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Laurentino surpreende no lançamento do CD

Pensei que ele não ia aparecer. A notícia de que Laurentino anda mal da saúde deixou em mim e em muita gente a sensação de que o CD “Laurentino e Os Cascudos” estava sendo lançado tarde demais. Apesar do showzão de lançamento durante o Festival Cultura d

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Pensei que ele não ia aparecer. A notícia de que Laurentino anda mal da saúde deixou em mim e em muita gente a sensação de que o CD “Laurentino e Os Cascudos” estava sendo lançado tarde demais.

Apesar do showzão de lançamento durante o Festival Cultura de Verão, na última quarta-feira, com participações especiais à altura do velho mestre, a sensação era de ausência, de que faltava o motivo maior de todos estarem ali.Mas ele apareceu. Mesmo visivelmente frágil, estava elegante como sempre, com sua indefectível indumentária brilhosa – um showman não pode se apresentar aos fãs de outra forma -, com seus dedos cheios de anéis e o chapeuzinho à cabeça.

Foi, sentou na banquinha de venda do CD e ficou ali, como nós, ouvindo aquele tributo feito por jovens que sabem reverenciá-lo à altura.E ele foi além. Depois de ouvir uma a uma as faixas do disco, interpretadas pelos Cascudos (Elder Effe no baixo, Camillo Royale e João Lemos nas guitarras e Junhão Feitosa na bateria), com participações de Ana Clara, Lucas Padilha, Jayme Katarro, Léo Chermont (que arrasou tocando a gaitinha do jeito que é marca de Laurentino) e Bruno BO, ele, inquieto apesar das limitações, subiu ao palco. Cantou “Loirinha Americana”, seu maior hit, e discursou, como sempre gosta de fazer quando tem um microfone à mão.

Falou sobre a carreira, sobre o amor que tem à família Palmeira, que o criou, e falou sobre o preconceito que “Loirinha Americana”, de forma divertida e despretensiosa, critica severamente. “O Brasil foi construído pelos negros! Devemos muito a esse povo que sofre tanto preconceito”, enfatizou.Foi difícil segurar as lágrimas. A voz embargou, o corpo tremeu, e a emoção de ver e ouvir Mestre Laurentino deixou o público extasiado.

Com dificuldades de locomoção e fala, e com o raciocínio mais lento do que estamos acostumados diante da vitalidade do mestre de 88 anos, ele precisou de ajuda de João Lemos para entrar certo na música, se amparou em Léo Chermont para não cair quando tropeçou nas pedaleiras, mas se de fato os médicos desconfiam que o Alzheimer esteja começando a atacar Laurentino, a doença ainda lhe permite total lucidez. “Eu me sinto jovem, gosto de brincar”, avisou, como que mandando um recado para a vida.

Esta mesma vida, que trouxe a fama um pouco tarde demais. Laurentino, tido por alguns como o roqueiro mais velho em atividade do Brasil, ficou anos à margem dos grandes palcos e tendo seus sucessos descobertos e cantados por gente com fama já estabelecida Brasil afora.

Graças ao extinto Mangabezzo e, depois, pelo Rádio Cipó, aquele hitmaker ganhou um rosto, um estilo, mas ainda assim ele era um detalhe dentro de projetos musicais que ainda não eram os seus.“Laurentino e Os Cascudos”, que começou como uma singela homenagem ao artista, acabou dando-lhe o tratamento roqueiro que ele sempre sonhou. Foram horas em estúdio para dar o tom pesado que cada música sua deveria ter e finalmente em mãos um disco materializado com seu rosto e sua voz como grandes destaques.Que bom que ele pôde e ainda pode viver isso.

Viu músicos jovens dando suas interpretações para músicas que já viraram clássicos (e aqui abro um espaço para destacar o duo de Bruno BO e Jayme Catarro em ‘Loirinha Americana’ como a melhor versão de todos os tempos da história desta música). Viu na plateia anônimos e gente famosa, muitos políticos e outros artistas como Gaby Amarantos, ali travestida de uma simples fã entregue ao som do ídolo. Viu sua família entusiasmada, a ponto de um dos filhos, superempolgado, distribuir ele mesmo autógrafos no disco do pai, para deixar ali sua marquinha eternizada também.

Ouvir aquele tributo ali, todinho para si, o colocou no lugar de destaque de outros artistas que merecem os louros de uma valorosa carreira. Tomara que ainda volte-lhe o fôlego para um show completo. Quem já viu Laurentino no palco sabe que aquele é o seu lugar.

(Diário do Pará)

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