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Instrumentistas ajudam a consolidar carreiras

Dizem que por trás de todo grande homem existe uma grande mulher. Na cena musical paraense, o ditado é invertido. Por trás das grandes cantoras da nova geração, existe um time de grandes músicos. Mais do que acompanhar vozes e repertórios, esses instru

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Dizem que por trás de todo grande homem existe uma grande mulher. Na cena musical paraense, o ditado é invertido. Por trás das grandes cantoras da nova geração, existe um time de grandes músicos. Mais do que acompanhar vozes e repertórios, esses instrumentistas participam do processo criativo das cantoras e influenciam muito no resultado do trabalho. O show é delas, mas a qualidade da banda não passa despercebida, embora muitos deles estejam escondidos atrás dos instrumentos. Conheça os músicos talentosos que, apesar de terem carreiras autorais sólidas, são “figurinha repetida” nos shows das cantoras paraenses.

Cantor, compositor, poeta, instrumentista, arranjador e diretor musical. Renato Torres, 42 anos, é quem acompanha Luê e Juliana Sinimbú (amiga dele há muitos anos e que tem em seu trabalho fortes influências do músico). Ele também já trabalhou com Aíla, Lu Guedes, Gláfira Lobo, Joelma Klaudia e Iva Rothe. Nas apresentações, toca guitarra, violão e dá uma palhinha nos vocais. A carreira musical iniciou no final dos anos 1980, formando diversas bandas, entre elas, Moonshadow e Clepsidra.

Renato defende que o mercado está movimentado e essa sintonia com os músicos é uma necessidade que se estabeleceu como via de regra. “Antigamente, uma cantora pensava em um diretor musical, um grande cara. E ele já começava a produzir com a equipe dele, os músicos com quem tem intimidade. Esses diretores estavam à frente de muitos projetos e os trabalhos acabavam ficando muito parecidos”, analisa. “Hoje, a dinâmica é diferente. As cantoras montam a própria equipe e muitas delas têm músicos que se repetem, mas não funcionam do mesmo jeito. Cada banda tem uma formação e as cantoras imprimem suas personalidades, seus repertórios, suas vozes. Isso é muito importante para criar resultados sonoros, shows e discos diferenciados”, completa Renato.

Ele acrescenta que esse comportamento não é novo. Elis Regina, por exemplo, montava equipes com quem trabalhava por anos. “As cantoras estão procurando profissionais com quem possam ter relação afetiva, que se envolvam com a música, que funcionem como uma espécie de família. Percebo uma coisa, que acho que se reflete também nos outros músicos: se você não é amigo delas, você acaba se tornando. Cria-se uma certa convivência, uma parceria. Elas têm várias ideias, fazem um diálogo democrático com os músicos, querem um caráter original e personalidade para a música”, afirma Renato, que ainda cita os parceiros Príamo Brandão e Maurício Panzera, ambos baixistas, nesse time de peso que tem feito a diferença na carreira das cantoras da nova geração.

PARTICULARIDADES CRIATIVAS

O guitarrista Marcel Barretto, 25 anos, toca como profissional desde 2008. Depois de uma temporada no Rio de Janeiro, onde trabalhou com BNegão, O Teatro Mágico e Enio Berlota, voltou a Belém e trouxe toda “bagagem” conquistada fora. Tocou com Juca Culatra e hoje acompanha a cantora Ana Clara. A música “O Céu em Dois”, presente no EP da artista, teve a melodia composta por ele, que também é o produtor musical do primeiro disco de Nanna Reis.

“Belém sempre foi musical e teve muitos músicos. O que acontece é que, de repente, eles tiveram mais evidência pelo fato de várias cantoras estarem em atividade. Antigamente, os músicos estavam ali só para acompanhar e não faziam parte do processo criativo. Hoje elas (cantoras) estão dando muita abertura e procuram os músicos em busca de nossas particularidades criativas”, acredita Marcel.

De acordo com ele, cada cantora inspira no músico um universo diferente. “Existem projetos em que você pode criar mais ou menos. Isso não significa que um seja melhor do que o outro, mas é um processo natural, acontece porque a identidade dele pede”, aponta.

O guitarrista acredita na potencialidade das artistas, mas diz que “falta uma dose de PJ Harvey nelas”, referindo-se à cantora britânica que é um dos ícones do rock nos anos 1990. “Acho que elas são muito boas e promissoras, porém precisam ter mais atitude feminina. Saber o que querem”, pontua.

ALÉM DAS FRONTEIRAS

Arthur Kunz, 31 anos, é o nome que comanda a bateria das bandas das cantoras Aíla, Luê Soares e Camila Honda. O músico começou a carreira tocando em grupos cover e de hard rock. Hoje, além do trabalho com elas, Arthur também compõe o duo Strobo, junto com o amigo e baterista Léo Chermont - outro que sobe ao palco com algumas intérpretes paraenses. “É mais prazeroso tocar com as meninas pelo nível de relaxamento. É um trabalho delas, enquanto que no Strobo, como é uma banda minha, um som autoral, o nível de tensão é maior”, admite o músico.

O caminho que ele tem trilhado ultrapassou os palcos paraenses e hoje Arthur mora em São Paulo. Lá tem tocado com artistas como Andreia Dias, Verônica Ferriani e Bárbara Eugênia. O prazer e a dedicação com os quais encara o trabalho na capital paulista são os mesmos, mas tocar com as conterrâneas é literalmente um show à parte. “Gosto de tocar com as cantoras paraenses porque os arranjos têm a pegada regional. Elas imprimem o frescor que a música brasileira está pedindo e exploram os ritmos desconhecidos do resto do Brasil”, revela.

Na gravação do CD de Luê, ele esteve ao lado de músicos da Nação Zumbi e Curumim. Também marcou presença nos estúdios onde foi gravado o primeiro trabalho da Aíla. “O disco da Aíla foi muito bem executado, tem uma qualidade sonora acima da média. Me orgulhei muito de ter feito parte do projeto”, comenta. Depois de alguns anos de estrada com as meninas, Kunz já consegue perceber a sonoridade de cada uma. “A Luê tem uma pegada bragantina, mais lenta e relaxante. A Aíla mistura brega com sintetizadores, é mais moderninha. Já o trabalho da Camila tem uma pegada de som que vem do baile, que acho bem bacana também”, descreve.

Segundo ele, as parcerias firmadas no palco são uma via de mão dupla e todo mundo sai ganhando. “Às vezes, tem artista com que a gente toca por um tempo, mas que, quando cresce, ‘lima’ a gente. No caso das meninas é diferente, rola uma troca muito grande. A minha saída para São Paulo tem a ver com a saída delas também. A busca delas por outros estados também me fez buscar isso: jogar tudo para o alto e seguir esse fluxo da ponte aérea”, conta Arthur. Luê e Aíla fixaram residência em São Paulo e o baterista, graças ao novo endereço, também as acompanha nos shows realizados fora do Pará.

NINGUÉM É DE NINGUÉM

“Ninguém é de ninguém. A gente acaba passeando muito”, brinca o guitarrista Léo Chermont, que toca com Luê, Aíla, Lu Guedes e Camila Honda. Recentemente, ele também participou da gravação do CD de Natália Matos. “Me sinto feliz de trabalhar com essas pessoas, ajudar a cena do estado. Cada uma tem suas sonoridades e particularidades, e é visível para mim as diferenças. Tento sempre buscar um som para cada uma, entender o que cada cantora quer, estudar as suas referências e deixar elas bem à vontade”, diz Léo, que integra a banda Strobo com Arthur Kunz. Ele acredita que o duo tem agregado valor não só para a dupla, mas para as cantoras que têm os dois na banda. “É uma troca igual”, diz.

Léo defende que a amizade construída no processo artístico faz toda diferença no resultado. “Sou muito amigo das pessoas com as quais eu trabalho. As cantoras não querem apenas um ‘supermúsico’, mas músicos que consigam somar e fazer a diferença. Muitas são novas, estão lançando o primeiro CD. Passamos muita experiência para elas e aprendemos muito também”, revela o guitarrista, acreditando no potencial das artistas. “Elas estão lançando discos muito bons e isso é muito legal. Acredito nelas e na sonoridade delas. Desejo que todas continuem trabalhando um passo de cada vez”, torce o guitarrista.

(Diário do Pará)

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