Artistas que fazem rir de si mesmos e, assim, rindo, fazem pensar. “Só Doi Quando Eu Rio” é o espetáculo criado pelo Coletivo TartaRuga para brincar com situações e personalidades paraenses, promovendo, às gargalhadas, um abrir de olhos para questões como saneamento básico, educação, cultura e… por que o Teatro São Cristovão ainda não está reformado? Questões sérias que ganham um tom divertido de crítica.
Cláudio Melo, diretor do espetáculo, afirma que tudo foi pensado com base no gênero “besteirol”, ganhando assim uma estrutura cênica que não é rígida e permite muito mais a interação com o público, informal. Mas, ao mesmo tempo, se contradiz: “é um espetáculo que não tem nada de ‘besteirol’. Mesmo sem apelação, ele é crítico, ácido”, completa.
Há um ano ele e outros artistas do cenário cultural paraense iniciaram o movimento “Chega”, que envolvia não apenas artistas do teatro, mas também da música, da dança, da arte de rua, todos cobrando políticas públicas de cultura. “O espetáculo é fruto dessa nossa aproximação. Percebemos que nossa melhor arma é a nossa arte”, afirma o diretor.
O espetáculo está em cartaz todas as terças e quartas-feiras deste mês, no Teatro Cuíra. “O texto é repensado pelo grupo a cada semana e, caso um acontecimento dê piada, pode entrar como uma nova esquete”, explica Cláudio Melo. A narrativa tem ainda a influência de Dias Gomes em “O Bem Amado”, com a fictícia cidade de Sucupira como pano de fundo. “Como na cidade fictícia, aqui nada mudou em 40 anos”, conclui o diretor.
O que passou por algumas modificações para receber o espetáculo foi o prédio do teatro Cuíra. Já na chegada, um pequeno palco foi montado perto de poltronas e mesas parecidas com as de um bar. “Até mesmo a bilheteria muda a forma de vender ingresso, podemos vender cervejinhas lá. Tudo pode acontecer com esse elenco”, explica, rindo, a produtora Zê Charone. E foi exatamente isso o que aconteceu durante o espetáculo da última quarta-feira, surpreendendo o público.
O elenco surgiu na recepção, apresentou personagens, declamou poesia, batizou um avião e brincou com o público que aguardava o início do espetáculo. “Tudo nasce daquilo que a gente vive no dia a dia, do que acontece por aí e a gente acha que dá piada. Como a situação do celular… As pessoas têm disso, de achar que a gente quer saber da vida delas, e falam alto ao celular em qualquer lugar”, explica a atriz Ronalda Salgado, exemplificando uma das brincadeiras abordadas pelo espetáculo.
Ronalda tem 28 anos de teatro e o faz por amor. Quando o espetáculo daquela quarta-feira encerrou e os aplausos cessaram, comentou: “É maravilhoso. E é um grande prazer ainda estar em cena. A gente se diverte fazendo, e desde os ensaios foi assim, divertido. E é isso que faz dessa uma boa comédia. Você não pode querer fazer comédia esperando o riso. A comédia se faz quando você mesmo se diverte com aquilo que está apresentando”.
E diversão não faltou, com músicas do cancioneiro paraense que a plateia cantou junto ou achou graça de seus intérpretes caricatos; com versões bem-humoradas das personalidades e artistas paraenses que todos reconhecem facilmente ao primeiro trejeito; enfim, com a atuação de um grande elenco que subiu ao palco como um grupo de amigos querendo apenas se divertir com os visitantes daquele espaço.
DIVIRTA-SE
Espetáculo “Só Dói Quando Eu Rio”
Quando: Todas as terças e quartas-feiras de julho
Hora: Às 20h
Onde: Teatro Cuíra (Rua Riachuelo com 1º de Março - Campina)
Quanto: Entrada R$ 20, com meia entrada para estudantes
(Diário do Pará)
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