17 e 18 no Estúdio Reator, às 21h. O espetáculo tem duração de uma hora, com direção e visualidade de Nando Lima e pesquisa musical e operação de som de Dudu Lobato. Pedro Olaia é o ator em cena. Conhecido pelos trabalhos artísticos em que discute as relações humanas com o consumismo, o corpo e o meio ambiente, ele apresenta ao público a andrógena drag queen Sophia Mezzo, uma personagem que criou em 1999, em meio a andanças pelos guetos GLBTs de Belém.
As apresentações de Sophia, até então, vinham sendo feitas nas ruas e esta é a primeira vez que a personagem é vista dentro de um espaço fechado com uma estrutura de iluminação, sonoplastia e vídeo.
“Há uma diferença em fazer a Sophia dentro do Reator. Personagem de rua é outra coisa, você tem que fazer tudo grande e exagerado; aqui dentro tem algo mais intimista, próximo das pessoas, a atenção está toda nela, não tem nada externo. Então muda a ambientação, a plasticidade. É como se fosse um quadro sendo pintado, com a luz e a maquiagem desenhando este corpo. Na rua é tudo mais cru”, comenta Pedro.
“O Reator é um espaço experimental. As performances que a gente trabalha têm esse caráter de misturar linguagens de forma que expresse a opinião das pessoas envolvidas”, destaca Nando Lima, ator, diretor e proprietário do Estúdio Reator.
PRESTIGIE
“Transophia”
Quando: hoje e amanhã, e dias 17 e 18 deste mês
Horário: 21h
Onde: Estúdio Reator (Travessa 14 de Abril, 1053, próximo à Governador José Malcher)
Ingressos: R$ 20 (inteira) e
R$ 10 (para estudantes e classe teatral)
Mais informações: 8112-8497
(Diário do Pará)
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