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Azulejos que estampam a parede da memória

Um cervo memorável com mais de mil peças. A coleção de azulejos que Rosa Lúcia Soares coleta e cataloga há quase 40 anos conserva a memória de Belém e do mundo com verdadeiras relíquias, com peças originárias de Portugal, Espanha, Holanda, Bélgica, Fra

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Um cervo memorável com mais de mil peças. A coleção de azulejos que Rosa Lúcia Soares coleta e cataloga há quase 40 anos conserva a memória de Belém e do mundo com verdadeiras relíquias, com peças originárias de Portugal, Espanha, Holanda, Bélgica, França, Alemanha e Inglaterra.

“Venho pesquisando e coletando peças, algo que ninguém antes tinha feito: catalogar os azulejos aqui de Belém. As peças já foram expostas no Museu do Estado e no Palacete Pinho. Minha coleção foi reconhecida e elogiada por autoridades no assunto, como Dora Alcântara e o português Vítor Serrão”, orgulha-se Rosa.

Segundo conta Rosa, a arquiteta Dora Alcântara, nome reconhecido na defesa do patrimônio cultural e pesquisadora com vários textos publicados sobre azulejos, não poupou elogios à coleção montada pela paraense. “Felizmente você realiza esse trabalho tão importante para nossa memória. Quem sabe essa exposição não pode ser permanente ou poderia se tornar o museu paraense do azulejo”, escreveu a arquiteta para a colecionadora, quando visitava uma exposição de Rosa e surpreendeu-se com a deterioração que a cidade passava, cada dia mais desnudada de seus antigos azulejos.

Em 2011, também em visita a uma exposição organizada por Rosa, o professor da Universidade de Lisboa, Vitor Serrão, escreveu: “Este trabalho ajuda a preservar a memória e o patrimônio de Belém e dos seus azulejos”, deixando a Rosa a recomendação de que a coleção fosse transformada em museu para ter uma existência solidificada.

Fora do Pará, o Museu da Casa Brasileira, subordinado à Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, demonstrou interesse em expor a coleção e dar a ela um local permanente. “Tenho certeza que meu acervo seria aceito para exposição em qualquer lugar do mundo, vários já me procuraram e demonstraram interesse”, revela Rosa.

Mas todo esse reconhecimento não foi suficiente para que Rosa fosse selecionada por uma curadoria regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para se candidatar ao Prêmio Rodrigo Melo de Franco Andrade 2014, promovido pelo órgão desde 1987, em reconhecimento às ações de preservação do patrimônio cultural brasileiro. “Achei que foi uma retaliação total à minha pessoa. Pesquiso há quase 40 anos em um estado em que poucas pessoas sabem identificar, reconhecer e fazer a catalogação adequada deste que é um patrimônio belíssimo de nossa cidade e que pode estar se perdendo”, lamenta Rosa, que recebeu uma carta da superintendente do Iphan Pará/Amapá, Maria Dorotéia de Lima, informando que seu projeto, que reúne azulejaria do século 17 ao século 20, não passou pelo crivo de uma comissão estadual e, portanto, não foi classificado para concorrer ao prêmio nacional.

O Iphan informou em nota à redação que aqui no Pará foram inscritas sete ações para concorrer ao Prêmio Rodrigo Melo deste ano, ultrapassando o limite de indicações possíveis por estado (no máximo quatro). Por isso, a superintendente regional Maria Dorotéia Lima esclarece que a comissão local selecionou as quatro propostas que melhor se enquadravam nas categorias e critérios indicados no edital: contribuição para a preservação do patrimônio cultural brasileiro, período de realização da ação (pelo menos uma etapa deveria ter sido realizada em 2013), além de análise da documentação que deve ser protocolada. O Iphan destacou que Rosa não enviou resumo da ação, que era um dos documentos necessários, e não deixou claro se sua ação inscrita possuía etapa ou fase de realização em 2013, e por isso não foi selecionada.


Coleção retirada de demolições

Rosa é formada em administração de empresas, mas conta que fez vários cursos sobre restauração e sobre catálogos de azulejaria, justamente porque se apaixonou pelo trabalho que cumpria em paralelo. “Me debrucei sobre os catálogos e aos poucos construí um acervo inigualável. Quando atingi 400 a 500 peças, já tinha uma rede de contatos de colecionadores da Alemanha e da França e outras partes do mundo”, gaba-se a colecionadora, que afirma ser conhecida no Brasil e fora dele pelo seu memorável acervo.

“Sou muito respeitada por conhecer o que estou apresentando. Esses azulejos vieram para o Brasil ainda na Belle Époque, quando o luxo permitiu que eles fizessem parte do revestimento de dentro e de fora das casas. Sou reconhecida pelos meus cuidados e pela preservação das peças, tenho azulejos que hoje já não existem mais”, afirma Rosa, que não se constrange em dizer que os demolidores de Belém encaminhavam espontaneamente os azulejos para ela.

“Todos me procuravam porque sabiam que eu gostava, e teve uma febre de demolição desmedida em Belém, na década de 1970, e então pude obter muitas peças”, relembra.

EXPOSIÇÃO E LIVRO

A coleção de Rosa teve início quando ela ganhou de presente três azulejos, um pouco deteriorados, que não a encantaram à primeira vista. As peças foram emolduradas e foram parar no terraço da casa dela. “Acredito que fui a primeira pessoa a emoldurar um azulejo e usá-lo na parede. Aos poucos fui me encantando e comprando outros, trazendo de outros países, de repente me vi rodeada por eles e percebi que estava apaixonada. Acredito que com isso eu preservei a história, não só de Belém, como do mundo inteiro”, orgulha-se.

Ela tem prazer em dizer que recebeu visitas de admiradores da sua coleção, entre eles um francês, que afirmou que as peças que ela tinha não existiam mais nem na França nem na Alemanha, porque a guerra havia destruído. “Isso me motivou ainda mais a mostrar esse acervo, pela beleza e pela conservação”, diz Rosa, que tem sido responsável, ela mesma, por curadorias de exposições das peças.

“Até outubro farei uma exposição e vou lançar um livro que deve se chamar ‘O Brilho e a Beleza do Passado – Azulejos e a Memória de Belém’, com muitas histórias sobre a minha coleção”, antecipa a colecionadora.

(Diário do Pará)

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