João Ubaldo Ribeiro, grande escritor brasileiro, se foi na última sexta-feira, vítima de uma embolia pulmonar. Mas sua obra está imortalizada no coração de cada um dos leitores que teve, de alguma forma, a história de vida marcada pelas belas palavras do autor. E a dor de perder alguém que se admira fica um pouco menos sofrida quando se acredita que suas palavras, ideias, sentimentos e paixões estão guardadas em suas obras e difundidas entre os que puderam conhecer aquele universo. “O homem sempre se vai. Mas também entendo que a imortalidade estava na palavra escrita”, desabafa o ator paraense e jornalista Adriano Barroso, que tem o baiano na lista de seus autores prediletos.
“Tudo nele me marca. Tenho todos os livros e me lembro da sensação que tive ao comprar cada um: a ansiedade, o coração batendo forte da livraria até em casa e o medo, desejo, amor, solidão, loucura de adentrar no universo que ele me jogaria”, descreve Adriano, que conheceu João Ubaldo pelas telas de cinema.
“Entrei no universo do Ubaldo pelo ‘Sargento Getúlio’, que primeiro vi no cinema e em seguida fui atrás do livro. De lá para cá o acompanho sempre. Estava feliz porque estava escalado para fazer o filme ‘Viva o Povo Brasileiro’, baseado na obra do Ubaldo, mas o projeto, que era do Ronaldo Duque, cineasta brasiliense, foi para gaveta por falta de dinheiro”, lamenta Barroso.
Elias Pinto, colunista de literatura do DIÁRIO DO PARÁ, teve a felicidade de conhecer João Ubaldo Ribeiro durante uma entrevista coletiva da Festa Literária Internacional de Paraty. “Destaco o humor e estilo bonachão dele, que brincava consigo mesmo dizendo que tinha cara de tudo, menos de escritor”, relembra Elias Pinto, ressaltando que Ubaldo, que também assinava colunas em jornais pelo Brasil (inclusive no DIÁRIO), estava entre os três maiores escritores brasileiros, dialogando com os leitores dos jornais sobre política e temas do cotidiano de uma forma única.
“O cronista João Ubaldo é um exemplo da literatura aplicada ao jornalismo. Ele faz parte de uma geração de grandes escritores que fazem este trabalho com belas crônicas literárias nos jornais”, elogia.
É por essas e outras que João Ubaldo Ribeiro está entre os autores contemporâneos que Elias Pinto mais admira. “Não podemos deixar de destacar a importância de sua obra-prima ‘Viva o Povo Brasileiro’, que é um dos grandes romances brasileiros. Ele vinha de uma tradição do escritor Jorge Amado - que, por sinal, era grande amigo dele -, de embarcar na história e viver cada personagem”, destaca.
A jornalista Anna Carla Ribeiro sempre foi apaixonada por jornalismo literário e foi assim que se encontrou com Ubaldo ainda no curso de jornalismo. “O livro ‘Casa dos Budas Ditosos’ me chocou pelo estilo, mas depois me encantou o jeito que o autor descreve as cenas.
Também fui fisgada pelo jeito peculiar de mostrar as raízes baianas no texto não de uma forma explícita, mas como se divulgasse a sua terra por detrás dos bastidores, ou seja, é como se ele desvendasse uma Bahia que só os conterrâneos conhecem. Mas o que mais me impressionou foi a ousadia do autor em escrever - muitas vezes de forma nua e crua - as relações sexuais que uma mulher teve ao longo de toda a vida. Não sei como, mas ele conseguiu unir um alto nível de literatura em uma história altamente erótica e promíscua”, relata.
Depois dessa introdução à obra de João Ubaldo, Anna Carla pesquisou sobre a vida do autor e admirou ainda mais o trabalho dele como jornalista. “O autor foi um dos marcos da minha descoberta em encontrar o que há de melhor na literatura brasileira contemporâna. Mesmo depois de anos lembro de diálogos e personagens inventados por ele. O que João escreve marca o leitor, não tem jeito”, frisa Anna.
Adriano Barroso diz que e difícil escolher sua obra favorita, já que o que o encanta é o fato de João Ubaldo exalar a brasilidade em todos os seus personagens. “Ele era um escritor brasileiro, no sentido mais íntimo e mais verdadeiro. Era um cara das ruas e estavam lá, nos livros dele, esses personagens brasileiros: malandros, meliantes, putas, patrões, elite e proletariado vivendo em um mesmo universo sob o céu brasileiro de tantas cores”, diz o ator, que lê para seu filho de sete anos e deu para sua filha de 16 uma obra infantil de Ubaldo, “Pandonar, O Cruel”.
Amigos lamentam
Nas redes sociais artistas lamentaram a morte repentina do escritor. “Acordei com a notícia da ‘partida’ de mais um amigo querido. Estou triste, João Ubaldo Ribeiro partiu nesta madrugada... Millôr deve estar esperando por ele e à nós resta a dor, a lembrança e a saudade #luto”, registrou Fafá de Belém em seu perfil no Instagram.
“João Ubaldo sem dúvida é um cronista da cidade, do país, com sua ironia, sua independência. É capaz de criticar o poder brasileiro sem o temor de agradar ou desagradar, mas eu gostaria de enfatizar o escritor, o criador, o homem de uma imaginação efervescente que passou sua vida fundamentalmente a fazer obras de criação. Ele já faz parte do panteão brasileiro”, disse a escritora da Academia Brasileira de Letras Nélida Piñon.
A presidente Dilma Roussef em nota de pesar disse: “A literatura brasileira perde um grande nome com a morte de João Ubaldo Ribeiro. Neste momento de dor, presto minha solidariedade aos familiares, amigos e leitores”.
(Diário do Pará)
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