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Espetáculo com paraense mistura arte e gastronomia

Unir diversas sensações e causar no público o mistério de ir a uma programação inovadora. Gastronomia, teatro, música, circo, as artes estão todas misturadas para colocar na mesa de quem embarca nessa aventura cultural algo prazeroso. O projeto “Monólo

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Unir diversas sensações e causar no público o mistério de ir a uma programação inovadora. Gastronomia, teatro, música, circo, as artes estão todas misturadas para colocar na mesa de quem embarca nessa aventura cultural algo prazeroso. O projeto “Monólogos Comestíveis” é do chef Gabriel Vidolin, do restaurante O Leão Vermelho, em São Paulo em parceria com Cisco Vasques, artista multifacetado. Juntos, eles produzem uma série de espetáculos onde a cozinha divide o palco com a performance. Atualmente a paraense Lorena Lobato, 38 anos, assina o espetáculo teatral que compõe essa noite repleta de sensações aonde artistas se encontram e a comida molda-se para contribuir ao enredo, assumindo tônus de personagem, em texturas, aromas e sabores coadjuvantes.

“Vamos fazer espetáculos de teatro, música, circo e mais o que a invenção alcançar, onde serão servidos jantares que dialogam com o tema do que será servido no palco”, explica a artista. O jantar teatral é um espetáculo mais que completo e acontece na Cúpula, casa de Cisco no centro de São Paulo, onde Vidolin também vai cozinhar. O público não sabe ao que vai assistir, o que vai comer. A peça-conserto é assinada pela própria Lorena, que está em cena ao lado do pianista Daniel Grajew, que participa do espetáculo tocando obras dos grandes compositores do repertório erudito para piano. Lorena contou ao caderno Você mais sobre esse projeto tão envolvente e que te deixa no mínimo curioso pela proposta multissensorial.

Conte como é o enredo da apresentação

Vou fazer uma peça que escrevi há alguns anos e chama-se “Sem ConSerto”. É uma peça-concerto e, ao longo da história, as pessoas vão realmente assistir a um concerto do pianista Daniel Grajew, que tocará obras dos grandes compositores do repertório erudito para piano. Na peça, eu faço papel de uma russa que apresenta o concerto do filho “prodígio” e conta para o público um método que serve para qualquer um criar o seu próprio pianista. Ela diz que as pessoas vão ouvir sobre o método e ver o resultado, ao vivo, ao piano, através de seu filho, seu pequeno monstrinho.

Como têm sido os ensaios? Como você se prepara?

Não fazemos ensaio. Todos os envolvidos no projeto vêm se preparando ao longo da vida, desenvolvendo, de maneira reta e profunda, suas habilidades. O que estamos fazendo é juntar anos de pesquisa pessoal, numa costura muito tranquila e exata. Meus textos, a encenação, o Daniel Grajew tocando piano, o Gabriel Vidolin criando seus pratos incríveis e o Cisco, o dono do espaço e a pessoa que nos reuniu, um artista de várias habilidades. Todos, cada um em sua proposta, estão totalmente ensaiados. Me preparo diariamente e independente de estar ligada a algum projeto. Toco piano, assisto a concerto desde quando estudava aí em Belém no Carlos Gomes, danço, estudo instrumentos, escrevo. Então, na verdade, a lógica é outra, não me preparo para projetos, os projetos surgem ou procuro pessoas que têm a ver com o meu desejo de expressão. Já tentei, mas não sei fazer nada que não deseje muito e meus desejos não estão ligados a uma função, seja atriz, bailarina ou cantora, mas ao que eu quero dizer, e isso depende dos parceiros e lugares com que me sinto feliz de estar, de compartilhar.

Como é fazer parte de um projeto que mescla teatro e gastronomia? Quais os desafios e os prazeres?

Eu não estava mais com vontade de trabalhar com arte e passei a estudar profundamente gastronomia, primeiro pensando na saúde, depois, não teve jeito, comecei a me encantar pela alquimia, pela mágica, pela arte que é a gastronomia. Então, exatamente no momento em que não penso mais em teatro e meio artístico, toca o telefone e é o Cisco me chamando para uma reunião com o Gabriel Vidolin para falarmos sobre esse projeto, aonde eu poderia juntar a paixão antiga com uma nova. Além de poder trabalhar com um chef que entende muito de performance, de iludir, de criar sensações nos outros. O processo inteiro é fantástico. Por exemplo, Gabriel me mandou um e-mail perguntado se a Ana, a personagem russa, poderia, no dia do evento, ir fazer as compras com ele do que vai ser usado no jantar. Eu respondi que ela podia, e lá vou eu, a Ana, de russa, com sotaque e tudo, até a feira com o Gabriel. Ele realmente não vai mais conversar com a Lorena, quem vai à feira com ele é a russa e ele também não quer ir a feira com a Lorena, quer ir com a russa. Brincamos o tempo todo, essa é a performance, está além da hora marcada com o público. É divertido e é sério também, assim é o ofício, leve e com propósito, e esse propósito carrega um monte de informação.

Como surgiu o convite para participar?

Eu e o Cisco sempre conversamos sobre filmar umas ideias, já que ele filma bem e é muito livre em suas experimentações, sem perder a técnica, mas não concretizamos essa vontade. O Cisco conheceu o Gabriel num evento e quando se olharam, se entenderam imediatamente, olharam em volta e viram que aquela gente toda não tinha nada a ver com essa conjunção de artistas loucos para fazer o que bem entendem, de uma maneira muito pessoal. Driblaram todo mundo e ficaram só eles pensando no que desencadeou nesse projeto. O Cisco me chamou, junto com o Gero Camilo e cá estamos.

Você acha que o trabalho é diferente de tudo o que você já fez?

Esse projeto é muito especial pra mim, sim, porque vou encenar meus textos em diálogo com o que será servido, e em diálogo com dois artistas, o Gabriel e o Cisco. Um trabalho realmente de troca e costura delicada de linguagens. Canto há seis anos no Fasano (restaurante de São Paulo) e de certa forma estou acostumada a cantar nesse ambiente de gastronomia. Sempre estou envolvida em algo pelo que estou apaixonada, O projeto é diferente, na forma, de tudo que fiz, mas em tudo que fiz estive apaixonada assim também. Quando encontramos gente na mesma frequência, as vontades vêm livres e sinto que desse encontro vão surgir muitas possibilidades. A russa é o começo. Queremos fazer um cardápio de espetáculos, com gente que admiramos muito, fazer um filme enquanto o jantar acontece, performances que pensem arquitetura, pessoas, música, que provoquem sensações, pensamentos, prazer, riso, o paladar, enfim, aproveitar a Cúpula, que, por si só, provoca qualquer um. Estamos também cansados dos curadores, dos burocratas que selecionam os projetos e definem quem faz arte nesse país e, por outros motivos também, é por isso que a “arte” ficou chata.

(Diário do Pará)

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